Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Sou viajante solitário
que carrega o seu rosário
no painel do caminhão

Sou um honesto brasileiro
o melhor caminhoneiro
que cruza este sertão

*Viajante Solitário –  Cezar e Paulinho

Enquanto conduz um caminhão-tanque com potência de 460 cavalos, 19m de comprimento e carga de 35 toneladas de óleo vegetal, Sandra Sasinski, 39 anos, cita Simone de Beauvoir. “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, diz, entre uma ultrapassagem e outra. Ela cumpre a rota de 1.400 quilômetros de Luziânia (GO) a Conceição da Feira (BA).

A paranaense (foto abaixo) toma emprestadas as palavras da filósofa francesa e ícone feminista para explicar como enfrentou machismo, ameaças de agressão, tragédias pessoais, medo de assalto, violência física e se estabeleceu como caminhoneira há 12 anos.

Do alto de seus 1,60m, Sandra ostenta valentia. Sozinha, percorre 11.200 quilômetros a cada mês pelas rodovias do Brasil, transportando produtos que movimentam a economia nacional.

Assim como ela, Andréia Damasceno, 33 anos, também vive na estrada. Percorre o Sudeste carregando 45 toneladas de ferro-gusa, carvão e cal. Amarra lona, arruma caçamba, suja-se toda, toma banho em posto de gasolina, dorme dentro do caminhão. Ao mesmo tempo, escolhe decoração cor-de-rosa para o seu cantinho na boleia e aproveita as folgas para conhecer o país.

A mineira (foto abaixo) só entrou no ramo, passando por cima de todos os medos e preconceitos, porque viu, nas páginas de uma revista, o perfil da caminhoneira Nahyra Schwanke. Hoje com 88 anos, ela foi uma das primeiras brasileiras a dirigir caminhão profissionalmente.

Sandra e Andréia representam um universo crescente: o de mulheres que não se intimidam com a dureza dessa profissão cercada por estereótipos, e assumem o volante de veículos pesados.

É amor, amor pela estrada. A vida nas rodovias, no comando de grandes máquinas, representa a liberdade de acordar em uma cidade e dormir em outra e as possibilidades de conhecer gente de todo jeito e de aprender, em primeira mão, como funciona o país, apesar da solidão e dos contratempos pelo caminho.

No Brasil, são 182.376 cidadãs habilitadas a dirigir caminhões, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Elas correspondem a 6,5% do total de quase 3 milhões de profissionais com carteiras das modalidades requeridas para esse tipo de condução.

Quando a categoria parou o país para reivindicar, entre outras demandas, a redução do preço do óleo diesel, em maio de 2018, não havia rostos femininos nas lideranças do movimento. Mas as caminhoneiras estavam ali: organizando protestos, administrando grupos de WhatsApp e demonstrando apoio nas ruas e redes sociais.

São parte, cada vez maior, de uma massa de trabalhadores essenciais ao funcionamento do Brasil.

O Metrópoles pegou carona na boleia de dois veículos conduzidos por caminhoneiras. A equipe de reportagem foi de Brasília à Bahia e desbravou Minas Gerais. Percorreu 2 mil quilômetros para revelar perigos, desafios e alegrias encontrados por essas profissionais em suas viagens.

No trajeto, uma certeza: o cotidiano das caminhoneiras é marcado pela superação. Quem decide levar a vida na estrada precisa de força física para dar conta do dia a dia, tirar e colocar lonas nas carrocerias e manobrar máquinas enormes. Também desenvolve uma percepção aguçada para identificar os problemas mecânicos de seus veículos e as “armadilhas” na pista.

Para as mulheres dessa profissão, contudo, há uma exigência a mais. Elas aprendem a calcular as paradas no trajeto, sempre preocupadas com a segurança. Muitas estiveram sob a mira de armas durante roubos de carga e criaram estratégias próprias na tentativa de se protegerem de assédio e violência sexual.

“Há aspectos como uso da força física; desafio em conciliar a vida dentro e fora do caminhão; conflitos na relação conjugal decorrentes da profissão; discriminação sexual e necessidade de reconhecimento no trabalho”, descreve a pesquisadora Luna Gonçalves da Silva, autora da tese de doutorado Mulheres motoristas de caminhão: realidades, estereótipos e desafios, da Universidade de São Paulo (USP).

“Além de todas as pressões que independem de gênero, elas, por serem mulheres ao volante, precisam provar a todo momento que são capazes.”Luna Gonçalves da Silva, doutora em ciências

Durante quatro anos de pesquisa, Luna recebeu relatos de caminhoneiras sobre os desafios do dia a dia. Entre as principais questões detalhadas, está a falta de infraestrutura para as trabalhadoras em empresas e pontos de parada nas rodovias brasileiras, bem como uma lista de problemas de saúde decorrentes da atividade laboral.

“A inserção das mulheres no transporte rodoviário de cargas desafia empresas e a infraestrutura existente nas rodovias do país a acompanharem as transformações sociais no mundo do trabalho, incluindo as demandas de um novo perfil de trabalhadoras”, diz Luna Gonçalves.

“Os impactos do trabalho são dores lombares e na coluna; problemas relacionados ao sono; necessidade de recorrer ao consumo de drogas, como anfetaminas e cocaína, para se manterem acordadas; estresse; infecção urinária e uso ininterrupto de anticoncepcionais”, descreve a pesquisadora da USP em sua tese de doutorado.

Conforme ressalta a especialista, a entrada de mulheres em “atividades masculinas” ameaça a predominância de homens em determinados segmentos do mercado de trabalho. Derruba, ainda, pretensões e capacidades ditas como exclusiva deles, tais como a força física.

“Percebidas como intrusas em território masculino, as mulheres são confrontadas com diversas formas de perseguição, podendo chegar à violência física, além de serem constantemente marginalizadas”, detalha Luna.

Na cultura da estrada, todos ganham um codinome, o QRA. O apelido é usado, por exemplo, em conversas de rádio. Entre os colegas de trabalho, as mulheres caminhoneiras são chamadas de “cristal”, mas suas características em nada remetem à fragilidade desse material.

Durante muito tempo nesse meio, o gênero feminino só tinha lugar nas revistas adultas carregadas na boleia. Quando muito, mulheres estavam no assento do passageiro, fazendo companhia a namorados ou maridos. Aos poucos, elas conquistam espaço e protagonismo no setor.

Foto: Igo Estrela/Metrópoles

Três dias na estrada com Sandra Sasinski, a Valente

Naquela curva a beira da estrada, uma cruz ao lado do pinheiro
Marca pra sempre onde foi ceifada a vida e o sonho de um caminhoneiro
Com a morte do companheiro a saudade vai chegar
Aqueles bons e velhos tempos nunca mais irão voltar

*Sonho de Um Caminhoneiro –  Milionário e José Rico

Domingo, 7h em Luziânia (GO), a paranaense Sandra Sasinski, 39 anos, aguarda o carregamento do caminhão para seguir viagem. Nos próximos dias, terá a missão de entregar 35 toneladas de óleo vegetal a uma fábrica de ração em Conceição da Feira (BA). Serão, aproximadamente, 1.400 quilômetros entre o ponto de partida e o de chegada.

Acostumada a viajar sozinha, Sandra teve companhia: repórter e fotógrafo do Metrópoles pegaram carona na boleia para conhecer a rotina de quem carrega, pelas rodovias que cruzam o país de Norte a Sul, uma importante parte da economia brasileira. Durante os preparativos, ela era a única funcionária na garagem da empresa para qual trabalha, a Sulina.

Os colegas a tratavam com reverência. “É uma verdadeira motorista, tem intimidade com o caminhão, suja as mãos, é profissional”, elogiou um deles, antes de estender à Sandra um chimarrão e desejar boa viagem.

Logo no começo do percurso, a tampa do filtro de ar do veículo cai na estrada. Os ouvidos atentos da motorista percebem rapidamente o problema. Ela estaciona e procura o item à beira da pista. Leva poucos minutos para encontrá-lo e seguir viagem. “Eu me conecto com o caminhão como se ele fosse meu avatar. Sinto cada barulho, cada vibração”, diz.

Mais à frente, Sandra nota um parafuso no asfalto e desvia cuidadosamente dele. Tem olhos de águia para evitar danos ao veículo. Imprevistos, porém, são inevitáveis. Em Simolândia (GO), o pino de centro do feixe de molas, importante para o funcionamento da suspensão, quebrou – algo que a motorista só descobriu porque entrou debaixo do caminhão para checar cada item durante uma parada.

Como era domingo, o socorro só viria no dia seguinte. A precaução e o conhecimento da profissional, porém, evitaram maiores complicações. “Se eu não tivesse visto, poderia ter acontecido um acidente. Parte importante do trabalho é zelar pelo caminhão, por mim e por quem está ao redor. Quando saio com uma carga, o esforço de uma equipe muito grande está em jogo”, explica.

Na segunda-feira, Sandra soluciona o defeito e segue em frente por mais de 1 mil quilômetros. A hora marcada para a entrega da carga é sagrada. Para recuperar o tempo perdido, seria preciso dirigir parte da noite. “A empresa segue as regras de descanso e exige exame toxicológico periódico de todos os motoristas, com o objetivo de evitar o uso de drogas”, relata.

Na estrada, Roberto Carlos, Sula Miranda, Cezar e Paulinho, Milionário e José Rico e Chitãozinho e Xororó fazem companhia. As trilhas mais animadas ajudam a espantar o sono, enquanto as românticas despertam lembranças do passado. Assim, Sandra não se sente tão sozinha. Quando dá tempo, ela lê um livro ou faz crochê para relaxar antes de dormir. Passa a noite sempre na boleia, pois motorista e caminhão são inseparáveis.

Depois de algumas pausas para comer pastel e ir ao banheiro, a carga chega à Conceição da Feira no horário combinado. É hora de relaxar com um bom chimarrão e se preparar para matar a saudade de casa. Sandra fica até 30 dias longe de Pranchita, a 800km de Curitiba (PR), onde vive com os pais, agricultores, e os dois irmãos.

Foto: Igo Estrela/MetrópolesDo alto de seus 1,60m, Sandra ostenta valentia. Sozinha, percorre 11.200 quilômetros a cada mês pelas rodovias do Brasil
Foto: Igo Estrela/MetrópolesCaminhão está sempre limpo e com manutenção em dia. Veículo é a casa do motorista
Foto: Igo Estrela/Metrópoles“Parte importante do trabalho é zelar pelo caminhão, por mim e por quem está ao redor. Quando saio com uma carga, o esforço de uma equipe muito grande está em jogo”, afirma Sandra
Foto: Igo Estrela/MetrópolesPernoite na boleia: a cama fica atrás dos bancos de motorista e passageiro
Foto: Igo Estrela/MetrópolesCuidados pessoais, como pentear os cabelos, também ocorrem na boleia. Nem sempre há banheiros femininos nas paradas
Foto: Igo Estrela/MetrópolesSandra carrega um kit completo de ferramentas, elas ajudam na manutenção do veículo e evitam acidentes
Foto: Igo Estrela/MetrópolesA caminhoneira tem olhos treinados para reconhecer o perigo na estrada: enxerga até parafusos no asfalto
Foto: Igo Estrela/MetrópolesNas paradas, Sandra faz um checklist dos itens de segurança. Neste momento, identificou defeito na suspensão
Foto: Igo Estrela/MetrópolesPrivação de sono é uma das principais causas de acidentes na estrada. Empresa exige exames para coibir uso de estimulantes
Foto: Igo Estrela/MetrópolesNa chegada ao destino, chimarrão para lembrar de casa e relaxar. Sandra também carrega um pequeno fogão e itens básicos de cozinha
Sandra prepara-se para dormir. “Evito andar no pátio do posto de gasolina de madrugada por questão de segurança”, explica
Foto: Igo Estrela/MetrópolesSandra Sasinski aprendeu a domar o caminhão: “É como se fosse meu avatar”
Foto: Igo Estrela/MetrópolesAntes de pegar no sono, ela lê livros, faz crochê e escuta música
Foto: Igo Estrela/MetrópolesAlmoço na estrada: pausa para um pastel frito na hora e caldo de cana

“Es valiente!”

O volante é grande demais, os pés de Sandra por pouco não alcançam os pedais, mas nada disso tem importância. Todo mês, ela ganha prêmios da empresa por conseguir economizar combustível. É funcionária modelo, famosa pela seriedade e bravura. A profissional recorre ao filósofo Mario Sergio Cortella para explicar como se sente. “Coragem é preparo e não mera disposição eufórica”, afirma.

Ela, que tem dois diplomas de curso superior – em pedagogia e em comércio exterior –, já dirigiu caminhão frigorífico em países do Mercosul e comandou veículos de nove eixos, com 25 metros de comprimento, pelo Nordeste brasileiro. No Chile, enfrentou riscos de avalanches e de congelamento dos freios. Por onde passava, ouvia uma saudação: “Es valiente!”.

Quando começou na profissão, em 2005, Sandra Sasinski descia do caminhão pelo lado do passageiro ao parar nos postos de gasolina. Assim, os homens no local achavam que ela era apenas carona e estava acompanhada do marido; portanto, não a abordavam. Essa se tornou uma forma de proteção durante as longas viagens.

A motorista também não circula de madrugada nos pátios dos postos. Programa paradas, banhos e refeições sempre levando em consideração a própria vulnerabilidade. Os estabelecimentos, até pouco tempo atrás, não ofereciam banheiros femininos, o que começou a mudar com a presença de mais mulheres caminhoneiras.

Sandra não carrega enfeites nem adesivos no caminhão, ela não gosta de chamar atenção. “Tenho cautela, medo não. Medo paralisa, cautela faz você se resguardar”, ensina a motorista. “Não temo a estrada, pois, afinal, que lugar é seguro?”, questiona.

Uma tragédia fez da paranaense uma mulher ainda mais destemida. O gosto pela profissão começou com uma história de amor: a que viveu ao lado de Antônio. Os dois namoraram desde a adolescência, casaram-se e, juntos, compraram um caminhão. Sandra deixou o emprego público como professora de pré-escola para seguir com o marido nas rodovias. O LS Frontal vermelho se tornou a casa deles.

Apenas um ano depois do casamento, e cinco meses após a compra do veículo, Antônio foi assaltado na BR-277, a caminho de Cascavel (PR). Levou quatro disparos e morreu. “Nessas horas, você tira coragem de onde nem imagina. Fui atrás da minha habilitação e caí na estrada, em 2005. Era uma forma de me manter ligada ao meu marido. Depois, me apaixonei pela profissão, pela liberdade”, relata.

Sandra quitou todas as prestações do veículo e teve de lidar com situações difíceis em oficinas mecânicas. “Já se recusaram a devolver meu caminhão, pois achavam que eu não era a dona. Certa vez, sete homens me fecharam numa sala e tentaram me coagir a pagar a mais pelo serviço. Não abaixei a cabeça e paguei o justo”, lembra. “Tenho um lema: não me aperta, que não te machuco”, diz, resoluta. Hoje, o veículo pertence ao irmão dela, que transporta cargas no Paraná.

“Já ouvi de um mecânico que ele só não metia a mão na minha cara porque eu era mulher.”Sandra Sasinski, 39 anos, caminhoneira

Ela se alegra quando encontra outras caminhoneiras pela estrada, mas ainda vê um longo percurso para que as brasileiras sejam devidamente incluídas na profissão. “A ausência de apoio masculino na criação dos filhos e o peso da maternidade afastam muitas mulheres, fora os preconceitos, né?”, comenta. “Falta também a gente se unir, trocar mais informação. Precisamos dividir nossas histórias para inspirar outras pessoas a conquistarem seus sonhos, sejam eles quais forem”, afirma a destemida motorista.

Sandra pensa em ser mãe, mas adiou os planos por conta da carreira. “Se eu tiver uma filha, gostaria que houvesse tantas opções de profissão para ela escolher quanto de sapatinhos, roupas e enfeites. Afinal, não se nasce mulher, torna-se mulher. Tem uma escritora, Simone [de Beauvoir], que diz isso, você conhece?”, conclui.

Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Desbravando Minas Gerais com Andréia Damasceno

Essa é a história
De um novo herói
Cabelos compridos
A rolar no vento
Pela estrada
No seu caminhão
Cravado no peito
A sombra de um dragão

*Chrystian & Ralf – Nova York

A cabine de um caminhão Scania R440 mede 3,61 metros. Andréia Damasceno, 33 anos, tem 1,58m de altura. Quando ela abre a porta e desce do veículo, de tênis rosa e cabelo comprido, não há quem deixe de prestar atenção à cena. Vinda de uma família de caminhoneiros, a profissional é a única mulher entre os três filhos de Íris e Vera. Da prole, somente Andréia abraçou a estrada e as carretas como meio de vida.

A reportagem encontrou Andréia em São Joaquim de Bicas, município a cerca de 40km da capital mineira, Belo Horizonte. É onde fica a garagem da transportadora Expresso TS, empregadora da motorista. Ela deixará seu veículo ali para ser encaminhado à revisão.

Para seguir viagem, a trabalhadora recebe as chaves de outro veículo, exatamente igual ao seu, e começa a mudança. São três mochilas, mala, cobertores, lençóis, travesseiros, tênis, chinelo, casaco, bandeira, capacete, macacão, luvas, botas e botina. O caminhão é a casa do caminhoneiro – e a maior parte do lar de Andréia é cor-de-rosa.

A Expresso TS tem histórico de contratar mulheres e já chegou a assinar a carteira de nove empregadas simultaneamente. Hoje, são quatro funcionárias na empresa. A diretoria enumera a vantagem da mão de obra feminina: elas são muito cuidadosas com o caminhão, mantêm tudo organizado, respeitam as leis de trânsito, são fiéis às regras da companhia, sabem lidar com os clientes e, principalmente, estão sempre atentas. “Porque quando se perde a prudência, o caminhão te mata”, explica Sebastião Campos, um dos sócios do negócio.

A equipe do Metrópoles segue com a caminhoneira até a porta de uma siderúrgica em Itaúna (MG). Lá, Andréia estaciona o caminhão para dormir. Ela fecha todas as cortinas, deita na cama e, se a internet deixar, conversa com parentes e amigos antes de pegar no sono. Cedinho, será a primeira a carregar a caçamba com ferro-gusa.

Entre os preparativos pré-descanso, ela conta que a família sempre teve contato com caminhões, mas hoje só um irmão é caminhoneiro como ela (dirige um veículo menor); o outro é diretor de escola. “Quando eu era pequena, o pai de uma amiga era caminhoneiro e a carreta dele parecia uma árvore de Natal, linda. Eu ficava encantada, pedia a chave emprestada só para ficar lá dentro”, lembra.

O primeiro contato com uma caminhoneira foi pelas páginas de uma revista, na qual era contada a história de Nahyra Schwanke – veja perfil a seguir. Andréia guarda o exemplar até hoje. Mas, quando uma amiga começou a namorar um caminhoneiro e ela os acompanhou em uma viagem, descobriu a rotina pesada da profissão, cheia de sacrifícios, e uma realidade bem distante do sonho de estar sem rumo na estrada.

“Até tentei estudar para tirar essa ideia da cabeça. Fiz curso técnico de metalurgia, me preparei para o vestibular, mas nunca fui muito de estudo. Era aluna malandra. Tentei trabalhar com outras coisas, mas o que eu queria mesmo era ser motorista. Queria a liberdade.”Andréia Damasceno, 33 anos

Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Lidar com a sujeira da carga é desafio: “A vaidade vai para o lixo, não consigo nem ficar muito tempo com a unha arrumada”
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Na hora de preparar a caçamba para receber a carga a ser transportada, motorista troca os tênis cor-de-rosa por um par de botinas
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
A caminhoneira não foge do trabalho pesado: família sempre lidou com grandes veículos e Andréia sonhava, desde menina, assumir o volante de um desses gigantes das estradas
Foto: Rafaela Felicciano/MetrópolesAndréia se acomoda para dormir na boleia do caminhão: boa parte da decoração da “casa” móvel é cor-de-rosa
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Motorista se refresca: entre os colegas, seu QRA é Miss-tério; ela recebe muitos galanteios, mas reclama das dificuldades de manter um relacionamento por conta da profissão
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
O Scania é a casa de Andréia, e ali ela dorme, come e faz a higiene pessoal. Por motivo de segurança, não abre a porta do veículo de madrugada e tem spray de pimenta sempre à mão
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Detalhe dos calçados cor-de-rosa da motorista: para o futuro, ela sonha ter o seu próprio caminhão; além de flexibilidade para voltar para casa, em Barroso (MG), e partir quando bem entender
Andréia tentou estudar, prestar vestibular e deixar de lado o desejo de ganhar a vida ao volante, mas não teve jeito: “Esse amor pelo caminhão e pela estrada só pode ser doença, não tem explicação”
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Chegada à siderúrgica em Itaúna (MG), onde Andréia Damasceno vai abastecer seu caminhão com ferro-gusa, a ser transportado até Resende (RJ)
Com 1,58m de altura e cabelos compridos, a caminhoneira chama a atenção ao desembarcar da cabine de sua Scania, que mede 3,61 metros
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Cedinho, ela veste roupa de proteção para abastecer o veículo com ferro-gusa. Geralmente transporta também carvão e cal

Um dos primos de Andréia é dono de uma transportadora e resolveu dar chance ao sonho dela. Foi assim que a motorista começou no ramo: dirigindo um “cebolão”, como é conhecido o veículo que leva cimento em pó para construções. No início, eram só viagens curtas, com percurso de 30 quilômetros, até quatro vezes por dia.

A novata aprendeu tudo com um amigo, o Boi – assim apelidado pelos caminhoneiros. Um homem “das antigas”, experiente, que instruiu a aprendiz com toda a paciência do mundo, revelando os segredos da vida na estrada. Logo, a jovem mudou de empresa. Ainda conduzia o cebolão, mas as viagens ficaram mais longas.

Em setembro de 2017, em uma reviravolta na carreira, Andréia começou a trabalhar na TS com caçambas. Atualmente, transporta ferro-gusa, carvão e cal (este último, inflamável se entrar em contato com água). O maior desafio é lidar com a sujeira dos materiais e a lona, que precisa ser bem amarrada e é pesada. “A vaidade vai para o lixo, não consigo nem ficar muito tempo com a unha arrumada”, brinca.

QRA Miss-tério

Na manhã seguinte, às 6h30, a reportagem encontra Andréia já pronta para o novo dia. Ela veste macacão e equipamento de proteção a fim de retirar os arcos da caçamba, que dão estrutura à lona, e preparar o espaço para a carga. Vazio, o caminhão tem 17.380kg. Carregado, chega a 45 toneladas. Por conta do peso, a motorista viaja devagarzinho. Nas subidas, não ultrapassa os 40km/h. Nas descidas, limita-se a, no máximo, 80km/h.

Nas rodovias, o QRA de Andréia é Miss-tério. Ela é chamada pelos amigos de Miss TS por causa da transportadora. Uma colega considera um mistério a motorista ser tão alegre, de bem com a vida e despreocupada. Juntou-se tudo e nasceu o apelido de estrada da caminhoneira, mesmo ela não usando rádio – meio pelo qual os QRAs são popularizados –, pois sua empresa não permite o equipamento, e, além disso, a trabalhadora se incomoda com a quantidade de besteiras ditas pelos caminhoneiros.

Segundo Andréia, os colegas nunca lhe faltaram com o respeito, mas ela já cansou de ouvir cantadas. Buzinadas, então, nem se fala: a motorista não dá mais atenção. Mas, enquanto a equipe do Metrópoles a acompanhou pelas estradas mineiras, foram muitas as “manifestações” de outros caminhoneiros ao perceberem o veículo com uma mulher ao volante e outras duas ao seu lado, na boleia.

“Eles falam que acham a coisa mais linda quando desce uma mulher do caminhão gigante. Adoram pedir lugar na boleia. Mas, na hora que o relacionamento fica sério, na hora do ‘vamo ver’, dizem que lugar de mulher é em casa, que não pode viajar para não ficar longe da família”, reclama Andréia. Até entre as amigas que se casaram com caminhoneiros, conta, é difícil lidar com o machismo: a maioria só consegue viajar se for com o marido, cada um em seu caminhão, mas percorrendo a mesma rota juntos.

O problema é recorrente. “Ao fazerem história na emancipação da mulher e contribuírem, assim, para transformações sociais, dentro e fora do mercado, essas trabalhadoras sentem os impactos dessa profissão em seus relacionamentos”, analisa Luna Gonçalves da Silva. “Muitos foram os relatos [durante a pesquisa para seu doutorado] sobre divórcios, separações e conflitos conjugais devido à escolha e/ou necessidade em trabalhar com o caminhão”, conta a especialista.

Namorando há três meses um caminhoneiro da mesma transportadora, Andréia se diz pé no chão. Sabe bem como são os homens de sua profissão, como enxergam o papel da mulher e a dificuldade de manter um relacionamento quando os encontros dependem de as rotas coincidirem. Mesmo assim, gosta de ter quem se preocupe com ela. Quando está sozinha, dirigindo há horas, longe de casa, para a motorista é bom poder pensar em alguém que está pensando nela.

O maior medo de Andréia na estrada são os assaltos. “Se quiser roubar tudo, pode levar. O negócio é mexer comigo. Não gosto nem de pensar”, diz. Com a intenção de evitar se colocar em situação de risco, ela não abre a porta do veículo de madrugada de jeito algum. Se precisa parar à noite na hora de dormir, não sai do caminhão: ela leva até um penico a bordo para emergências e tem um spray de pimenta sempre à mão.

Para o futuro, Andréia tem dois desejos. O primeiro é ter o próprio caminhão. Muito apegada aos pais e à vida em cidade de interior (na mineira Barroso), da qual pode usufruir das benesses a cada 15 dias, ela gostaria também de ter mais flexibilidade de horário: ficar mais tempo em casa e ir embora quando quiser. Hoje, a profissional vive no meio-termo: ama a liberdade que a estrada oferece, mas sente falta da família. Quer ter filhos, porém não pensa em largar as andanças da profissão: “Esse amor pelo caminhão e pela estrada só pode ser doença, não tem explicação”.

Foto: Igo Estrela/Metrópoles

Mulher no volante bravura constante

Lá vou eu viajando por caminhos
Que não sei onde vão dar

Quando a gente se acostuma
A viver pelas estradas
Poeirentas dessa vida
Não consegue fazer ponto
Em nenhum lugar

*Com o pé na estrada – Sula Miranda

A imagem construída socialmente de quem dirige um caminhão, na maioria das vezes, é definida pela figura masculina, explica a doutora da USP Luna Gonçalves da Silva. “As caminhoneiras, ao atuarem em uma atividade monopolizada, até então, pelos homens, questionam os lugares sociais designados a homens e mulheres, dentro e fora do mercado de trabalho”, afirma.

No comando dos caminhões que cruzam as rodovias do país, há brasileiras com várias idades e origens, movidas por diversos fatores, que abraçam esse caminho. Do rosto marcado pelo tempo de Nahyra Schwanke, 88 anos, à juventude de Sheila Bellaver, 35, conheça mulheres para quem a estrada virou sinônimo de casa.

Foto: Divulgação

Três perguntas para Sula Miranda, a rainha dos caminhoneiros (e das caminhoneiras)

Mulheres são uma parte grande da sua base de fãs?

Sim, elas têm um grupo no WhatsApp chamado GMC Cristais, de caminhoneiras e mulheres casadas com caminhoneiros. Participo e interajo com elas. Trocam receitas, orações, piadas e também falam de assuntos sérios, como o da greve [da categoria, em maio deste ano]. Todas se unem ali. Não consigo atender todo mundo, mas fiquei próxima delas.

Tem aumentado o número de mulheres nas estradas?

Existem dados comprovando que aumentou sim, e muito. Tem uma companhia em São Paulo com 70% de mulheres. Empresários gostam de contratá-las até porque elas levam vantagem no seguro do veículo, por serem mais cuidadosas. São guerreiras, estão na estrada por vários motivos: algumas se apaixonaram pela profissão ao acompanhar os pais, outras perderam o marido e encontraram sustento nessa profissão. Quando comecei, há 30 e poucos anos, quase não tinha mulher. Fico bem satisfeita e apoio a inclusão.

Qual é a sua visão sobre o sexo feminino dentro dessa profissão?

Amo as caminhoneiras. Conheço histórias bacanas e fico admirada com a garra, força determinação e persistência dessas mulheres, que abrem mão do conforto de uma casa para estarem vencendo dia a dia os desafios da estrada.

São mulheres que amamentam durante a viagem; outras ficam distante dos filhos na semana para levar o sustento [à família]; há, ainda, as que assumiram a casa devido a uma separação ou viuvez. Enfim, são várias histórias de superação.

Fiz uma música chamada Minha Alma é o Caminhão, em homenagem às caminhoneiras. Ainda não lancei porque não tenho autorização, por se tratar de uma versão internacional, mas estarei empenhada neste ano para que isso aconteça quando eu gravar meu primeiro DVD de carreira.

Foto: Igo Estrela/Metrópoles
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    Gui Prímola
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