Chegar a Cusco é uma tarefa simples, basta pegar um voo. Complicado mesmo é sentir a força da natureza no corpo humano.

Situada a mais de 3.300 m de altitude, a cidade literalmente tira o fôlego do viajante. Primeiro, pela beleza. Depois, pelo ar rarefeito. Executar tarefas simples, como uma curta caminhada, pode cansar mais do que percorrer a corrida de São Silvestre. Para evitar esse mal-estar, conhecido como soroche
, cada um tem uma dica. Li tudo sobre o assunto e segui as mais citadas. Deixei o dia da chegada dedicado apenas a descansar. Nada de turismo, nem mesmo aquela voltinha de reconhecimento. Foi preciso dar um tempo e me adaptar a essa nova realidade.

Outras recomendações que segui: alimentação leve, evitar o álcool e tomar muita água. Também adquiri um costume local e gratuito aos viajantes nas recepções dos hotéis: beber o chá de coca
, de saquinho, industrializado ou a infusão da folha desidratada, in natura. Ajudava bastante.

Sempre é bom lembrar que cada organismo é único, ou seja, não há receita infalível – alguns sentirão mais os efeitos, outros menos. Vale a pena dar uma checada com seu
médico
de confiança antes de viajar e ter à mão o contato do
seguro de saúde
.

Onde ficar e onde comer em Cusco

No dia seguinte, já mais bem adaptado, comece aos poucos a explorar a cidade, de preferência pela central
Plaza de Armas
, endereço de pontos turísticos e de ótima gastronomia. Hospedar-se ali perto é altamente recomendável. São opções o
Del Prado Inn
, o
El Virrey Boutique
e o
Royal Inka I
(o chiquérrimo
JW Marriott El Convento
fica um pouco depois do centro, dentro de um prédio histórico).

Tal como sua irmã urbana, Lima, a formosa Cusco explora bem o paladar do turista. Ali mesmo, na Plaza de Armas, aproveite o
Ceviche Seafood Kitchen
. Outra opção certeira é o
LIMO
, que mistura comida peruana com toques japoneses.

Nas ruas paralelas ao ponto turístico mais movimentado de Cusco, o
Sumaqcha
é o legítimo BBB: bom, bonito e barato. Duas ótimas casas exploram a culinária italiana, a deliciosa
Incanto
e a saborosa
Pizzeria Justina
. Figuram em listas badaladas também o restaurante
Cicciolina
e o boêmio barzinho
Museo del Pisco
.

O umbigo do mundo

A antiga capital do império inca, mesmo com a falta de ar devido à altitude, respira história. Antes de conhecer todos os recantos da cidade, é preciso comprar um ingresso que contempla várias dessas atrações, uma espécie de passe livre. O
Bilhete Turístico
tem tarifas diferentes baseadas em três circuitos, mas recomendo o completo: ao preço de $ 130, dá acesso tanto às atrações de Cusco quanto às ruínas próximas.

É possível contratar empresas especializadas e percorrer os locais históricos, dentro e fora da cidade. Eu testei três modos diferentes de passear na região. O primeiro, ainda em Cusco, fiz em grupo, com profissional à frente da turma. Mas também utilizei o serviço de um motorista particular para chegar a determinado sítio arqueológico e, por fim, os serviços de um guia pessoal. Minha preferida foi a primeira opção, pois pude observar, aprender e, ainda assim, ter momentos mais soltos para curtir, observar e tirar fotos.

Dentro da cidade, aproveite para conhecer a
Catedral
, repleta de pinturas e obras de arte – a colonização espanhola e suas consequências é um dos destaques. No centro histórico cusquenho, também não deixe de ir ao
Koricancha
, o templo do sol da era inca. Uma igreja católica foi construída em cima dele depois da chegada dos europeus, mas o que sobrou desse sítio arqueológico não está mais enterrado.

Passando pelo
Arco de Santa Clara
, vá em direção ao
Mercado Central de San Pedro
, ideal para comprar os souvenires da família. Sinta também os aromas de temperos e quitutes tipicamente peruanos.

Ao sair de Cusco, deixe a mala no hotel, vale a pena viajar mais leve enquanto rumamos para a próxima etapa – os estabelecimentos guardam os volumes, é de praxe.

Pedra sobre pedra

Continue o roteiro no Vale Sagrado por
Tambomachay
, templo dedicado à água. Depois vem
Sacsayhuaman
. Essa fortaleza, posteriormente um local de cerimônias, não tem só um nome trava-línguas. Ela também é capaz de deixar o visitante embasbacado, tamanha sua magnitude. Construída nos idos do império inca, provavelmente no século 15, fica a apenas 2 km de Cusco.

No caminho para ruínas famosas, não deixe de ir a
Awana Kancha
, onde moradores da região vendem belas peças artesanais. Dá ainda para alimentar e tirar fotos com as simpáticas lhamas e alpacas, animais típicos da fauna local.

Um pouco mais distante fica
Chinchero
, onde o visual impressiona – há também lá uma feirinha e uma igreja com arte bastante elogiada.

A apoteótica
Pisac
(a 33 km de Cusco) se divide entre uma parte “urbana”, aos moldes espanhóis, e outra ancestral, em pedras. O que mais chama atenção é uma espécie de arquibancada de 400 m onde o povo inca realizava experimentos de plantação e desenvolvia técnicas de irrigação. É a mesma tecnologia usada em
Moray
, esta um pouco menor, com visual que beira a ficção científica. No caminho, dê uma parada no restaurante típico
Pumachayoc
, o qual serve empanadas deliciosas.

Chegamos, então, a
Maras
(a 40 km de distância de Cusco). Lá não neva, mas a paisagem é completamente branca por causa do sal. Esses reservatórios são controlados por famílias que moram na região. Nos mercadinhos próximos, vende-se o mineral em versão tempero e até em doces (ele dá um toque especial ao chocolate).

O caminho até Machu-Picchu

Cusco

Cusco é base desta parte da viagem. Explore as belezas da cidade para começar: por exemplo, a Catedral e o Koricancha

Tambomachay e Sacsayhuaman

Busque um passeio e vá até Tambomachay e Sacsayhuaman

Awana Kancha e Písac

O outro dia pode ser reservado para Awana Kancha e Pisac

De volta a Cusco

Cusco também é o ponto de partida para a próxima jornada. Pegue sua mochila e siga pelos passeios em Chinchero, Moray e Maras

Ollantaytambo

Reserve um hotel em Ollantaytambo e visite as ruínas com calma, depois curta a tranquilidade do aprazível povoado

Machu Picchu

Parta de trem em direção a Aguas Calientes para passar a noite. Acorde ainda de madrugada e aproveite ao máximo o passeio em Machu Picchu. Volte, também de trem, até a estação de Poroy e passe mais uns dias em Cusco, então retorne para casa cheio de boas lembranças

Chegando perto

Ollantaytambo
é uma das últimas paradas antes da cereja do bolo, Machu Picchu. De tão encantadora, a cidade pede mais tempo que aquelas no caminho até ela. Reservar pelo menos um dia e uma noite antes de seguir. Nesse período, também dá para recuperar um pouco o fôlego. Depois de encarar a altitude de Cusco, fica mole respirar nesses “apenas” 2.700 m acima do nível do mar.

Com preço bacana e ótima localização, o
Sol Ollantay Hotel
é simples, porém justo, e propicia uma vista maravilhosa das ruínas. Com a bateria recarregada, explore, ainda usando seu bilhete único, a fortaleza da cidade, digna de fotos impressionantes.

No jantar, sente-se no
El Albergue
, localizado na estação de trem da cidade. O endereço também sedia um hotel bem-cotado. Quem tiver coragem pode experimentar o tradicional
cuy
, ou
porquinho-da-índia
, lá servido em versão praticamente a passarinho. Falando nisso, o
Mayupata
, mais simples, serve carne de
alpaca
.

Penúltima parada

O vagão
Vistadome
, da
PeruRail
, percorre um bonito trajeto até
Aguas Calientes
, base para quem planeja visitar Machu Picchu.

A viagem, com quase duas horas de duração, fica ainda mais interessante neste transporte com enormes janelas – prepare a câmera e registre o caminho. Esta companhia também tem outras opções de trajetos, preços e comodidades, inclusive saindo direto de
Poroy
, a estação mais próxima de Cusco (por onde voltei, desta vez pela
Inca Rail
).

Aguas Calientes é uma cidade mais moderninha, caótica, sem tantos atrativos quanto as visitadas anteriormente. Entretanto, o clima é um dos melhores. Os turistas ocupam o lugar com alegria, tanto aqueles na expectativa de conhecer Machu Picchu quanto os grupos contentes na volta de lá.

O
Hotel Ferré Machu Picchu
é uma das melhores opções para se hospedar, fica do lado da estação de trem. O
Indio Feliz
é a dica gastronômica da vez. Em seu interior, a casa é repleta de cartões, bilhetes e outras lembrancinhas coladas nas paredes por visitantes de todo o mundo.

A cidade perdida

O despertador toca, nem amanheceu. Depois do banho, arrumar a mochila: guia, protetor solar, repelente. Nos hotéis de Aguas Calientes, o café começa ainda na madrugada. Nas ruazinhas o movimento é de metrópole. Tudo isso porque as visitas a
Machu Picchu
têm início às 6h, a tempo de se pegar o nascer do sol.

A partir deste ano, o esquema de acesso ao local mudou. Agora se adquire o ingresso, a $ 150, por horário de entrada. Uma vez dentro, dá para passear com calma por ali, em até quatro horas – mas quem saiu, não volta mais. Aconselho chegar com o bilhete já no bolso. Faça isso pelo site, é seguro e rápido. No dia anterior, ainda em Aguas Calientes, compre a passagem de ônibus até lá, com direito a ida e volta. A fila quilométrica começa a se formar antes do alvorecer.

O trajeto leva uma meia horinha, tempo suficiente para sentir a paisagem mudando conforme se é transportado para o segredo mais bem guardado da dinastia inca. Ao entrar no parque arqueológico, vemos uma homenagem a
Hiram Bingham
, explorador que trouxe a cidade à tona em 1911, depois de séculos escondida.

Depois de subir mais um pouquinho a pé, é chegado o grande momento. Deixe a foto para depois. Apenas pare. Aprecie. Agradeça. Machu Picchu libera o lado “pode crer” de qualquer bicho da cidade grande, acredite. A
paisagem
é tão incrível que… olha, poderia escrever o maior textão do mundo e não chegaria aos pés do que seus olhos testemunharão ali. Nessa última parada da viagem, você certamente vai se lembrar um pouco de todas aquelas anteriores. Ao mesmo tempo, a experiência completamente nova surpreende. Difícil entender, não? Só vendo para crer.

Quando terminei esse circuito, depois de muitos dias visitando esse fascinante país, da urbana Lima, passando pela histórica Cusco e até chegar em Machu Picchu, fiz um post no Instagram explicando uma expressão típica do Peru que é símbolo de despedida. Ou melhor, de até logo. É com esse texto que desejo a vocês uma boa viagem!

“Tupananchiskama. Palavra em quéchua, língua indígena, centenária, falada por grande parte da população, praticamente o segundo idioma oficial do Peru.

Significa que voltaremos a nos ver.

Se não nessa vida, nas outras…

Tupananchiskama, Peru!

Até a próxima aventura!”

Continue a viagem

Arthur H. Herdy

Assim como 99% da população, este jornalista, há mais de 10 anos atuando em grandes veículos de comunicação da capital federal, detesta falsidade e ama viajar. Este último item, aliás, o faz gastar o que tem e o que não tem só para colocar o pé na estrada, mesmo com uma ligeira fobia de aviões. Seus destinos favoritos envolvem comida boa, agitos urbanos ou cenários paradisíacos – por isso, Buenos Aires, Nova York e o estado da Bahia estão sempre na lista de desejos.

Diretora-Executiva
Lilian Tahan
Editora-Executiva
Priscilla Borges
Editora-Chefe
Maria Eugênia
Coordenação
Olívia Meireles
Reportagem
Arthur H. Herdy
Revisão
Adriano Brasil
Edição de Arte
Gui Prímola
Design
Stela Woo
Moisés Dias
Tecnologia
Allan Rabelo
Saulo Marques
André Marques