Reinaugurando o ciclo de grandes exposições internacionais na cidade, Caixa Cultural oferece ao público a rara chance de ver de perto 130 obras da pintora mexicana e de outras 14 artistas influenciadas pelo surrealismo na América Latina

13/04 5:25, atualizado em 08/07 17:57

Brasília parecia enfim ter entrado no eixo das exposições internacionais quando, em 2015, o aumento do dólar e uma série de dificuldades administrativas tiraram a cidade da rota dessas mostras. Mas foi só um intervalo. Nesta quarta (13/4), a Caixa Cultural Brasília vai reiniciar o ciclo com a inauguração de “Frida Kahlo: Conexões Entre Mulheres Surrealistas no México”.

Ao todo, desembarcam na capital 130 obras de 15 artistas mulheres que perpassaram pelo surrealismo, um dos estilos artísticos mais populares da vanguarda europeia. Dessas obras, ao menos 30 são de Frida Kahlo. As outras 70 foram produzidas por outras três artistas mexicanas e 11 estrangeiras que se exilaram no México por algum tempo ou até a data de morte.

São elas: María Izquierdo, Remedios Varo, Leonora Carrington, Rosa Rolanda, Lola Álvarez Bravo, Lucienne Bloch, Alice Rahon, Kati Horna, Bridget Tichenor, Jacqueline Lamba, Bona de Mandiargues, Cordélia Urueta, Olga Costa e Sylvia Fein.

A mostra traz aos olhos do público todo o imaginário em torno de Frida Kahlo, figura marcante no mundo da arte que também é reconhecida como símbolo de luta e ousadia. Além de pinturas, esculturas e fotografias, a mostra traz vestimentas, acessórios, documentos, registros fotográficos e catálogos que situam o visitante no universo da artista mexicana.

Feita em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, sediado em São Paulo, a exposição conta com curadoria da pesquisadora mexicana Teresa Arcq. Para ela, Frida teria transgredido as convenções da arte ao usar a pintura para expor sua própria história. Ao trazer outras mulheres para a mostra, Teresa acredita que o público terá a chance de perceber o olhar feminino na arte de vanguarda e verificar de perto as artistas, as obras e os pensamentos que estiveram à volta de Frida enquanto ela produzia suas obras.

A exposição já passou por São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital paulista, foi apresentada no Instituto Tomie Ohtake e quebrou recorde no número de visitantes da instituição: ao menos 600 mil pessoas passaram pelo local durante os três meses em que a exposição se manteve em cartaz.

Para a montagem, nove museus e instituições públicas, além de 18 coleções particulares, cederam temporariamente parte de seus acervos. Entre eles, o Chazen Museum of Art, na Universidade de Wisconsin (EUA), o Museu Frida Kahlo e o Museu Nacional de Artes, ambos localizados na Cidade do México.

programe-se

De 13/4 a 5/6
Terça a domingo, das 9h às 21h
Na Caixa Cultural Brasília (Setor Bancário Sul, Quadra 4, Lotes 3/4)
Entrada franca. É possível agendar dia e horário da visita pelo site Ingresse
Classificação indicativa livre

OLHARES FEMININOS SOBRE O SURREAL

A mostra apresenta um diálogo de Frida Kahlo com outras mulheres artistas de seu tempo. Nela, a artista mexicana é apresentada como a responsável por uma série de influências e pequenos movimentos que ocorreram no México, nos Estados Unidos e em diversos países da Europa. Dessa forma, a curadora Teresa Arcq decidiu apresentar o acervo da exposição em blocos temáticos, ao invés de separar por artistas. Logicamente, um tema conversa com outro, mas em cada um deles determinado detalhe da obra é realçado de forma a defender um ponto de vista específico. Conheça cada dos temas destacados na exposição:

Identidade e autorrepresentação

Frida Kahlo é conhecida por seus autorretratos. Ao menos um terço de toda sua produção consiste em pintar a si mesma nas telas. Outras artistas da mostra também passaram por essa experiência, todas com o objetivo de reconstruir suas identidades pela autorrepresentação. Há uma busca pelo passado pré-hispânico e a recuperação das culturas indígenas do México. Por isso, vê-se o uso de vestimentas associadas a mulheres poderosas como rainhas tehuanas. Além disso, algumas artistas se valeram do ocultismo, em que se utiliza máscaras ou disfarces como poder transformador de identificação.

Diego em mi pensamiento(Frida Kahlo)

La artista viajando incognita (Leonora Carrington)

Autorretrato (María Izquierdo)

Mujer saliendo del psicoanalista (Remedios Varo)

A natureza-morta simbólica

Se em um primeiro momento a arte reconhece os quadros de natureza-morta como pinturas de ateliê, aqui o objetivo é outro. As artistas constroem uma forma de trabalhar temas até então tabus para a sociedade, como o sexo e a traição. A rica variedade de frutas mexicanas, nesse caso, ganha uma forte carga simbólica.

La novia que se espanta de ver la vida abierta (Frida Kahlo)

Naturaleza Viva (María Izquierdo)

Corazón egoista (Olga Costa)

O corpo feminino

Mais do que colocar o corpo feminino no centro da arte, as artistas presentes na mostra fizeram da carne da mulher um lugar de resistência e de energia criativa. Por terem uma estética surrealista, algumas obras mostram corpos fragmentados ou focalizados em rostos e olhos. Sexualidade e reprodução também são temas trabalhados nesse recorte.

Encarcelados (Bridget Tichenor)

Paisaje Marino (Cordélia Urueta)

Parísos artificiales (Kati Horna)

Torso (Lola Álvarez Bravo)

Dolor Reumatico I (Remedios Varos)

Romance,
maternidade
e família

O tema não poderia ficar de fora. Relações amorosas, maternidade e famílias são vistas, aqui, sob a ótica da mulher. Costumes sociais pré-estabelecidos e os papéis de gênero são ricamente contestados pelas obras apresentadas.

Autorretrato con cama (Frida Kahlo)

El abrazo de amor del Universo (Frida Kahlo)

Historia de una muñeca (Kati Horna)

El idilio (María Izquierdo)

Territórios de criação

Para as mulheres, o espaço doméstico muitas vezes se torna em lugar de confinamento. Para as artistas, esse mesmo local se transforma em verdadeiro território de criação. Alimentos e rituais culinários ganham espaço dentro dessa temática, fazendo com que a cozinha se transforme no local em que mulheres se tornam poderosas.

Sem título (Bona e Francisco Toledo)

Sem título (Bridget Tichenor)

Três mulheres com corvos (Leonora Carrington)

Reinos mágicos

Magias e conhecimentos esotéricos como tarô, astrologia, cabala e alquimia ganham espaço no universo surrealista. Era comum acreditarem que mulheres tinham poderes mágicos e as artistas aproveitam desse pensamento para se retratarem como deusas, feiticeiras e figuras míticas. Nesse momento, tradições antigas e crenças mexicanas atuais se misturam.

El cuarto de los misterios (Bridget Tichenor)

Orplied (Leonora Carrington)

Minotauro (Remedios Varo)

A mágica (Sylvia Fein)

Fascinação com a cultura mexicana

Frida Kahlo foi responsável por divulgar o tesouro das culturas mexicanas, tanto pré-hispânicas como atuais. Festas e ambientes são apresentados em cores vivas – tornando-se verdadeiras inspirações artísticas.

Piedad por los judas (Alice Rahon)

Niña Tehuacana (Frida Kahlo)

Pancho Villa y la Adelita (Frida Kahlo)

L'amour fou (Jacqueline Lamba)

Altar of Dolorosa Madonna (María Izquierdo)

O surrealismo e o inconsciente

O México recebeu forte influência surrealista. Diversas artistas presentes na exposição participaram ativamente do grupo surrealista de Paris antes de se exilarem no México. Além disso, grandes nomes da vanguarda europeia visitaram o país, como os franceses André Breton, poeta, e Antonin Artaud, dramaturgo. Assim, as artistas exploraram, em algum momento, diversas técnicas do estilo artístico e se destacaram pela criatividade. Uso de desenho automático, superposição de objetos, fotomontagens, colagens e discurso freudiano foram algumas das formas de expressão utilizadas por elas.

Retrato de Miguel N. Lira (Frida Kahlo)

Una carta (Frida Kahlo)

Oda a la necrofilia (Kati Horna)

El sueño del ahogado (Lola Álvares Bravo)

Bridget Tichenor (Los Dormilones)

Autorretrato (Rosa Rolanda)

A identidade encenada

Moda e artes cênicas são áreas diretamente ligadas às artes plásticas produzidas pelas artistas da exposição. Desenho de vestuário, peças teatrais e marionetes trazem um novo olhar sobre suas identidades.

Juglar (Alice Rahon)

Sem título (Bona)

Frida Kahlo (Lola Álvarez Bravo)

Mulheres para mulheres. Mecenas e promotoras

O sucesso das artistas está estritamente ligado à existência de mulheres que trabalhavam na divulgação de seus trabalhos. Natasha Gelman foi a grande mecenas de Frida Kahlo. Inés Amor, María Asúnsolo e Lola Álvarez Bravo inauguram galerias de arte no México que permitiram a apresentação de exposições individuais de diversas artistas presentes na exposição. Além disso, María Izquierdo e Kati Horna trabalharam elaborando artigos para a imprensa, o que permitiu que as pessoas tivessem contato especializado com as obras de artes produzidas por elas. Nesta seção, as mulheres que atuaram nos bastidores ganham espaço e se tornam objetos de representação dessas artistas.

Retrato de Natasha Gelman (Frida Kahlo)

Autorretrato (Lola Álvares Bravo)

Retrato de María Asúnsolo (María Izquierdo)

O universo de Frida Kahlo

A exposição conta com uma área preparada para apresentar o mundo da artista mexicana para além de seus quadros. Vestimentas, documentos, fotografias de seu ateliê e reportagens feitas durante sua vida são apresentadas nesse momento, com o objetivo de aproximar o visitante dos bastidores de Frida Kahlo.

Artigo de Gisele Freund sobre Frida Kahlo (Jornal Novedades)

Frida Bedroom 4 (Lola Álvares Bravo)

Frida's Bedroom 2 (Lola Álvares Bravo)

Vestuário

Vestuário

FRIDA, A MULHER

“Espero alegre a minha partida –
e espero não retornar nunca mais”

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Com essa frase, Frida Kahlo encerra o diário que estava em sua casa, próximo a seu corpo. Aos 43 anos, a mais celebrada artista mexicana havia morrido por causa de uma embolia pulmonar, diz o atestado de óbito. Porém, há uma suspeita que ela teria ingerido remédios em excesso, provocando uma overdose. Mais do que isso, muitos estudiosos corroboram a tese de que ela havia se suicidado. A frase final do diário – e todo o sofrimento de sua vida – alimentam essa hipótese.

Frida nasceu em Coyoacán, um dos distritos da Cidade do México, com o nome de Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón. Os primeiros sinais de que a vida de Frida não seria nada fácil surgiram quando ela tinha ainda 4 anos. Nessa idade, contraiu poliomielite, doença mais conhecida como paralisia infantil. A recuperação veio, porém, por causa da mazela, que deixou sequelas em seu pé direito, passou a mancar e ganhou o apelido de “Frida pata de palo” (Frida perna de pau).

Completando 18 anos de vida, a jovem – que ainda estudava na Escola Nacional Preparatória do Distrito Federal do México – sofreu um terrível acidente que marcaria sua vida e sua arte para sempre. Na volta para casa, depois das aulas, o bonde em que estava chocou-se com um trem, fazendo com que uma barra de ferro entrasse por suas costas até sair pela vagina.

Por conta da tragédia, a mexicana teve que passar por 35 cirurgias e foi obrigada a se manter presa à cama por meses a fio. Mas isso não a impediu de pintar: seu pai adaptou um cavalete para ser posto sobre seu corpo deitado e, no teto, colocou um espelho para que ela pudesse fazer seus autorretratos. Dessa época saiu cerca de 55 quadros, alguns considerados verdadeiras obras-primas da autora, como o “A Coluna Partida”.

Mesmo com a mobilidade prejudicada pelo acidente, Frida Kahlo se preocupava com as questões sociais do seu país e resolveu filiar-se no Partido Comunista. Lá conheceu o famoso muralista Diego Rivera, que se tornou seu marido logo no ano seguinte.

Dores e amores

Frida e Diego não formavam nem de longe um casal tradicional. Rebeldes, a dupla realizava reuniões com outros intelectuais do país para questionar o governo vigente à época. Além disso, Diego era famoso por sair com diversas mulheres ao mesmo tempo e não fazia questão de esconder esse fato da esposa. Frida, embora sofresse pelas traições, também passou a experimentar sexos e conhecer novas paixões fora do casamento. Ela se relacionou com pessoas famosas em seu tempo, como o fotógrafo Nickolas Muray e o político russo Leon Trótski, além de ir à cama com diversas mulheres – muitas delas envolvidas no mundo da arte.

A maternidade sempre foi um desejo para Frida Kahlo. Desejo nunca realizado. Por conta do acidente de bonde, ela não conseguia terminar qualquer gestação, sofrendo três abortos ao longo de quatro anos. O primeiro ocorreu em 1930 enquanto ela acompanhava os trabalhos do marido em Detroit, nos EUA.

A passagem pelo país norte-americano causou sentimentos dúbios à artista. Enquanto ela sofria pela perda do bebê, sua arte começava ganhar espaço no cenário mundial. Enquanto Diego Rivera pintava as paredes de prédios públicos sediados em Nova York e Detroit, Frida chamava a atenção pelas ruas. Saias longas, adereços coloridos, motivos indígenas e penteados diferentes causaram frisson em uma sociedade que caminhava para o preto básico imortalizado pela estilista Coco Chanel. Foi nessa mesma época que Nickolas Muray fez o famoso retrato que só em 2012 iria estampar na capa da revista de moda Vogue.

Após três anos, ao voltar para o México definitivamente, surgem novas decepções. A amputação dos dedos de seu pé direito, a volta das dores na coluna e a descoberta de um caso extraconjugal entre Diego e sua irmã mais nova, Cristina, fizeram Frida afundar com força na depressão e no alcoolismo.

Em 1935, ela pede o divórcio e, em quatro anos, faz sua primeira exposição individual em capitais como Nova York e Paris. Após conhecer seus quadros, André Breton, celebrado poeta surrealista francês, faz um ensaio em que afirma Frida como um dos maiores nomes do Surrealismo. Em resposta, a artista diz que não faz parte do grupo, pois não pinta sonhos, mas sim sua própria realidade. Em 1940, ela reata com Diego e com ele permanece até de sua prematura morte.

Ao passo que sua vida artística brilhava, sua saúde ia definhando. Para o mundo, Frida era a mulher que pintava obras-primas, ganhava prêmios e dava aula de arte. Porém, na intimidade, ela sofria com a volta das operações cirúrgicas pelo corpo, que causavam dores responsáveis por tirar sua paz. Até que, em 1954, seu corpo não aguentou mais.

Linha do Tempo

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón nasce em Coyoacán, distrito localizado ao centro da Cidade do México, capital do país

6 de julho de 1907

Contrai poliomielite, também conhecida como paralisia infantil. A doença deixa uma lesão em seu pé direito, o que lhe valeu o apelido de “Frida pata de palo” (Frida perna de pau) durante a adolescência. Com o passar dos anos, o defeito seria um dos motivos para que Frida utilizasse suas longas e exóticas saias.

1913

Inscreve-se na Escola Nacional Preparatória do Distrito Federal do México. Lá, tem aulas de desenho clássico e modelagem

1922

Sofre um terrível acidente de trânsito. O bonde em que estava se choca com um trem, fazendo com que uma barra de ferro entrasse por suas costas até sair pela vagina. Frida teve que permanecer por vários meses no hospital e foi submetida a 35 cirurgias que reconstruíram seu corpo. Por conta das operações, sentia muitas dores e foi obrigada a utilizar coletes ortopédicos. Nesse período pinta um de seus quadros mais célebres, “A Coluna Partida’.

1925

Filia-se ao Partido Comunista mexicano, meio em que conhece o muralista Diego Rivera, seu futuro marido.

1928

Casa-se com o muralista Diego Rivera.

1929

Começa uma série de viagens a Nova York e Detroit, nos Estados Unidos. Engravida por lá e tem o primeiro e mais traumático aborto de sua vida. Além disso, a artista passa a usar um colete de gesso por conta das dores na coluna.

1930

Frida sofre seu segundo aborto.

1932

Frida sofre seu terceiro aborto. Ela também tem que amputar os dedos de seu pé direito. A artista mexicana descobre que Diego Rivera mantém um caso extraconjugal com sua irmã mais nova, Cristina.

1934

Frida se divorcia de Diego Rivera.

1935

A artista passa a abrigar em sua casa o político russo Leon Trótski e a mulher. Dele. O casal fica por lá durante dois anos. Frida tem um relacionamento amoroso com Trótski.

1937

Frida faz sua primeira exposição individual em Nova York e, logo em seguida expõe em Paris. André Breton, poeta francês, afirma em um ensaio teórico que a obra de Frida Kahlo é estritamente surrealista, colocando a artista como uma das principais na vanguarda europeia. Ela nega tal colocação. Museu do Louvre, um dos mais celebrados do mundo, compra um dos autorretratos de Frida.

1939

Um agente da União Soviética entra na casa de Leon Trótski sob disfarce eacerta uma picareta do político, que morre no dia seguinte. No mesmo ano, Frida reata o casamento com Diego Rivera.

20 de agosto de 1940

Troca o colete ortopédico de gesso por um de ferro. Bastante desconfortável, a pintora tinha até dificuldades de respirar com o novo equipamento.

20 de agosto de 1942

Frida é eleita membro do Seminário de Cultura do México e começa a dar aulas na escola La Esmeralda, na capital mexicana. Porém, por conta dos problemas de saúde, passa a lecionar em casa. A artista ganha o Prêmio Nacional de Pintura do México.

1943

Passa por sete cirurgias na coluna que infeccionam por conta do colete obrigatório que usava. Sente dores fortes na perna direita e, após diversos tratamentos, os médicos amputam o membro inferior. Frida entra em depressão.

1950

Após ter contraído uma forte pneumonia, Frida é encontrada morta em sua casa. Ela tinha apenas 47 anos. O atestado médico afirma que a morte foi decorrente de embolia pulmonar, mas não é descartada a hipótese de uma morte por overdose de remédios – acidental ou não.

13 de julho de 1954

FRIDA, A ARTISTA

“A beleza e a feiura são uma miragem, pois os outros sempre acabam vendo nosso interior”

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Dos 143 quadros que pintou durante toda a sua vida, mais de 50 são autorretratos. Deles, denota-se uma busca por representar a realidade – ainda que de maneira bastante pessoal. “Sua produção mais evidente baseia-se em sua vida particular, sobretudo em sua própria personalidade feminista, sexual e política, o que pode ser exemplificada nos pelas obras em que ela denunciava a violência contra a mulher”, explica Sissa Aneleh, professora do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB).

Junto a essa vontade de se autorrepresentar veio a maior inovação de Frida Kahlo: quebrar as convenções da arte para unir o âmbito público ao que é estritamente particular de forma que é impossível perceber quando acaba um e começa o outro.

Para isso, a artista utilizou símbolos da cultura pré-hispânica e mesclou-os com problemas encontrados em seu próprio tempo. Religião, folclore, desejos amorosos e dores físicas são retratadas em pinceladas que rememoram a arte primitiva, modo de se expressar presente em povos que habitavam a América Latina antes da presença europeia.

Surrealismo

Em 1939, o poeta surrealista francês André Breton visita uma exposição individual da pintora em Nova York e fica encantado pela sua técnica. Daí, o poeta elaborou um artigo em que a afirmava como uma das melhores artistas do surrealismo, estilo de arte vanguarda proeminente na Europa. Graças a seus escritos, Frida viu seus quadros ganharem ampla divulgação no cenário mundial. Não demorou muito para que o Museu do Louvre, um dos mais importantes centros de arte do mundo, comprasse uma de suas telas.

Porém, mesmo que o artigo tenha dado divulgação seu trabalho, Frida negou veementemente a participação no movimento surrealista. Para a artista, o surrealismo falava de sonhos, enquanto ela falava de sua própria realidade. “Frida é uma artista independente de movimentos. Isto resultou em seu estilo próprio que influenciou as artistas mulheres mexicanas até em nosso século”, afirma a professora da UnB.

Conheça as particularidades de Frida na obra “El abrazo de amor del Universo, la Tierra, Diego, yo y el señor Xólotl”, feita em 1949

OUTRAS MULHERES, OUTRAS ARTISTAS

  • Alice Rahon
    (1904-1987)
  • Bona Tibertelli
    (1926-2000)
  • Bridget Tichenor
    (1917-1990)
  • Cordelia Urueta
    (1908-1995)
  • Alice Rahon

    A francesa Alice Rahon iniciou carreira em Paris, trabalhando no mundo da moda e colaborando com Elsa Schiparelli até criar sua própria linha de chapéus. Em 1931, passou a se aproximar dos surrealistas franceses, o que a inspirou a escrever os livros “Na Própria Terra” e “Ampulheta Deixada”. Convidada por Frida para conhecer a América, visitou Alasca, Canadá e o México. Lá, começou a desenhar “quadros-poema” e chegou a apresentar seu trabalho na Galeria de Arte Mexicana, durante Exposição Internacional de Surrealismo em 1940. Daí em diante começou a expor em diversas capitais, como Nova York, Paris e Beirute. Com Frida Kahlo, teve acesso aos mitos primitivos das culturas pré-hispânicas, que passaram a ser frequentemente utilizados em seus quadros.

    Bona Tibertelli

    Pode-se dizer que a inspiração artística da italiana Bona Tibertelli de Pisis veio de sua família. Filippo de Pisis, seu tio, foi membro da escola de pintura metafísica – que teve como maior representante Giorgio de Chirico, um dos grandes nomes do surrealismo. Em 1947, conheceu André Pieyre de Mandiargues em uma viagem a Paris, que a apresentou aos escritores André Breton e Octavio Paz. Em 1958, o autor mexicano levou Bona ao país natal, que documentou toda a viagem em seus diários. Entre os locais conhecidos estão Tehuantepec, Palenque e Tepoztlán. Durante o passeio, conheceu o oaxaquenho Francisco Toledo, com quem teve um relacionamento amoroso que a inspiraria a escrever o livro “A Víbora” em 1967. Seus quadros, que oscilam entre a figuração e a abstração, foram apresentados em exposições individuais em capitais como Tóquio, Nova York e Roma.

    Bridget Tichenor

    Bridget Tichenor sofreu diversas influências artísticas durante sua vida. Nascida em Paris, frequentava o meio da alta costura por causa da mãe, Vera Arkwright, que era colaboradora da Coco Chanel. Morou por nove anos em Roma, entrando em contato com a arte renascentista e, em 1939, casou-se com o milionário Hugh Chisholm. Assim, passa a viver em Nova York, tem a oportunidade de trabalhar como editora na revista Vogue e lecionar na Art Students League – ambiente em que conheceu os surrealistas Marx Ernst, Roberto Matta e Salvador Dalí. Em cinco anos, Bridget se separa de Hugh e casa com o fotógrafo Jonathan Tichenor. O relacionamento também não dá certo e ela viaja para o México em 1953 para tratar do divórcio. Lá, conhece artistas surrealistas exiladas, como Alice Rahon, Remedios Varo e Kati Horna. Decide, então, permanecer no país e compra, em 1966, um rancho no povoado de Ario de Rosales – cenário escolhido para abrigar os personagens fantásticos que pululam em suas telas. Sua obra também trata do sincretismo entre mitos pré-hispânicos, magia, alquimia e outras crendices populares.

    Cordelia Urueta

    A mexicana Cordelia Urueta foi incentivada a desenhar desde muito cedo. Nascida em uma família de intelectuais, teve como maior influência o pintor mexicano Gerardo Murillo e, ainda bem jovem, entrou na Escola ao Ar Livre de Churubusco. Com 21 anos expôs em Nova York junto a artistas como José Clemente Orozco e Rufino Tamayo. Em 1938, casou-se com o pintor Gustavo Montoya e passou a morar em Paris. Por causa da Segunda Guerra Mundial, o casal se mudou para Nova York, onde permaneceu por quatro anos. Após visitarem exposições de surrealistas na cidade, Cordelia passa a utilizar a nova técnica em telas de aquarela. Voltando para o México, faz amizade com Frida Kahlo e Alice Rahon, aprofundando seus conhecimentos sobre o estilo artístico. Desde então, a artista passa a utilizar as cores para expressar suas emoções, se afastando das técnicas figurativistas que estavam em vigor na Academia mexicana. Funda o Salão da Plástica Mexicana em 1950, momento em que realiza também sua primeira exposição individual.
  • Jacqueline Lamba
    (1910-1993)
  • Kati Horna
    (1912-2000)
  • Leonora Carrington
    (1917-2011)
  • Lola Álvarez Bravo
    (1903-1993)
  • Jacqueline Lamba

    Francesa, Jacqueline Lamba frequentou a Escola Nacional de Belas Artes de Paris e fez diversos experimentos em fotografia. Em 1934, casou-se com André Breton, grande nome do surrealismo francês. Do seu relacionamento saiu o livro “O Amor Louco”. Quatro anos depois, viaja para o México com seu marido e se hospeda na casa de Frida Kahlo e Diego Rivera. Lá, as duas mulheres se tornaram amigas íntimas. Em 1944, resolve passar nove meses na Casa Azul de Frida e percorre diversas cidades históricas mexicanas. Morando em Nova York, separou-se de Breton e realizou diversas exposições pelos EUA.

    Kati Horna

    Judia nascida em Budapeste, capital da Hungria, Kati Horna viu seu mundo virar ao avesso com a Segunda Guerra Mundial – tornando a injustiça da sociedade o tema central de suas fotografias. Em 1930, conhece o famoso fotógrafo Robert Capa, que influenciou muito em sua obra. Fez práticas de fotomontagem e colagem, inspirando-se em movimentos de vanguarda como surrealismo, construtivismo russo e escola Bauhaus. Depois, emigra para o México com José Horna e faz amizade com artistas como Leonora Carrington e Remedios Varo. Entre 1958 e 1968, torna-se diretora artística da revista “Mujeres”, sendo responsável por reportagens e retratos de mulheres mexicanas representativas no mundo das artes plásticas, do teatro e do cinema.

    Leonora Carrington

    Nascida em Lancashire, Inglaterra, Leonora Carrington teve uma infância rodeada pela literatura fantástica e por lendas celtas. E desse mundo imaginário ela alimentou suas obras de arte. Em 1936, entrou na Academia Ozenfant de Arte, em Londres, e, no ano seguinte conheceu o pintor alemão Max Ernst, com quem teve um relacionamento amoroso. Juntos, foram viver em Paris e passam a fazer parte do círculo surrealista francês. Com a invasão nazista, Ernst foi levado a um campo de concentração e Leonora teve uma crise nervosa, chegando a ser internada em um hospital psiquiátrico. Em 1941 saiu do hospital e fugiu para Lisboa, onde se refugia na Embaixada do México. Em um casamento arranjado com o diplomata Renato Leduc, consegue partir para Nova York e, lá, começa a expor seus trabalhos surrealistas. Em 1943, passa a viver na capital do México, tendo a oportunidade de se aproximar de artistas como Remedios Varo e Kati Horna. Lá, conhece Chiki Weisz, seu último marido. Em 2000 é condecorada com a Ordem do Império Britânico e, em 2005, recebe o Prêmio Nacional de Ciências e Artes do México.

    Lola Álvarez Bravo

    A fotógrafa mexicana Lola Álvarez Bravo foi responsável por registrar as lutas sociais de classes mais baixas e mulheres de seu país. Trabalhou no governo com o objetivo de documentar as transformações rurais e urbanas do México após o conflito armado entre 1910 e 1917, que se encerrou com a promulgação da Constituição mexicana. Ficou famosa ao trazer à tona história de mulheres como Frida Kahlo e María Izquierdo. Em suas obras podem ser encontradas técnicas surrealistas e investigações do abstracionismo formal. Foi casada, entre os anos 1925 e 1934, com Manuel Álvarez Bravo, que a ajudou a aprimorar sua arte. Com a separação, passou a viver na casa da pintora María Izquierdo. Juntas frequentaram o grupo Los Contemporáneos, que buscava inspiração nas vanguardas europeias. Abriu sua própria galeria de arte em 1953 e, como exposição de abertura, fez a primeira mostra individual de Frida Kahlo.
  • Lucienne Bloch
    (1909-1999)
  • María Izquierdo
    (1902-1955)
  • Olga Costa
    (1913-1993)
  • Remedios Varo
    (1908-1963)
  • Lucienne Bloch

    Nascida na Suíça e filha do famoso compositor e fotógrafo Ernst Bloch, Lucienne também trilhou pelo mundo da fotografia e alcançou o sucesso com os retratos de Frida Kahlo e Diego Rivera. Em 1917, por causa do antissemitismo crescente na Europa, mudou-se para os Estados Unidos com a sua família. No Instituto de Cleveland, faz seus primeiros estudos formais sobre arte e, depois, parte para Paris com o objetivo de estudar na Escola Nacional de Belas Artes. Com o retorno para o Velho Continente, aproveitou também para conhecer a Itália e aprender a técnica do afresco, tão bem reproduzida pelos renascentistas. Na Holanda, foi pioneira em desenho de esculturas em vidro. Voltou para os EUA em 1931 e, neste mesmo ano, conheceu Frida Kahlo e Diego Rivera. Diego a chamou para ser assistente em murais de Nova York – ela foi a única a registrar o verdadeiro mural “Man at the crossroads”, pintado no grandioso edifício Rockefeller Center e destruído em 1934. Também esteve ao lado de Frida em um de seus mais traumáticos abortos e, juntas, trabalharam em litografias, criando a série surrealista “Cadavres Exquis”.

    María Izquierdo

    Criada entre circos, mercados e festas populares, a mexicana María Izquierdo fez da infância a paleta de cores que permeia por todos seus quadros. Em 1928, entrou na Escola de Pintura e Escultura, local onde conheceu Rufino Tamayo, seu marido por quatro anos. Lá afinou sua pintura, que se baseava em tradições regionais de seu país. Participou também do Los Contemporáneos, grupo de poetas e pintores que valorizava as vanguardas europeias. Nesse período chegou a expor no Metropolitan Museum de Art, em Nova York, uma das maiores referências da arte moderna mundial. Em 1936, o dramaturgo francês Antonin Artaud conhece sua obra e, apaixonado por sua arte, resolve organizar uma exposição da artista em Paris. Para ele, suas telas tinham influência do pintor Georgio de Chirico e traziam à tona uma arte completamente primitiva. Preocupada com os direitos das mulheres, María também produzia cartazes revolucionários e atuava como comentarista de rádio e colunista de jornais. Em 1946, tornou-se a primeira mulher a ser encarregada de pintar um mural em edifício público. A tela nunca chegou a ficar pronta, pois o projeto foi cancelado por pressão de Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros.

    Olga Costa

    Em 1925, a alemã Olga Costa e sua família se mudam para a capital do México. Lá, conhece Frida Kahlo, Diego Rivera e outros artistas locais. A proximidade com os artistas acende seu interesse pela pintura e, em 1933, ingressa na Escola Nacional de Artes Plásticas. Porém, por dificuldades financeiras, abandona os estudos e só três anos depois, casada com o pintor José Cháves Morado, retoma o ofício. Sua obra trabalha costumes, retratos, paisagens e natureza-morta comuns ao México. Ela também se aproximou do grupo surrealista mexicano e se dedica aos estudos de culturas regionais. Mais tarde torna-se colecionadora de obras coloniais e pré-hispânicas. Em 1948, torna-se uma das fundadoras do Salão da Plástica Mexicana.

    Remedios Varo

    A espanhola Remedios Varo foi uma das maiores surrealistas de seu tempo. Criou obras que falavam sobre um mundo particular com referência na literatura gótica, na alquimia na astrologia e em doutrinas da evolução da consciência – criada pelos místicos russos Gurdjieff e Ouspensky. Formou-se na Academia de San Fernando, em Madrid, e, em seguida, foi morar em Barcelona. Lá se aproximou de grupos surrealistas e conheceu Benjamin Péret, poeta próximo de André Breton. Ambos se apaixonaram e passaram a viver juntos em Paris, local em que Remedios começou a fazer experimentações em suas pinturas. Daí, ela teve a oportunidade de expor em grandes capitais como Londres, Tóquio, Paris, Cidade do México e Nova York. Com a invasão nazista na França, o casal se muda para o México e, lá, se aproximam do grupo surrealista, bastante influente à época. Foi neste país latino-americano que ela conhece o empresário austríaco Walter Grues, também exilado, e mantém com ele um relacionamento que durou até sua morte. Graças ao empresário, Remedios pode se dedicar integralmente à pintura, desenvolvendo obras em que personagens fantásticos fazem buscas espirituais sobre fundos pintados com técnicas surrealistas.
  • Rosa Rolanda
    (1895-1970)
  • Sylvia Fein
    (1919-atualmente)
  • Rosa Rolanda

    Nascida na Califórnia, EUA, Rosa Rolanda tinha descendentes mexicanos e escoceses – fato que influenciou a trajetória de sua vida e obra. Estudou escultura, moda e dança na Escola Superior de Artes Manuais e iniciou estudos de dança na companhia de Marion Morgan, em Nova York, o que a levou participar de musicais da Broadway. Nesse mundo do entretenimento, conheceu o pintor mexicano Miguel Covarrubias, seu futuro marido. Juntos, visitaram o México em 1926 e depois partiram para Paris, onde conheceram a obra de Man Ray. Dois anos depois, passam a viver no México e conhecem o casal Frida Kahlo e Diego Rivera. A artista começa a se aproximar da cultura popular mexicana, colecionando objetos populares e investigando receitas de pratos típicos do país. Mais tarde, trabalha como professora de dança moderna e coreografa no Instituto Nacional de Belas Artes e faz sua primeira exposição individual em 1952.

    Sylvia Fein

    A norte-americana Sylvia Fein estudou história da arte na Universidade de Wisconsin entre 1938 e 1942. Lá conheceu a pintura flamenca e as esculturas em miniatura da índia. Fascinada por essas obras, passou a experimentar materiais antigos em suas pinturas autobiográficas. Durante seus estudos, fez parte de um grupo surrealista e passou a se interessar pelas telas de Salvador Dalí, influencia máxima de sua obra. Em 1944, mudou-se para o México com o objetivo de se recuperar de uma doença pulmonar e tem a oportunidade de visitar sítios arqueológicos do país e conhecer o estúdio de Frida Kahlo. Permaneceu dois anos no país e passou a pintar plantas, insetos exóticos e costumes locais. Em 1946, voltou ao Estados Unidos, onde continua pintando até os dias de hoje.

NOS BASTIDORES DA MOSTRA

A curadora da exposição Teresa Arcq é uma referência no conhecimento sobre arte mexicana. Formada em história da arte, foi curadora do Museu de Arte Moderna do México e atualmente trabalha como diretora de um fundo internacional de apoio à arte. Também ministra aulas de cinema, elabora diversos livros da área e é responsável por catálogos de diversas exposições. Em entrevista exclusiva ao Metrópoles, Teresa conta detalhes sobre a exposição e comenta suas expectativas. Confira:

Teresa Arcq, Curadora da exposição
Como surgiu a ideia de fazer uma exposição sobre Frida Kahlo e outras artistas mulheres?

Teresa: A ideia partiu do Instituto Tomie Ohtake, que me buscou para que eu montasse uma exposição sobre Frida Kahlo e outras artistas mexicanas. Com esse convite na mão resolvi conversar com os responsáveis pelo Instituto de Belas Artes do México para pensar numa mostra interessante. Durante o encontro, eles me sugeriram que usasse minha o conceito da minha última exposição, “No País das Maravilhas. As Aventuras de Mulheres Artistas no México e nos Estados Unidos”, que ficou em cartaz no México, nos EUA e no Canadá. Junto, acrescentei o resultado de uma pesquisa que elaborei recente. Nela, apresento arquivos secretos de Frida que trazem novas informações sobre a influência da artista em outras obras produzidas no México nesse mesmo período. A nova exposição veio na hora certa.

Por que uma exposição feita só com artistas mulheres?

Há um aspecto muito interessante em separar a produção das mulheres dos artistas de sexo masculino: seus trabalhos tendem a trazer uma carga mais pessoal. É impressionante o número de autorretratos produzidos por essas artistas, coisa que homens não costumam fazer. Elas exploram seu interior e seu próprio corpo de diversas formas, buscam retratar o desespero, o aprisionamento e a dor. Além disso, vale lembrar que as artistas são suas próprias musas, enquanto os homens se espelham em outras pessoas – no geral, em suas parceiras.

O surrealismo foi bastante representativo para o México?

Sim. O movimento surrealista surgiu oficialmente em Paris, em 1924. Porém, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, muitos artistas tiveram que fugir da Europa e se exilarem em cidades como Nova York, nos EUA, e Cidade do México. Frida Kahlo já era conhecida no país e se tornou em um farol para esses exilados. Juntos, elaboraram exposições que permitiram que a população local conhecesse seus trabalhos. Além disso, México serviu bastante ao movimento por conta das culturas pré-hispânicas e das artes populares, que faziam uso extensivo de magias e rituais de morte – verdadeiros objetos de admiração dos surrealistas.

De que maneira a vida pessoal de Frida Kahlo influenciou em sua produção artística?

A arte de Frida pode ser descrita como uma narrativa autobiográfica. É muito difícil separar a pessoa de sua produção. Muitos artistas, sendo a maioria mulheres, mas não exclusivamente elas, refletem a história de sua vida. E esse toque pessoal se dá porque são seres humanos que sofreram imensamente, mas que também tinham uma enorme vontade de viver. Frida é um grande exemplo disso. Sua arte busca uma identidade própria, fala sobre suas paixões e representa uma vontade de ser independente – sem se importar com o que a sociedade pensava a seu respeito. Ela simboliza a liberdade de ser única.

Onde a técnica de Frida Kahlo se destaca?

Uma das principais contribuições de Frida Kahlo para a história da arte é a maneira como ela se rebelou contra as convenções da pintura ao misturar a esfera pública e privada da vida em seus quadros. Ela era muito culta e suas pinturas são muito mais do que meras ilustrações de episódios de sua vida. Nas diversas viagens que fez pelos EUA e pela Europa, conheceu trabalhos de artistas como El Greco, Modigliani, Henri Rousseau e Marcel Duchamp, que influenciaram diretamente no seu fazer artístico.

Qual o papel das outras artistas nessa exposição?

A seleção de artistas e obras foi elaborada de forma a tecer ligações entre Frida Kahlo e outras artistas mulheres que passaram pelo movimento surrealista e tiveram algum contato com a obra da artista mexicana. Ela se tornou uma referência no que se diz respeito a autorrepresentação e também conhecia como poucos as culturas mexicanas. Dessa forma, compreendemos que Frida influenciou e foi influenciada pelas artistas presentes na mostra. Vale ressaltar que a exposição tem uma grande variedade de estilos e técnicas (pintura, fotografia, escultura, desenhos, colagem, fotomontagem), mostrando o quão longe foi a influência de Frida Kahlo.

As mulheres são menos compreendidas pelo público geral?

Com certeza. E aproveitei isso para preparar uma série de surpresas dentro da exposição. Nossa intenção é comprovar o valor artístico delas, a criatividade e as inovações que seus trabalhos trouxeram para o mundo da arte.

O que se espera do público brasiliense?

Minha expectativa é que as pessoas apreciem a rara chance de ver de perto as obras de Frida Kahlo e descubram as maravilhas feitas por mulheres tão pouco conhecidas no cenário mundial.

Reportagem

Paulo Lannes

Colaboração

Thaís Rodrigues

Edição

Rosualdo Rodrigues

Arte e animação

Gui Prímola

Infográfico

Joelson Miranda

Tecnologia

Felipe Marques

Saulo Marques

Coordenação

Fernando Braga

Editora chefe

Priscilla Borges

Direção de jornalismo

Lilian Tahan