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Clare Hollingworth iniciou sua carreira jornalística com um furo de reportagem: em 1° de setembro de 1939, anunciou a primeira invasão da Polônia por tropas alemãs e, portanto, o início da Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, ela tinha 27 anos. Mais tarde escreveria sobre praticamente todos os grandes conflitos e guerras no mundo e se tornou um exemplo para as jornalistas.

ReproduçãoHollingworth nasceu em 1911 em Leicester, Inglaterra, e vive hoje em Hong Kong. Em outubro de 2016, ela completará 105 anos. Seu sobrinho-neto, o autor britânico Patrick Garrett, dedicou um livro à vida extraordinária de Clare Hollingworth: Of Fortunes and War: Clare Hollingworth, first of the female war correspondents (De sorte e de guerra: Clare Hollingworth, primeira entre as correspondentes de guerra).

O que Clare Hollingworth vivenciou ao ser enviada para a Polônia como repórter, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial?

Numa viagem de reconhecimento na região de fronteira, Clare descobriu o avanço de tanques alemães, poucos dias antes da invasão. Na terça-feira 29 de agosto de 1939, ela publicava sua primeira reportagem de capa no Daily Telegraph. A manchete era: “Mil tanques sobre fronteira polonesa. Dez divisões a postos para ataque rápido”.

Em 1° de setembro, então, dia da invasão, ela foi acordada pelo rumor dos bombardeios alemães e os disparos dos canhões. De início as pessoas ainda pensavam se tratar de um exercício, já que a situação estivera tensa por algum tempo.

Clare informou seu chefe em Varsóvia, que ligou para o Ministério polonês do Exterior pedindo um posicionamento. Aparentemente o Ministério soube através da mídia que a Polônia fora invadida. Mas então, em pleno telefonema, as sirenes de ataque aéreo ecoaram em Varsóvia e todos tomaram conhecimento do que havia acontecido de verdade. Ironicamente, também Clare teve dúvidas, temendo até mesmo um alarme falso, por os poloneses terem passado tanto tempo acreditando num exercício.

Clare estava ciente da dimensão histórica de suas reportagens?

Primeiro ela se perguntou se o jornal ia imprimir uma edição extra. Mais tarde admitiria – deve ter sido constrangedor para ela – que de início não teve consciência da dimensão humana, da imensa tragédia de uma guerra. Só quando o Reino Unido declarou guerra, ela percebeu o significado total dos acontecimentos. Então se perguntou se em breve seu apartamento não ia se transformar num monte escombros.

ReproduçãoDurante a época como correspondente, ela foi testemunha de inúmeras guerras e mudanças. Quais foram os eventos que mais a marcaram?

A invasão da Polônia foi o que mais marcou sua vida jornalística. Além disso, ela possui um caráter forte, quer sempre saber o que está acontecendo, quer sempre ser a primeira e tem um medo constante de perder notícias importantes. Ela pergunta o tempo todo o que as pessoas escutaram ou viram. A coisa culmina na neurose de que seu celular possa quebrar, por isso ela o está sempre verificando.

Ela também reconheceu desde cedo a ideia da internet. Já nos anos 80, era entusiasta dos primeiros arquivos de notícias online, que lhe possibilitavam obter informações de qualquer lugar. Mas Clare não pôde usar toda a extensão da moderna tecnologia de comunicação: quando teve seu próprio computador, ela já estava quase cega e mal conseguia ler o que estava na tela. Se tivesse nascido um pouco mais tarde, certamente seria viciada em Twitter.

Hoje vivemos novamente uma época de turbulências, marcada por crises internacionais. Hollingworth acompanha esses desdobramentos, apesar da idade avançada? Caso positivo, como ela vê isso à luz da própria experiência?

Clare está prestes a completar seu 105° aniversário, e agora está bastante debilitada. Há muito tempo ela já escrevia sobre muitas dinâmicas que agora se tornam cada vez mais importantes. Quando o candidato presidencial republicano Donald Trump fala que os Estados Unidos poderiam se distanciar de seus aliados na Otan, esse é um tema que Clare persegue desde os anos 1960.

Ela estava no local quando o Estado de Israel foi fundado, e no Oriente Médio durante a Segunda Guerra Mundial. Ela relatou sobre o terrorismo de motivação religiosa, sendo duramente criticada por isso por alguns acadêmicos. Infelizmente algumas de suas avaliações se provaram precisas.

Ela escreveu sobre a eficácia com que combatentes isolados podem investir contra uma superpotência, usando uma tática simples – também estamos vendo isso agora no Oriente Médio. Como correspondente na China, Clare tematizou possíveis tensões no Mar da China Meridional e no Oceano Pacífico, muito antes de esses conflitos constarem do noticiário diário.

Clare Hollingworth tem 105 anos

Quanto à sua vida hoje, é muito importante para ela ainda fazer parte do mundo da notícia. Ela faz questão de que seu passaporte esteja ao lado do travesseiro, e os seus sapatos, ao lado da cama, para o caso de um editor-chefe ligar para enviá-la numa viagem internacional. É claro que não vai mais acontecer, mas isso lhe dá um sentido para viver, e talvez também explique sua longevidade.

Clare Hollingworth é considerada pioneira em sua época, por ter adentrado um domínio masculino. Como ela vê seu papel na igualdade de direitos para as mulheres?

Clare certamente não foi uma feminista. Na realidade, ela era bem rebarbativa em relação às concorrentes do mesmo sexo, quase não houve sinais de solidariedade feminina da parte dela. O motivo é que ela acreditava em direitos iguais para todos, e jamais teria sido fã da discriminação positiva, que mulheres ou homens tivessem vantagens na carreira devido a seu sexo.

Quer no deserto ou na selva do Vietnã, Clare sempre queria estar perto das tropas. Ela vivia e trabalhava sob as mesmas condições que os soldados, tinha a sensação de não ser levada a sério se exigisse qualquer privilégio. Acho que Clare diria que sua contribuição para a igualdade de direitos foi prova de que uma mulher é capaz de fazer tudo o que um homem faz.

 

 

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