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Os ataques aéreos ocidentais tendo como alvo instalações de armas químicas da Síria não prejudicarão fundamentalmente uma máquina de guerra cujas principais bases, armamentos e pessoal permanecem em plena operação. Quaisquer expectativas da oposição de que a ofensiva fossem destruir ou degradar o poder aéreo letal de Bashar al-Assad ou as bases onde seus aviões de guerra e helicópteros começam missões de bombardeio foram rapidamente frustradas.

Os ataques dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França tiveram como alvo apenas as capacidades de produção de armas químicas de Assad.

O Pentágono disse que os ataques tinham como alvo três instalações – um centro de pesquisa na área de Damasco, supostamente ligado à produção e teste de tecnologia de guerra química e biológica; uma instalação de armazenamento de armas químicas a oeste de Homs; e um armazém de equipamentos relacionados a armas químicas e posto de comando, também a oeste de Homs. “Se é isso, Assad deve estar aliviado”, escreveu Randa Slim, especialista do Instituto do Oriente Médio, com sede em Washington, no Twitter.

Enquanto isso, neste sábado (14/4), o exército sírio declarou que a cidade devastada de Douma “foi totalmente libertada” depois de o último grupo de rebeldes te partido. Douma foi o local do ataque de armas químicas em 7 de abril e também a última cidade controlada pelos rebeldes na região de Ghouta oriental, no passado, um grande bastião rebelde perto da capital. Milhares de rebeldes linha-dura capitularam em Douma após anos de cerco e uma campanha aérea e terrestre ter matado centenas nas últimas semanas.

A reconquista de Douma efetivamente encerra uma rebelião de quase sete anos perto de Damasco e marca a vitória mais significativa de Assad desde que suas forças retomaram

a cidade de Alepo no fim de 2016. Com suporte dos aliados Rússia e do Irã, as forças armadas sírias devem voltar sua atenção ao restante do território detido pela oposição, nomeadamente no sul do país e na província de Idlib. Assad já consolidou o controle sobre a maior parte da Síria e seus principais centros populacionais.

Os ataques aéreos vieram como uma decepção para a oposição síria, com um porta-voz rebelde rotulando-os de “farsa”. O líder da oposição Nasr Hariri disse que a ofensiva foi bem-vinda, mas apenas reforçou a mensagem de que, embora não seja aceitável usar armas químicas, o governo pode continuar a “utilizar barris explosivos e bombas de fragmentação” com impunidade.

As capacidades de armas químicas de Assad permanecem envoltos em mistério. Apesar do compromisso da Síria de abolir seu programa de armas químicas em 2013, as autoridades dos EUA dizem que é “altamente provável” Assad ter mantido um estoque oculto. Informações coletadas de recentes ataques também sugerem que Assad tem uma “capacidade de produção continuada”, algo proibido em 2013.

Monitores de guerra da Síria disseram que militares do país esvaziaram bases aéreas e moveram equipamentos antes dos ataques O Pentágono disse, neste sábado, que os bombardeios “atacaram o coração do programa de armas químicas da Síria”, degradando significativamente a capacidade de usar essas armas novamente. Segundo autoridades russas, o dano foi mínimo: todas as principais bases aéreas estariam intactas e as supostas instalações de armas químicas haviam sido abandonadas há muito tempo.

O capitão Adulsalam Abdulrazek, ex-oficial do programa químico da Síria, disse que os ataques provavelmente atingiram “partes, mas não o coração” da operação. Segundo ele, havia cerca de 50 armazéns com armas químicas antes de o programa ser desmantelado em 2013. Ele acredita que aqueles armazéns, principalmente em áreas rurais, não sofreram grandes danos e o programa foi apenas parcialmente desmontado porque Damasco não permitiu inspeções.

É improvável os ataques terem qualquer impacto real no resultado da guerra civil ou sirvam para levar Assad à mesa de negociação para discutir um acordo político, como muitos esperavam. “Isso irá impedir Assad de usar armas químicas novamente? Possivelmente, mas também porque ele essencialmente ganhou a guerra de qualquer maneira”, escreveu Faysal Itani, membro sênior do Centro Rafik Hariri do Conselho Atlântico para o Oriente Médio. “Será que vai mudar alguma coisa? Para melhor ou pior, não.”

 

 

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