Inundação “apocalíptica” faz Veneza declarar estado de emergência

A cidade foi totalmente inundada após fortes chuvas e marés altas. Principais pontos históricos estão fechados e alunos, sem aula

Reprodução/Twitter/@LuigiBrugnaroReprodução/Twitter/@LuigiBrugnaro

atualizado 14/11/2019 13:39

O governo da Itália declara nesta quinta-feira (14/11/2019) estado de emergência por conta das inundações “apocalípticas” que trazem uma “devastação generalizada” a Veneza. O primeiro-ministro Giuseppe Conte descreveu o fenômeno recorde como “um golpe no coração do país” depois de inspecionar os danos pela cidade. O pico da histórica “acqua alta” (maré alta) pode atingir ou superar 1,90 m, segundo o Centro de Marés da cidade italiana. Em uma reunião de gabinete hoje, a população espera que os líderes assumam “poderes excepcionais” para responder à tragédia climática.

Conte ofereceu fundos de emergência depois que as autoridades de Veneza disseram que os danos chegam a centenas de milhões de libras, incluindo milhões somente na Basílica de São Marcos, ponto histórico mais famoso da região que agora segue fechado para turismo. Segundo o Daily Mail, o arcebispo de Veneza, Francesco Moraglia, disse que a igreja sofreu ‘danos irreparáveis’: a cripta foi inundada pela segunda vez em sua história. Outros pontos, como o Teatro Fenice e o Palácio Ducal também ficaram sem atividades. As escolas permanecerão sem serviço hoje.

Na noite de quarta-feira (13/11/2019), as águas da Praça de São Marcos recuaram, mas apenas alguns turistas se aventuravam a cruzar o local. “Nunca vimos nada parecido”, relatou uma turista ao Daily Mail, ao falar que a única vantagem era o silêncio que ficou pela cidade. “A situação é dramática. Dói ver a cidade tão danificada, sua herança artística ameaçada”, lamentou outra pessoa no Twitter.

As fortes chuvas em toda a Itália, combinadas com os ventos do Sul que trouxeram marés altas para Veneza, levaram ao caos uma cidade construída em canais. Segundo o jornal italiano La Repubblica, águas altas têm trazido miséria para os moradores locais, encalhando barcos e gôndolas, danificando lojas e hotéis, além de alagarem praças e becos da cidade. Cadeiras e mesas eram vistas flutuando do lado de fora de cafés e restaurantes. Os danos incluem cinco balsas que servem como ônibus aquáticos, um meio crítico de transporte em uma cidade que não tem conexões rodoviárias ou ferroviárias, exceto para o continente.

Segundo a BBC, as águas de Veneza atingiram o pico de 1,87 m, de acordo com o centro de monitoramento de marés. Somente uma vez desde que os registros oficiais começaram, em 1923, a maré foi mais alta, atingindo 1,94 m em 1966. O prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro, culpou a mudança climática pelo desastre. Os níveis mais altos de água na região em mais de 50 anos deixariam “uma marca permanente”, tuitou Brugnaro. “Agora o governo deve ouvir”, acrescentou. “Esses são os efeitos das mudanças climáticas … os custos serão altos.”

O alerta também foi dado pelo ministro do meio ambiente italiano, Sergio Costa, que culpou também a ‘tropicalização’ de chuvas violentas e ventos fortes. “É isso que acontece cada vez mais no Mediterrâneo”, disse Costa no Facebook. “O aquecimento global destruirá nosso planeta se não revertermos imediatamente a direção.”

Basílica inundada
A inundação da Basílica de São Marcos causa preocupação por toda a cidade. A enchente provocou temores pela coleção de ricos mosaicos e obras de arte da igreja. Há relatos de que a água suja estava girando em torno de túmulos de mármore na cripta na noite passada. “Estamos falando de milhões de euros em danos”, disse Carlo Alberto Tesserin ao Daily Mail, primeiro procurador da Basílica, que é presidente de uma equipe responsável pelo gerenciamento do local histórico.

O arcebispo de Veneza, Francesco Moraglia, disse em uma entrevista coletiva que a Basílica está sofrendo danos estruturais. “A água subiu e, portanto, está causando danos irreparáveis, especialmente na seção inferior dos mosaicos e azulejos.”

Acqua alta
O fenômeno da “acqua alta” geralmente inunda zonas baixas da cidade, em particular a praça de São Marcos. No entanto, na noite de ontem, o fenômeno foi agravado pelo siroco, um forte vento saariano. Por volta de meia-noite, o Centro de Marés indicava uma altura de 1,87 m, a maior “acqua alta” desde o recorde registrado em 4 de novembro de 1966. O nível das marés é registrado em Veneza desde 1923.

Plano Moisés naufragou
Mesmo que a culpa recaia sobre as mudanças do clima, cresce na população a revolta por conta da corrupção que sustentou um projeto de barreira contra enchentes, que até hoje não foi concluído. O chamado plano “Moisés” envolve a construção de 78 portões móveis no fundo do mar que poderiam ser elevados para proteger a lagoa de Veneza durante as marés altas. O projeto foi iniciado em 2003, mas sofreu problemas por corrupção e custos crescentes, e não há data de conclusão da obra. Além disso, uma tentativa recente de testar parte da barreira causou vibrações preocupantes e os engenheiros descobriram que as peças estavam enferrujadas.

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