Senhoras das DoresAs mães que a violência policial despedaçou

A mãe espera ouvir o barulho da chave na fechadura, só dorme ao saber que o filho está em segurança. Quando o som não vem, a vida torna-se uma eterna vigília. As noites insones multiplicam-se até virarem enfermidade.

Relatos de sete mulheres, de seis estados, com filhos vítimas de policiais dão a dimensão de um fenômeno de violência com proporções nacionais. Elas sofrem com investigações incompletas e até inexistentes. Adoeceram, perderam empregos e tiveram suas vidas reviradas após a ação de criminosos fardados.

Dos casos apresentados nesta reportagem, somente um teve réus condenados. Os dois policiais que assassinaram Hanry Silva Gomes no Morro do Gambá (RJ) cumpriram pena de quase 10 anos de prisão cada e atualmente estão soltos. Todos os outros crimes ficaram emperrados na Justiça ou ainda nem saíram da delegacia.

O sofrimento toma forma de doença, consumindo o corpo e a mente. Câncer, Acidente Vascular Cerebral (AVC), distúrbios autoimunes, diabetes, hipertensão arterial, síndrome do pânico, estresse pós-traumático, depressão e muitas outras enfermidades figuram na lista de complicações decorrentes desse tormento.

Essas mulheres viram seus filhos serem executados em praça pública, assim como Maria. Cada um dos relatos desta reportagem representa um sofrimento da cultuada personagem bíblica — cujas sete dores, relacionadas a momentos da vida de Jesus, são narradas na Bíblia.

Quando os remédios já não fazem mais efeito, Maria Santino, 53 anos, moradora do Recanto das Emas (DF), pede ajuda à Nossa Senhora. Busca forças na mãe de Jesus para seguir em frente. O filho dela chamava-se José Chaves.

O jovem morreu ao voltar da faculdade em 4 de abril de 2013, uma noite de quarta-feira. O Uno dirigido por Karla Pamplona Gonçalves, colega de José, foi alvejado por tiros, na BR-070, em Brasília. Policiais militares perseguiam um veículo roubado do mesmo modelo. Os disparos atingiram a cabeça de José. 27 anos após tê-lo embalado no colo em uma maternidade, Maria enterrou seu primogênito.

Me tiraram o presente e o futuro”

Maria Santina, 53 anos, Brasília (DF)

Outras marias nem sequer tiveram chance de se despedir. Miriam é mãe de um Jesus. Ainda espera o dia que verá Rildean de Jesus Santos, desaparecido em 2010, entrar pela porta de casa, no bairro Cosme de Farias, em Salvador (BA). Vizinhos relatam terem visto o jovem de 19 anos ser colocado no porta-malas de um carro. Miriam suspeita de envolvimento policial, mas jamais conseguiu respostas do Estado.

A dor da mãe pobre não importa”

Miriam Cristina de Jesus, 52 anos, Salvador (BA)

Em vez de ouvir os passos do filho no fim do dia, Márcia Jacintho, 56 anos, carioca, escutou os tiros que cessaram a vida de Hanry, aos 16 anos, no Morro do Gambá. Enquanto tentava combater a impunidade, ela presenciou a promoção dos assassinos dentro da polícia, a corporação não se importou com a brutalidade por eles cometida.

Mataram meu filho e agora vão me matar”

Márcia de Oliveira Jacintho, 56 anos, Rio de Janeiro (RJ)

Edna Carla Souza, 46 anos, de Fortaleza (CE), ainda cozinha os pratos favoritos de Álef Souza, uma das vítimas do crime conhecido como Chacina do Curió, quando 11 jovens foram mortos em uma ação com o envolvimento de 44 policiais. Ela se sente invisível aos olhos do Estado e vê a vida de seu filho ser tratada como se nunca tivesse existido.

Paguei pela bala que matou o meu filho”

Edna Carla Souza, 46 anos, Fortaleza (CE)

Irone Santiago, 52 anos, voltou a trocar as fraldas de Vitor, 32, depois de ver seu pior pesadelo tornar-se realidade. O toque de telefone invadiu a casa de madrugada e trouxe a má notícia: ele havia sido alvo do despreparo de um soldado do Exército, que ocupava a favela. Vitor sobreviveu às balas de fuzil na Maré (RJ), mas teve uma perna amputada, perdeu parte do pulmão e ficou paraplégico.

O estado mutilou meu filho e me deu rivotril”

Irone Santiago, 52 anos, Maré, Rio de Janeiro (RJ)

Nágida Gomes, 39 anos, de Altamira (PA), também se sente vítima do Estado, diante da falta de esclarecimentos sobre o assassinato de Artur Teixeira, aos 18 anos, em 2017. “Quando a polícia não investiga, também é agressão”, diz.

Do luto quero fazer uma luta”

Nágida Gomes, 39 anos, Altamira (PA)

Vera Lúcia Gonzaga dos Santos chegou ao extremo da dor e não está mais aqui para contar a própria história. Uma das fundadoras do grupo Mães de Maio em Santos (SP), ela perdeu a filha, Ana Paula, grávida de 9 meses de Bianca, e o genro, Eddie Joey, em maio de 2006.

A injustiça matou verinha”

Vera Lúcia Gonzaga dos Santos, 60 anos, Santos (SP)

Passo a passo do adoecimento

Pesquisas nacionais e internacionais ajudam a entender o processo de adoecimento físico de mães que perderam seus filhos por violência policia. O estresse é uma reação fisiológica do organismo mediada pelo sistema nervoso autônomo (SNA) e pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA).

“Diante da percepção de risco, há liberação de hormônios que viabilizam a geração de energia para o corpo lutar ou fugir”, explica a psicóloga e coordenadora do Ambulatório de Atenção Psicológica a Pessoas que Vivem com Condições Crônicas, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Jeane Saskya C. Tavares.

Essas reações fisiológicas incluem atividades neurais e endócrinas. Elas podem gerar instabilidade no funcionamento metabólico, cardiovascular e do sistema nervoso autônomo, causando diversas doenças.

Jeane explica que, na literatura da psicologia, o luto de quem perde o filho é considerado o mais difícil de superar. “As pessoa que passam por isso precisam de acompanhamento psicológico imediato e isso não é oferecido pelo governo. O Estado tortura os familiares das vítimas de violência policial e continua matando depois de apertar o gatilho”, afirma a doutora em saúde pública.

No caso dessas mulheres, somam-se ao estresse crônico diversos fatores psicossociais: pobreza, racismo, violência de gênero e experiência de injustiça. “Quando a vivência do medo, da desesperança e, principalmente, da falta de controle sobre esses eventos torna-se cotidiana e excede a capacidade das mães de lidar com tudo isso, elas podem desenvolver a chamada Síndrome Geral de Adaptação (SGA)”, esclarece a psicóloga.

Jeane ressalta que essas mães não conseguem concluir processos de luto e revivem diariamente a dor. Elas precisam insistir pela investigação dos crimes e são humilhadas a cada encontro com investigadores e Justiça. Além disso passam por um “tribunal social”.

“Quando um jovem negro e pobre é morto pela polícia, a sociedade logo o aponta como bandido. Geralmente, culpabilizando a mãe por não tê-lo criado adequadamente. A difamação das vítimas torna ainda mais crítico a situação dessas mulheres”, explica a especialista.

“Letalidade não é prova de eficiência”

Com exceção da brasiliense Maria Santino, que recebeu a reportagem no DF, as personagens foram entrevistadas pelo Metrópoles durante o 3° Encontro de Mães e Familiares Vítimas do Estado, realizado em Salvador de 17 a 19 de maio.

Um auditório da Universidade Federal da Bahia (UFBA) acolheu cerca de 200 mulheres vindas de todo o país e unidas pela mesma dor — quase todas negras e da periferia. Ali estavam movimentos como Mães de Maio, Mães de Acari, Mães de Manguinhos, Mães da Zona Leste, Mães do Xingu, Mães do Curió, Mães Mogianas, entre outros.

Algumas nunca tiveram resposta do poder público quanto a homicídios comuns e também se sentem violadas. Entre as demandas discutidas no evento, estava a criação de fundos estaduais de reparação econômica psíquica e social aos familiares por parte do Estado.

Depois de enterrar uma parte de si mesmas, elas convivem com a impunidade e a falta de assistência do governo, que se recusa a pagar indenizações e não oferece tratamento de saúde aos parentes das vítimas. “Não aguentamos mais enterrar mães de vítimas do Estado. Parem de nos matar”, apela Débora Maria da Silva, uma das idealizadoras do encontro e fundadora do Mães de Maio.

Ao registrar ocorrências desse tipo, há descaso, o processo geralmente se arrasta por anos e os culpados dificilmente são penalizados. Enquanto isso, assassinatos cometidos por policiais em situações onde o uso da força não era necessário multiplicam-se a cada dia.

O Brasil teve 5.012 mortes cometidas por policiais na ativa em 2017, segundo levantamento do Monitor da Violência, parceria do Núcleo de Estudos da Violência (NEV), da USP, Fórum Brasileiro de Segurança Pública e portal G1.

Isso representa aumento de 19% em comparação com o ano anterior. A mesma pesquisa aponta que o número de policiais mortos diminuiu no mesmo período: foram 385 assassinados em 2016 e 453 em 2017.

“Não significa necessariamente que a polícia está mais violenta. Não sabemos se os dados eram mal colhidos anteriormente, se os estados não contabilizavam ou se houve um aumento real”, esclarece o pesquisador do NEV/USP Bruno Paes Manso.

Especialistas passaram a ter a dimensão da violência policial no Brasil a partir de 2009 e 2010. Entidades como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública começaram a cobrar sistematização dos dados nas unidades da federação.

Com isso, chegou-se à conclusão que as mortes pelas mãos de agentes do Estado são um problema nacional, e não apenas de estados como Rio de Janeiro e São Paulo, como se pensava nas décadas de 1980 e 1990.

Paes Manso aponta o caminho para solucionar essa questão. “Em primeiro lugar é preciso que os governantes considerem essas mortes como um problema da pauta política. A letalidade da polícia ainda é vista como prova de eficiência”, observa.

O especialista afirma que o alto número de mortes é, na verdade, um sintoma da falta de preparo da corporação. “Temos de repensar o modelo de segurança pública replicado nos estados. O patrulhamento ostensivo em comunidades estigmatizadas enche os presídios e não resolve nada. A sensação de insegurança está maior do que nunca. É preciso um trabalho de inteligência e estratégia nas polícias, e não uma guerra permanente em bairros pobres”, diz.

Outra investigação, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em 2017, mostra que agentes do Estado tiraram mais vidas que latrocidas em 2015. O número de roubos seguidos de morte no Brasil naquele ano foi de 2.314. Já falecimentos por intervenção policial somaram 3.320 casos.

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