Incêndios e enchentes criaram locais raros na “terra escura” da Amazônia

Até então achava-se que práticas agrícolas dos indígenas pré-colombianos eram as responsáveis pelo solo fértil da região

Incêndios naturais e enchentes de rios, e não a engenhosidade das populações indígenas, criaram locais raros adequados para a agricultura na chamada “terra preta de índio” ou “terras escuras” na região Amazônica. Um estudo, publicado nesta segunda-feira (4/1), na Nature Communications, mostra que os processos naturais é que são os responsáveis por levar fósforo, cálcio e carvão, elementos que deixaram o solo fértil na floresta.

Pesquisadores há muito teorizavam que a presença de artefatos pré-colombianos, além de sinais de domesticação de plantas descobertas na região, significava que práticas agrícolas pelos povos indígenas, incluindo queimadas controladas da biomassa da floresta, aumentaram os nutrientes do solo.

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As fotos retratam perfis de solo típicos previamente descritos como ADEs franco-argiloso e argissolos muito argilosos (da esquerda para a direita: ADE ortodítrico; ADE Lixic, orthoeutric; e Ultisol hiperdistrico)
Mapas mostram a concentração de fósforo (P) e cálcio (Ca) extraíveis e suas proporções nos perfis de ADE e Argissolo
Hotel Urbano/Reprodução
Ernesto Carriço/NurPhoto via Getty Images
Victor Moriyama/Getty Images
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre agosto do ano passado e julho deste ano, os alertas de desmatamento na Amazônia tiveram aumento de 34,5%, na comparação com os 12 meses anteriores
Desmatamento anual entre 2013 e 2018
REPRODUÇÃO/WIKKIPEDIA
WILSON DIAS/ AGÊNCIA BRASIL
Ansa

Mas, a datação por radiocarbono do solo em uma bacia extensivamente estudada de 210 hectares perto da confluência dos rios Solimões e Negro, no Noroeste do Brasil, conta uma história diferente.

Segundo um dos líderes da pesquisa, o professor de estudos ambientais da Universidade de Oregon Lucas Silva, os níveis de fósforo e cálcio – dois dos macronutrientes menos abundantes na região e geralmente interpretados como evidência de atividade humana em outros locais – são de magnitude mais altas do que no solo ao redor.

Esses níveis se correlacionam espacialmente com 16 oligoelementos que indicam que a fertilidade não se formou no local, segundo o estudo. Combinado com outros elementos no solo e proporções isotópicas de neodímio e estrôncio, os pesquisadores concluíram que a inundação do rio antes do assentamento provavelmente entregou nutrientes e carvão.

Solo rico e fértil

Grande parte da Amazônia contém latossolos e ultissolos altamente intemperizados, tipos de solo tropical com alta acidez e baixos níveis de nutrientes. Artefatos arqueológicos foram encontrados em solo rico em carvão que começou a se formar há cerca de 7.600 anos, cerca de 1.000 anos antes da transição dos povos indígenas de nômades para populações sedentárias em fragmentos de terra no ambiente amazônico notoriamente pobre em nutrientes, segundo a observação dos pesquisadores.

“Grandes populações sedentárias teriam que manejar os solos milhares de anos antes do surgimento da agricultura na região ou, mais provavelmente, que os povos indígenas usaram seu conhecimento para identificar e preferencialmente ocupar áreas de fertilidade excepcionalmente alta antes do início do manejo do solo na Amazônia central”, afirmou o professor Lucas Silva.

Os registros do conteúdo do solo e da intensidade das monções anteriores indicam uma mudança causada pelo clima na dinâmica do rio após um longo período de seca entre 8 mil e 4 mil anos atrás. Essa mudança para inundações teria reduzido a perturbação do fogo, aumentado a cobertura de árvores regionais e “poderia ter causado padrões divergentes de acúmulo de carbono e nutrientes em áreas inundadas versus não inundadas”, consistente com os minerais na terra escura na pesquisa local.

De acordo com a pesquisa, as recentes descobertas ressaltam a necessidade de uma visão mais ampla para que se possa entender e redirecionar as aplicações para o uso e conservação sustentável da “terra preta”.