Bruna Sabarense
02/04 16:03

Andando pelas ruelas simples de Alto Paraíso (GO), é possível cruzar, entre uma casa futurista e um andarilho hippie, com Sean Gabriel de Souza, afilhado e modelo do estilista italiano Valentino. É normal também esbarrar, no restaurante da avenida principal da cidade, com a top model internacional Lea Cerezo sentada, aproveitando a calmaria do dia. A proprietária da loja ao lado é da artesã e designer Daniela Carvalho, que desenvolveu uma coleção em parceria com Helô Rocha, herdeira da Riachuelo.

O clima da Chapada dos Veadeiros mudou. A região hippie, abençoada por belezas naturais, não é mais refúgio apenas de nativos e eventuais turistas goianos e brasilienses. Após a passagem do ano 2000, Alto Paraíso ganhou a “fama”. Na época, místicos revelaram que somente o Parque Nacional sobreviveria a um provável fim do mundo. O apocalipse não veio. Mas a cidade ganhou fama internacional.


Junto com a lenda, apareceu um novo perfil de moradores e turistas: os gypsetters. Tribo de jovens que viajaram o mundo, moraram em diversos países e trocaram a vida agitada e cheia de eventos sociais das grandes metrópoles pela calmaria no interior do Centro-Oeste brasileiro.

Com a chegada desses atores, modelos, artistas, empresários e herdeiros, o lugar vem ganhando cada vez mais os holofotes entre as rotas turísticas. Os atores Thaila Ayala, Daniel de Oliveira e a esposa Sophie Charlotte, por exemplo, passaram a virada do ano de 2015 na Chapada.


Em 2016, Júlia Faria, Reynaldo Gianecchini, Maria Paula Fidalgo, Bruna Linzmeyer, Paolla Oliveira, Caio Castro, Antonia Moraes e Wagner Santisteban também integraram o time que se rendeu aos encantos do cerrado. Já nos primeiros dias de 2017, outros globais vieram conferir as belezas naturais da região e viraram notícia ao publicarem fotos sem roupa em visita à Chapada.

Mesmo preferindo comunidades afastadas, os gypsetters não abandonam a ponte aérea e precisam viajar de vez em quando. É o caso da modelo mineira Lea Cerezo, que tem trabalhos agendados em várias cidades do mundo, principalmente na Europa, mas há cerca de um ano e meio, sempre que consegue, volta para a Chapada.

No fim do ano passado, ela esteve na Tailândia, passou o ano novo na Itália com a mãe, em seguida correu para o refúgio em Goiás, onde conversou com o Metrópoles. Dois dias depois, iria para Paris e em menos de uma semana voltaria para Alto Paraíso.

Gostaria que aqui fosse a minha base. Estou procurando um terreno. Desde a primeira vez que estive aqui foi algo inexplicável, um chamadinho mesmoLea Cerezo

A modelo sempre gostou da natureza e já tinha ouvido falar do paraíso no interior do Centro-Oeste. Mas conheceu a cidade por influência da amiga e moradora da região, a designer Daniela Carvalho. “Criei um carinho forte com as pessoas daqui e cheguei a ter uma casa fixa na região por um ano”, conta.

Antes dessa temporada, a mineira morava em Ibiza, na Espanha, e consegue enxergar similaridades entre as duas cidades, principalmente o crescimento de turistas. “Deixei Ibiza porque a ilha ficou dominada por forasteiros e perdeu o sentido de comunidade que era tão forte, antes”, assume. É possível ver a mesma tendência no refúgio goiano.

A população de Alto Paraíso cresceu 64%, entre 1991 e 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — a média do estado de Goiás, no mesmo período, foi de 49%.

Com essa migração também vieram melhorias na estrutura da cidade. Em 2015, por exemplo, foram concluídas as obras de asfaltamento da rodovia que liga Alto Paraíso ao povoado de São Jorge — gerando uma economia de 40 minutos na viagem.

Essas duas cidades, ao lado de Cavalcante, são os principais pontos de repouso para quem conhece a Chapada dos Veadeiros pela primeira vez. O ecoturismo ainda é predominante e, juntamente com as cachoeiras, o Parque Nacional é um dos passeios mais procurados pelos visitantes. O portal de entrada do local fica na Vila de São Jorge — uma das regiões de maior concentração de água potável do mundo.

No entanto, a pavimentação não chegou por lá — e os moradores também não fazem muita questão. Para manter o ar de vilarejo, grande parte da população prefere manter o “chão de terra”.

A cidade é mais refúgio, tem menos alternativas de restaurantes e hotéis, mas não perde em nada no quesito charme.

Uma boa opção é alugar uma casa no vilarejo. Há 20 anos, o empresário Vitor Hugo Gilbert, 56 anos, e a esposa, Denise Viana, também empresária, se encantaram pela região. Abriram uma das pizzarias mais famosas da cidade, a Lua de São Jorge, e depois começaram a alugar casas no Espaço Rio da Lua, distante 4km da vila.

Vitor conta que, durante 30 anos, eles também tiveram uma pousada em Arraial do Cabo, mas preferiram curtir as maravilhas do cerrado. Frequentando há tanto tempo o local, ele percebe que o público mudou e que seu negócio atende bem à nova demanda. “As pessoas estão mais exigentes. Querem vir curtir a natureza, mas não abrem mão do conforto. Antes o pessoal vinha mais para acampar, agora o nível aumentou”, contextualiza.

Alto Paraíso tem casas de estilos diversos, lojas, muitos templos e até mesmo estranhas construções, em formato de ovnis, pirâmides e com muitos cristais. É a maior cidade da Chapada e com mais estrutura, asfaltada e com opções de gastronomia e hospedagem. Outro ponto positivo: lá costuma pegar muito bem sinal de celular e internet, ao contrário de São Jorge. Sem contar que a maioria do comércio, restaurantes e pousadas oferece wi-fi.

Mas o luxo nem sempre esteve ali. A comerciante Adriana Custodio, 43 anos, acompanhou o crescimento da cidade e lembra bem de uma época mais “vazia”.

Eram seis lojas na avenida principal; hoje tem mais de 100. Em 2007, comprei meu terreno de dois mil metros quadrados, onde um rio passa na frente, por R$ 7 mil. Hoje isso é impraticávelAdriana Custodio

Uma propriedade nos mesmos moldes atualmente não sai por menos de R$ 200 mil.

Mesmo assim, a empresária criou um oásis no meio do barro: o espaço “Coisas da Drica” que fica na avenida principal de Alto Paraíso — e não passa despercebido. Bem colorido, o lugar reúne peças garimpadas que ficam expostas na lojinha e tem um restaurante, recomendado até pela chef Mara Alcamim, do Universal Diner de Brasília.

Também fica em Alto o espaço de cultura ambiental e alimentação saudável Econóis, criado há um ano pela zoóloga e ativista Marianne Soisalo. Na estrada entre Alto Paraíso e São Jorge há o mirante do Morro da Baleia, que deve ser observado sem pressa. É possível perceber que os carros diminuem a velocidade para contemplar a vista.


Uma boa dica é admirar o nascer e o pôr do sol. Frequentador da Chapada há 30 anos e guia cadastrado há três, Maurão Seadi dá a dica: “Um dos melhores pontos do amanhecer pode ser visto do Morro do Pouso Alto. Dependendo do dia, é possível ver o sol chegando por um lado, a lua descendo no outro e o balão de ar saindo para o primeiro passeio do dia. É incrível”, conta.

Ele percebe a diferença de público nos últimos anos. “Mudou bastante, cresceu muito. Antes era só a molecada e os hippies, agora vem gente de todos os estilos e dá um pouco de tudo”, diz. Maurão ainda destaca que a Chapada dos Veadeiros oferece opções de passeios para todos os perfis. “Recebo senhoras, famílias com crianças, jovens e não tem dificuldade em montar roteiros que agradem a todos”, explica.

Para montar o seu, se liga nas dicas:

Os Moradores da Chapada

Adriana Custodio, 43 anos, comanda o espaço “Coisas da Drica”, em Alto Paraíso. Em sua outra vida, como fala dos dias vividos antes de chegar à cidade goiana, era gerente de lojas de luxo em São Paulo. Conhecia muita gente, tinha uma vida social bem agitada, morou um ano na Europa e então veio a depressão. Faltava algo. Voltou ao Brasil para se encontrar.

Vi aquele monte de hippies, alternativos e pensei: ‘É isso, me descobri.’ Vim para Alto e estou aqui há 12 anos. Aqui encontrei meu companheiro, temos três filhos.

Pela internet, descobriu o encontro “O chamado do beija-flor”, em São Paulo. Vi aquele monte de hippies, alternativos e pensei: ‘É isso, me descobri’. Vim para Alto e estou aqui há 12 anos. Encontrei meu companheiro, temos três filhos e construí meu negócio. Vendia de porta em porta pão, arte, quadros, artesanato e meus pertences de São Paulo. Logo, todos queriam ver as ‘coisas da Drica'”.

A artesã e designer Daniela Carvalho saiu de Uberlândia aos 17 anos para entrar no mundo da moda. Ficou em primeiro lugar no concurso “The Look of the Year” da Elite Model, morou em São Paulo por seis meses e depois foi para a Itália. Em 2000, conheceu uma famosa festa de música eletrônica na Chapada. Adorou o lugar.

Por indicação de Dani, a irmã também foi à cidade, onde acabou sendo pedida em casamento e resolveu que a celebração deveria ser lá mesmo. A ex-modelo organizou todo o casório e não saiu mais do centro-oeste do Brasil.

Me identifiquei muito com o ritmo da cidade – bem diferente das grandes metrópoles –, a energia dos cristais despertou meu lado criativo.

Começou a fazer trabalhos com couro após um acidente. Mais uma vez o universo conspirou a favor: a amiga e top Lea Cerezo começou a desfilar as peças de Dani entre seu ciclo de amizade e a estilista Helô Rocha, herdeira da Riachuelo, adorou as bolsas. O encontro rendeu um desfile inspirado na cidade goiana e uma coleção de acessórios. Atualmente, a Manitú pode ser encontrada na loja de Dani em Alto Paraíso, a Madre Terra, e em Trancoso

O engenheiro Damien Albisty, 35 anos, é francês, mas mora desde 2013 em Alto Paraíso com a esposa, a francesa Sitha — professora de ioga e terapeuta de medicinas diversas — e os dois filhos, Estela, 3 anos, e Theo, 1. Viemos quando minha esposa ficou grávida. Não queríamos ficar mais na cidade grande, preferimos um lugar mais perto da natureza. Vimos vários lugares, mas aqui foi o único que pensamos em morar mesmo.

Moramos três anos no Rio e depois um ano em São Paulo e não achávamos que era um bom lugar para criar os filhos. Vimos vários lugares, mas aqui foi o único que pensamos em morar mesmo.

O engenheiro reconhece que a cidade cresceu em comparação a quando se mudou com a família. Vê os lados positivos e negativos desse fato. “Nos feriados aumenta ainda mais a quantidade de pessoas na cidade, mas o turismo é necessário para a economia local. Só espero que não cresça muito mais, gosto da paz que temos aqui”, desabafa.

A parte espiritual e o misticismo

É quase um consenso: a maioria das pessoas relacionam a Chapada ao misticismo e elas estão certas. Agora, por que a cidade goiana é vista como um polo espiritual da Terra? Talvez por seus mistérios, ou pela fartura de cristais em seu solo – que, segundo especialistas, alteram as emoções e funcionam como canalizadores de energia –, ou por ser cortada pelo Paralelo 14, que também atravessa Machu Picchu, no Peru, ou ainda pelos diversos grupos espirituais que convivem em paz no local.

Um dos templos mais conhecidos para meditação é o Gota Sat Som. Tem música com instrumentos raros, meditação, transe, reflexão, aconchego, exercícios de respiração e um jardim verde muito convidativo que recebe gente de todas as religiões. O templo em forma de gota não tinha porta em 1994, quando foi construído por um grupo de meditadores. Mas, como recebia visitas o dia inteiro, a instalação foi necessária.


Depois do sucesso, mais pessoas procuraram o Parque em busca de espiritualidade, e outros líderes começaram a chegar. “Mestres de maior qualidade espiritual, trazendo grande luz”, avalia a gaúcha Geetika Sampatti, 67 anos, proprietária do Gota Sat Som.

Um exemplo é o guru brasileiro Sri Prem Baba. Ele guia o movimento Awaken Love, que entre outras práticas defende a ideia do despertar e renascimento para uma nova humanidade através do amor. Prem Baba e o movimento apoiam a força-tarefa global dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Com essa ação, o guru pretende melhorar a qualidade de vida dos moradores da Chapada.

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