Em uma viagem a Caldas Novas (GO), Ari Haine, 83 anos, começou a perceber que a memória da esposa, Else Haine, 89, estava se esvaindo. Boa de papo, ela conversou por horas com a dona do hotel onde estava hospedada. Mais tarde, ao cruzar com a proprietária do estabelecimento novamente, perguntou ao marido quem era a mulher. “Achei estranho, menti e falei que era uma amiga do centro espírita”, recorda-se Ari.

No dia da volta a Brasília, o casal de aposentados passou em um mercado a fim de comprar algo simples para jantar. O idoso abriu o jornal e ficou esperando a companheira no carro – um bom tempo. Quando a mulher saiu do comércio com o carrinho abarrotado de produtos, Ari se assustou. Else adquiriu comida suficiente para o mês inteiro.

“Quando voltamos de viagem, juntei nossos filhos e concordamos: Else precisava de um geriatra”

Ari Haine, 83 anos

Else foi diagnosticada com Alzheimer e, desde então, Ari tomou a frente dos cuidados da companheira. Criou um método para não esquecer o horário dos remédios: nem os dele, nem os dela. Precisou adaptar a residência do casal: instalou barras de apoio nos banheiros e nos corrimãos das escadas. Comprou ainda um pequeno elevador com o objetivo de facilitar o ir e vir, dificultado pelo peso dos anos. Por fim, contratou duas cuidadoras que se revezam para oferecer, principalmente, companhia ao casal em qualquer momento do dia.

Se antes do diagnóstico a vida era agitada e cheia de passeios – agora, os dois mal saem de casa. Desenvolveram uma rotina mais doméstica, com poucos amigos e sem muitas viagens. A aposentada se lembra do passado, inclusive de quando chegou a Brasília, em 1957. Mas a memória recente não está assim tão sedimentada. “Tem noites que dou volta ao mundo dentro da minha cabeça”, diz Else.

Os dois filhos do casal são presentes, ambos moram perto dos pais, e estão sempre a postos para qualquer emergência, sobretudo quando os aposentados necessitam ir ao médico. “É só mandar um zap”, garante Ari. Mas, no dia a dia, ele é o responsável pelo bem-estar da esposa. O idoso cumpre todas as obrigações com um sorriso no rosto – no entanto, aos poucos, tem deixado de fazer as coisas de que gosta. Vestiu-se de paciência, escuta todas as histórias repetidas e lida com o mau humor ocasional da companheira. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, segue amando Else e cuidando dela.

Ari afirma que toma conta da própria saúde também: curou-se de um câncer há pouco tempo, mas ainda foge da geriatra quando acompanha a esposa em alguma consulta.

A história de Else e Ari é reflexo de uma tendência que vem aumentando. Vivemos em uma sociedade que tem preconceito com instituições de longa permanência, como são chamados os asilos atualmente. Mas, ao mesmo tempo, as novas gerações não querem — ou não podem — parar a rotina para se dedicarem aos idosos. E então, quem vai cuidar dos nossos velhos? A resposta é: eles mesmos.

Para o governo, a obrigação de assistir aos idosos é da família (veja abaixo o estatuto). Mas, hoje, os núcleos familiares estão fragmentados e, em um mundo globalizado, muitos parentes moram longe. Mesmo quando todos vivem dentro da mesma casa, é comum não sobrar dinheiro para contratar profissionais dessa área.

“A responsabilidade de tomar conta dos velhos acaba sobretudo na mão das mulheres. Na maioria das vezes, elas têm um grau de saúde baixo e fazem das tripas coração para abrigar o pai, a mãe, o sogro, a sogra, o marido. E quando essa mesma pessoa precisar, não vai ter quem retribua o carinho. Temos uma sociedade machista que não desenvolve a cultura do cuidado, onde todas as pessoas são solidárias”, alerta Alexandre Kalache, geriatra, copresidente do Centro Internacional de Longevidade (ILC) e embaixador global de envelhecimento da HelpAge International.

Segundo a geriatra Tatiana Peron, o serviço dos cuidadores não profissionais é extenuante. “Alguns idosos necessitam de ajuda para se levantar, tomar banho e ir ao banheiro, atividades onde a força, uma característica que tende a diminuir ao longo dos anos, é imprescindível”, destaca.

Realidade cada vez mais recorrente, isso porque a expectativa de vida da população tem aumentado. Confira os números abaixo:

E o país não tem se preparado para esse futuro mais “maduro”: “Há desigualdade social, uma pobreza muito grande, e quem vai envelhecendo não tem segurança. O governo diz que o idoso terá de trabalhar por mais tempo, porém não existe emprego para essa faixa populacional. É uma equação complicada, a reforma da Previdência também passa pelo direito da pessoa com mais de 60 anos de ser assistida, cuidada”, frisa o geriatra.

De acordo com Tatiana, nos próximos anos, teremos uma pirâmide etária parecida com a do Japão e de outros países desenvolvidos. Mas não basta chegar aos 80 anos como a população de hoje, sem saúde. Devemos estar lúcidos, ativos, saudáveis, com qualidade de vida, fatores que não têm sido observados, principalmente nos idosos sobrecarregados com o cuidado de outro.

Um dia de cada vez

Ao desembarcar no DF, em 1978, Sandra Silva instalou-se na 708 Sul e logo ficou sabendo da fama de José Roseo, hoje com 95. “Era um homem de 1001 mulheres”, recorda-se a costureira. Quando a cearense, à época com 20 anos, bateu o olho no senhor de 55, já com a cabeça branca, decidiu: “Aquele ali vai ser meu”. Tanto fez que, em dois meses, estavam morando debaixo do mesmo teto. Na época, Zé avisou a quem queria ouvir: “Agora, quem manda na minha vida é ela”.

Não foi bem assim. Viciado em baralho, cheio de “casinhos” com mulheres e com um temperamento, no mínimo, estourado, Zé nunca foi de Sandra. “Era do jogo, era das quengas, mas não era meu”, lembra. Quando perdia boa parte do dinheiro que ganhava no mês, retornava ao lar agressivo.

De vez em quando, o aposentado acordava de madrugada e inventava de desmontar aparelhos de rádio antigos. A costureira ia junto, nem que fosse para segurar a lanterna e rir das manias do marido. Um dia, Zé chegou da rua virado, apontou um revólver para a cabeça da mulher e a colocou para fora de casa. Depois desse episódio, Sandra começou a desconfiar de que alguma coisa estava errada.

“Depois de uma visita ao psiquiatra e uma série de exames, Zé foi diagnosticado com demência e Alzheimer. Isso explica muito do comportamento agressivo do meu marido”

Sandra Silva, 60 anos

Quando Zé começou a tomar remédio, a situação ficou mais tranquila. Agora, finalmente, a costureira é quem manda na vida do marido. “Sempre quis um filho homem, ele virou um bebê”, diz. Sandra conta com a ajuda de Régia, que trabalha e mora com o casal há quase 30 anos. Recentemente, ainda contratou um serviço de home care para ficar de olho no companheiro das 8h às 20h. Apesar da equipe disponível, só a esposa está autorizada a mover o idoso.

Pegando um pouco de força emprestada de Deus, como costuma dizer, ela vira o parceiro a cada três horas para evitar escaras. Além de colocar o aposentado na cadeira de rodas, dar banho, trocar a roupa dele e auxiliá-lo na hora de comer. Sandra faz questão de estar por perto sempre que Zé chama. “Não vou me perdoar se meu marido cair enquanto estiver nas mãos de outra pessoa”, pontua. Por isso, vive em seu mundinho particular, usando a máquina de costura como terapia e utilizando o celular para fazer contato com o mundo externo.

A força emprestada, claro, tem seu ônus. Sandra tem artrose, problemas nos joelhos, e sente muita dor na coluna. Somado a isso, os hormônios da tireoide estão desregulados. Se precisa de um médico, encontra alguém que atenda em casa. Para fazer um exame, espera a hora certa: quando o marido dorme, corre ao hospital. “Não fico doente, nunca fiz cirurgia, porque Deus está tomando conta de mim”, afirma.

Boa convivência e amor são imprescindíveis para o cuidado do idoso, bem como para a saúde de todos os envolvidos nessa fase. Nem sempre o velhinho acamado foi um marido bom ou um pai atencioso. “É uma dedicação. Muitas pessoas levam a tarefa como um agradecimento, mas outros não conseguem encarar dessa forma. Às vezes, há mágoas e segredos de família que interferem. Quando existe relação de amor e respeito, a rotina fica mais leve”, explica a geriatra Tatiana.

Apesar dos pesares e da vida conturbada, Sandra confessa: ama o marido infinitamente. Por isso, abriu mão de sua liberdade – e nem sofre por isso. “Minha prioridade agora é ele. Quando ele se for, vou chorar? Vou. Vou sofrer? Vou. Vai doer? Vai. Mas passa. Mudo o foco e vou virar uma superavó. É natural”, afirma a costureira de 60 anos.

Em alguns países, o tratamento padrão para o idoso que já não pode viver sozinho é mudar-se para uma instituição de longa permanência. Os pacientes vão de livre e espontânea vontade, na maioria das vezes, morar em uma espécie de condomínio com diferentes níveis de supervisão médica. Ou seja, de acordo com a situação de cada um.

No Brasil, mandar um idoso, principalmente um mais debilitado, que inspira cuidados, para uma instituição assim ainda é tabu. A família que opta por essa saída é estigmatizada e se cobra muito, em grande parte pela antiga fama dos asilos. “A qualidade baixa do atendimento aumenta o preconceito. Mas, hoje, há boas opções e, às vezes, ali é o melhor lugar para aquela pessoa dependente”, salienta Kalache.

A geriatra Tatiana completa: “Não sabemos a dinâmica de cada família ou como o idoso se comporta no lar. Alguns pacientes são muito pesados e precisam de uma espécie de guindaste para serem levantados. Quando não existe condição de se tratar em casa, a instituição é uma opção”.

O ideal, de acordo com a nossa cultura social, seria manter o idoso em casa, cercado de ajuda. Os cuidadores, especializados em lidar com pessoas dessa faixa etária, auxiliariam nos momentos em que a força física é necessária. E também fariam companhia ao paciente enquanto a família estivesse administrando os compromissos do dia a dia.

Acompanhando a tendência nacional de multiplicação rápida da população idosa, segundo dados do Ministério do Trabalho, houve crescimento de 547% no número de cuidadores entre 2007 e 2017 — a quantidade de profissionais saltou de 5.263 para 34.051. Com base em dados do Centro Brasileiro de Cursos (Cebrac), houve aumento de 84% na procura por formação nessa área entre 2017 e 2018.

Apesar de a profissão estar em ascensão, ainda não é regularizada. O PL nº 1.385/2007, que versava sobre o tema, foi vetado completamente pelo presidente Jair Bolsonaro no começo de julho de 2019. Segundo o Planalto, a obrigação de conclusão do ensino médio para os cuidadores seria inconstitucional, restringindo o livre exercício profissional, garantido pela Constituição. A matéria volta agora para o Congresso Nacional.

“É lamentável, um passo atrás. Esse setor foi um dos únicos que cresceu em demanda de emprego e tende a expandir mais ainda. Os cuidadores são a melhor assistência para a família aguentar a barra. Se essa profissão deixa de existir por interesses cooperativistas, vai ser um tiro no pé”, ressalta o doutor Kalache.

E os cuidadores não são os únicos profissionais importantes quando o assunto é assistência a idosos: é preciso ter fisioterapeuta, que treina o caminhar do paciente; fonoaudiólogo, responsável por checar a consistência do alimento e evitar engasgos; nutricionista, importante na elaboração de uma dieta que supra as necessidades do idoso; enfermeiro, para administrar alguns medicamentos. E por aí vai.

“O paciente com dinheiro consegue tudo isso, tem estímulo. Já quem usa o Sistema Único de Saúde (SUS) fica muito fragilizado e a recuperação se complica. Envelhecer é caro e essa geração não se preparou para as últimas décadas de vida”, explica Tatiana. Segundo o Ministério da Saúde, quase 80% dos idosos brasileiros não têm planos privados e procuram tratamento em hospitais públicos. Além de não ter dinheiro para conseguir a melhor assistência possível, boa parte da geração mais senil não cuidou da própria saúde quando jovem.

Para a geriatra Tatiana Peron, a próxima geração tende a atingir os 60, 70, 80 anos com bem menos problemas. Hoje, tem-se mais consciência no que diz respeito a alimentar de forma saudável, fazer exercícios, controlar a glicemia, não fumar, evitar beber e manter a pressão arterial na média para não chegar à velhice com doenças que comprometem a qualidade de vida. “Não basta estar vivo aos 80 anos, precisamos ter independência”, pondera a médica.

Quem vai pagar a conta é outro problema a ser discutido. A mulher que deixa de trabalhar para cuidar do idoso, por exemplo, perde uma fonte de renda importante. A família fica dependente do SUS. A rede pública, por outro lado, dispõe de poucos profissionais para lidar com esse tipo de demanda.

“Quando o Estado falha em dar assistência aos idosos, aumenta a pressão para internações em institutos caríssimos. Alguém precisa arcar com esses custos, seja a família ou o poder público. Consigo contar nos dedos as clínicas gratuitas que atendam essa população desamparada”

Alexandre Kalache

A geriatra enfatiza ainda que toda a família deve se envolver nesse processo. Os parentes que moram longe e não podem ajudar o idoso cuidador precisam, pelo menos, enviar uma quantia em dinheiro para colaborar com as despesas.

Rotina transformada

Moradores da cidade de São Gonçalo do Abaeté, em Minas Gerais, Maria Luzia Porto, 79, e Jacir Romualdo Pereira, 88, viveram um casamento feliz. Nascidos e criados no interior, tiveram oito filhos e 16 netos. Com rotina pacata, ele passava o dia na roça, enquanto a esposa trabalhava em casa. Quando Jacir teve uma série de acidente vascular cerebral (AVC), a prole já morava em Brasília. A mulher não pensou duas vezes ao assumir, sozinha, o cuidado do marido, que ainda foi diagnosticado com Alzheimer.

“Idoso dá trabalho, né? Às vezes, eles perdem a paciência com a gente e ficam igual a criança mesmo. Nunca pensei em ficar velha, muito menos em cuidar dele”, diz. Há quatro anos, Jacir não consegue andar, mas ainda conversa. “Depois do AVC, arranjou uma ciumada, toda vez que saio ele reclama”, revela.

Há cinco meses, atendendo a pedido dos filhos, Maria Luzia fez as malas e pegou o marido para “passar uma temporada” na capital da República. Reconheceu que, idosa, pré-diabética, com pressão alta e problemas na tireóide, ela também precisava de ajuda.

O destino foi a casa de Cláudia Pereira, 42, uma das filhas do casal. Com força suficiente para mover Jacir, a vendedora saiu do próprio emprego para tomar conta da mãe e do pai. A dona de casa relata que até cogitou contratar um profissional, mas preferiu manter o cuidado dentro da própria família.

Apesar da rotina já estabelecida em Brasília e da comodidade de ter os herdeiros por perto, Maria Luzia sente falta de casa. No “interior”, como ela diz, tinha mais independência, podia sair sozinha, conhecia todo mundo. Agora, fica fechada na residência da filha — a cidade grande assusta um pouco. “Meus filhos querem que a gente se mude de vez, para facilitar o tratamento do Jacir. Estou pensando”, conta.

Cuidado concentrado

Uma vez estabelecido que o idoso vai ser responsável por tomar conta de outra pessoa, começa, de fato, o problema. O cuidador tende a querer proteger a família, escondendo dores e qualquer tipo de reclamação, enquanto os parentes acreditam que ele “gosta”, ou “não deixa ninguém ajudar”.

“A família precisa assumir a responsabilidade do idoso mais debilitado, pelo menos um dia por semana, para garantir um tempo para o cuidador sair de casa e descansar”, esclarece Tatiana Peron. A principal preocupação dos geriatras, além dos problemas de saúde associados ao estresse da rotina, é que não se abandone a própria vida em favor do outro.

De acordo com a médica, é comum ver casos onde o cuidador acaba morrendo antes do paciente em virtude de uma patologia que não teve tempo de tratar. A prioridade é o outro e a família concentra a atenção na pessoa mais frágil. “Todo mundo vê idoso mais jovem como uma pessoa lúcida que está fazendo um trabalho bem feito. Ninguém pergunta como ele está, se precisa de alguma coisa. Ele se torna invisível”, frisa Tatiana.

É muito frequente a síndrome de estresse do cuidador. E as consequências são: aumento da incidência de doenças crônicas gerais, hipertensão, diabetes e até mesmo depressão. A sobrecarga passa do ponto, há casos de profissionais que ficam 24h por dia por conta de outra pessoa. “Frequentemente, esses idosos chegam ao consultório para acompanhar e acabam se queixando da incapacidade de conseguir ajuda entre os outros membros da família”, pontua o geriatra Thiago Rodrigues, do Hospital Brasília.

Cuidando de quem cuida

Há 12 anos, os responsáveis pelo ambulatório de geriatria da Universidade Federal do estado de São Paulo (Unifesp) se viram diante de uma situação: já não sabiam quem era cuidador e quem era paciente. Com isso, os profissionais perceberam a urgente necessidade de acolher essas pessoas. Assim nasceu o Ambulatório de Cuidadores de Idosos, que funciona às sextas-feiras na instituição de ensino.

“Eles não nos procuram, nós vamos atrás. Identificamos a necessidade de atender os cuidadores dos nossos pacientes e os convidamos a participar”

Naira LemosProfessora e coordenadora do Ambulatório de Cuidadores de Idosos da Unifesp

No local, a dupla recebe atendimento de uma equipe interdisciplinar composta de psicólogo, assistente social e médico. As três avaliações são feitas juntas e, então, é montado um plano de atendimento personalizado, inclusive com encaminhamento para alguns serviços gratuitos. “A diferença fica no nosso olhar. Não enxergamos só um idoso, mas também um cuidador que precisa estar bem, outra pessoa depende dele”, destaca Naira Lemos.

Há 10 anos, por meio de uma amiga, o aposentado Flávio Trotta, 66, conseguiu uma vaga no ambulatório para o irmão de criação. José Carlos Pedroso de Oliveira, 78, é deficiente intelectual – teve meningite na infância e o cérebro nunca se desenvolveu propriamente. “Cuido dele desde os meus 10 anos de idade. Preciso ajudá-lo no banheiro, a fazer a barba, cortar unha, dar banho e trocar de roupa”, conta. Hoje, ambos moram com o companheiro de Flávio.

Se tomar conta de um homem idoso com cabeça de criança já seria pesado para um cuidador jovem, quanto mais para Flávio, que tem como agravantes o estado de saúde e a idade. Diagnosticado com HIV nos anos 1980, passou por dois AVCs, tem problemas de intestino desde criança e até hoje lida com a incontinência urinária decorrente de um câncer de próstata. O estresse de ter tanta responsabilidade nas mãos ao tomar conta do irmão certamente não ajuda.

Quando completou 62 anos, Flávio fez questão de entrar para o grupo. “É gratificante para mim e para ele ter um lugar onde os médicos conhecem as necessidades de pessoas mais velhas”, ressalta. Lá, teve ajuda de Naira para encontrar uma instituição de longa permanência para José Carlos. No entanto, desistiu da ideia: além de não ter dinheiro para bancar a salgada conta, não teve coragem de delegar a terceiros os cuidados referentes ao irmão de criação.

“Me sinto mais confortável com ele debaixo dos meus olhos. Meu irmão é uma criança grande, cheio de manias. Ninguém vai aguentá-lo mais de um mês e meio. Vai acabar jogado de lado. É muito complicado”, desabafa. Assim, a vida segue.

A antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mirian Goldenberg estuda, há quase 20 anos, idosos e o processo de envelhecimento. Em seu novo livro, Liberdade, Felicidade & Foda-se (Editora Planeta), há um capítulo inteiro sobre como os idosos gostam de cuidar de seus familiares e amigos. Em entrevista exclusiva ao Metrópoles, Mirian conta que os nonagenários, seu atual grupo de pesquisa, querem tomar as rédeas da própria vida.

E depois da perda?

Uma das maiores preocupações dos geriatras é quando o objeto de toda essa atenção morre. A rotina corrida de lidar com um idoso doente de repente desaparece e o cuidador fica sem ter com o que preencher a vida. O ninho fica vazio. “O cuidador e o cuidado são um binômio indissolúvel até um deles falecer”, esclarece a geriatra Tatiana Peron.

A secretária executiva Daisy Dias Ribeiro Sifuentes, 66, tomou conta do pai e da mãe até os dois morrerem. “Foi uma honra cuidar deles”, diz. Com os irmãos morando longe, assumiu a tarefa de oferecer assistência ao progenitor, Isaac, que sempre teve muitas doenças. Quando o idoso estava internado, ela passava o dia no trabalho e, à noite, ficava no hospital. Como o casal morava sozinho, a filha contratou o serviço de duas cuidadoras. A rotina diária ficou por conta da matriarca da família.

Quando dona Lolita descobriu um câncer sério, melanoma nas mucosas internas, Daisy assumiu de vez o cuidado dos pais. “Minha mãe achou que estava me dando trabalho e falou sobre isso com a psiquiatra. Mas a médica foi taxativa: ‘Deixe sua filha tomar conta de você’. Minha mãe se condoía com a dor do outro, ficava arrasada com qualquer notícia de tragédia. A doença a libertou. Foi uma honra acompanhá-la, ver que Deus trabalha com a gente até o finzinho”, lembra a secretária executiva.

O médico deu três meses de vida para dona Lolita. Ela viveu sete. A idosa faleceu aos 82, na companhia da herdeira. A saúde de Isaac piorou bastante depois da morte da esposa. Médico e advogado, lutou e sobreviveu mais cinco anos após ficar viúvo. Nesse período, a rotina de Daisy consistia, basicamente, em oferecer conforto ao pai. Foi criado um mini-hospital na casa do aposentado. Ele era assistido 24 horas por cuidadoras. “À noite, fazíamos orações juntos e líamos alguns salmos”, relata a filha do casal.

Apesar da rotina intensa, a vida da secretária executiva não parou. Ela reencontrou um amigo, começou a namorá-lo e se casou novamente. Dividia o tempo com a família e a missão de cuidar do pai. Daisy fez questão de se manter saudável, com exercícios regulares e boa alimentação, para dar conta do rojão.

Um tempo depois, Isaac descansou. Ficou a saudade. Mesmo com o risco do ninho vazio, alertado pelos especialistas, Daisy apenas reorganizou a vida. Se antes o pai era prioridade, agora são os netos, o novo marido, os preparativos para a aposentadoria e o cuidado com a própria saúde.

Daisy aprendeu com a experiência de tomar conta dos pais que precisa fazer exercícios para fortalecer os músculos. Ela mantém a cabeça ativa com leitura, convívio social e espiritualidade renovada. E como a vida é um ciclo, sabe que, quando necessitar de cuidado, terá a humildade de se deixar ser ajudada, tal qual o conselho da psiquiatra à dona Lolita.

Diretora-executiva
Lilian Tahan
Editora-executiva
Priscilla Borges
Editora-chefe
Maria Eugênia
Coordenação
Olívia Meireles
Reportagem
Juliana Contaifer
Revisão
Viviane Novais, Denise Costa
Edição de arte
Gui Prímola
Design
Moisés Dias
Ilustrações
Yanka Romão
Edição de fotografia
Michael Melo
Imagens
Isabella Almada, Tauã Medeiros
Edição de vídeo
Isabella Almada
Animação
Tauã Medeiros
Fotografia
Hugo Barreto, Marcelo Saraiva Chaves, Rafaela Felicciano, Vinícius Santa Rosa
Tecnologia
Allan Rabelo, André Marques, Saulo Marques