Nova crise venezuelana favorece Maduro, crê especialista

Professor diz que situação ficou mais nebulosa para Guaidó, que agora precisa se provar como presidente da Assembleia antes de mirar ditador

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 08/01/2020 19:45

O principal líder oposicionista da Venezuela, Juan Guaidó, venceu um cerco de soldados fiéis ao presidente Nicolás Maduro e entrou na sede da Assembleia Nacional do país vizinho na manhã da última terça-feira (07/01/2020) para, em discurso efusivo e apoiado por deputados aliados, fazer o juramento como comandante do Poder Legislativo. Momentos antes, porém, outro parlamentar apoiado por deputados da base de Maduro, Luis Antonio Parra, também havia feito o juramento. Com isso, a Venezuela iniciou 2020 com um agravamento de sua insistente crise política.

Em discursos e nas redes sociais, Guaidó celebrou a “derrota de tentativa de golpe legislativo orquestrado pela ditadura e seus cúmplices”. Para o professor de Relações Internacionais do Ibmec de São Paulo Marcelo Suano, porém, o novo imbróglio fragiliza o líder oposicionista e dá algum fôlego a Maduro.

“Do ponto de vista estratégico, foi uma jogada positiva para Maduro, porque a divisão institucional do país se ampliou. Não está apenas entre os dois presidentes da República, agora a nebulosidade institucional chegou até a presidência da Assembleia, que está em disputa”, analisa o especialista, que alerta, no entanto, para um aumento do autoritarismo de Maduro, no poder desde 2012 e com mandato (questionado pela oposição e por boa parte da comunidade internacional) até 2024.

“A eleição de Luis Parra como presidente da Assembleia não parece legítima, a maior probabilidade é que seu grupo tenha mentido sobre o quórum mínimo na votação”, critica ele. “Já Guaidó parece ter de fato o apoio de ao menos 100 parlamentares, a maioria [são 167 deputados na Assembleia venezuelana]. Mas agora ele vai ficar às voltas com essa disputa parlamentar”, completa.

A situação, para o professor, ajuda Maduro a criar um ambiente de aumento da polarização com vistas a minar as chances da oposição nas eleições legislativas previstas para o fim deste ano. “Maduro vai tentar de todas as formas garantir a exclusão de partidos do processo eleitoral, como já fez nas últimas eleições presidenciais, que a maioria dos observadores considerou altamente fraudulentas”, aposta Suano.

Futuro cada vez mais nebuloso
Uma solução a médio prazo para a crise no país vizinho não está no radar do especialista ouvido pelo Metrópoles. “Para Maduro, porque ele tem os instrumentos da violência institucional em suas mãos”.

O professor acredita que mais da metade da população do país é crítica ao regime, mas que a aliança com as Forças Armadas segue garantindo o poder de Maduro. “A nebulosidade política inclusive aumenta a possibilidade de uma guerra civil, mas o país foi desarmado pelo regime nos últimos anos. Com isso, a possibilidade de um conflito interno iria depender muito de um apoio externo, especialmente dos Estados Unidos, que agora estão focados em outra frente”, completa, referindo-se à crise com o Irã.

Novos esforços
Em busca de manter a fé de seus apoiadores em alta, Guaidó está convocando uma nova onda de manifestações contra o regime de Maduro na próxima sexta-feira (10/01/2020).

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