Gekidel Casanova amamentou seu bebê sob a mira de uma arma. Essas foram as boas-vindas que recebeu ao chegar no Brasil, dadas por um policial em busca de traficantes na mata.

Maria cruzou a barreira da miséria com as próprias pernas. Pegou carona da Venezuela até a fronteira com Roraima. Entrou andando no Brasil. Um ano depois, já não podia se mover. Ao se prostituir, foi atacada a facadas por um homem. Perdeu parte dos movimentos.

Yeremi Acosta assistiu amigas abortarem por falta de comida. Celia Rosa tem quatro filhos e espera mais um. Para eles, o único alimento é uma papa feita de farinha e água. Karen Fonseca viu o primogênito da prima vir ao mundo já sem vida e recém-nascidos beberem água de arroz para sobreviver.

Todas fugiram do mesmo destino e representam centenas de outras vozes. São as novas filhas do Brasil: mulheres venezuelanas que buscaram refúgio no país devido à forte crise política, social e econômica instalada na terra onde nasceram.

Grupo de refugiados à beira da estrada: na chegada ao Brasil, Gekidel (com o bebê no colo) amamentou sob a mira de uma armaIgo Estrela/Metrópoles

Depois de viajar milhares de quilômetros sem comer e com bolsos vazios, não encontraram o acolhimento almejado. Estão em abrigos superlotados ou vivendo nas ruas de Roraima. Para elas, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Maria da Penha e a Constituição Federal brasileira não passam de palavras no papel. Assim como este 8 de março – Dia Internacional da Mulher.

A equipe de reportagem do Metrópoles percorreu cerca de 5 mil quilômetros entre o Brasil e a Venezuela para dar voz, rosto e nomes às mulheres refugiadas. Encontrou relatos de xenofobia, desnutrição, morte na maternidade, estupro, exploração sexual e violência física.

“Não existe nenhuma política de gênero para a crise de imigração que vivemos. Mulheres e crianças são 100% negligenciadas”

Jeane XaudAtivista de direitos humanos e defensora pública em Roraima

Ouvi-las é o primeiro passo para retirá-las da invisibilidade, já que muitas sequer registram as agressões sofridas. “Elas não conhecem seus direitos. Foram convencidas de que a vida delas não vale nada”, explica Vanessa Epifânio, coordenadora da organização humanitária Fraternidade Sem Fronteiras, local destinado a abrigar refugiados.

O Ginásio Tancredo Neves, na zona oeste de Boa Vista, se transformou em campo de refugiados, sob o comando da Defesa CivilIgo Estrela/Metrópoles

Roraima, divisa com a Venezuela, tornou-se o destino mais viável para 40 mil venezuelanos – dos quais 41,2% são mulheres, de acordo com a Polícia Federal. Por dia, há registro de 1,5 mil novos imigrantes no país.

A maioria entra sozinha pela fronteira, na cidade de Pacaraima, distante cerca de 200km da capital, Boa Vista. Entre os refugiados, há centenas de mulheres grávidas ou com filhos, a maior parte negras ou indígenas, que são, segundo a Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), a parcela mais vulnerável desse contingente.

A rota dos imigrantes

Em busca de um porto seguro, elas permanecem desprotegidas em solo brasileiro. Roraima não apresenta estatísticas amigáveis às mulheres. É o estado com maior taxa de feminicídios no Brasil, conforme levantamento da ONG Human Rights Watch.

“A omissão com imigrantes venezuelanos é criminosa. Estamos gritando por ajuda há 3 anos”

Jeane XaudAtivista de direitos humanos e defensora pública em Roraima

Registrou-se um aumento de 139% nos casos de pessoas do sexo feminino assassinadas, entre 2010 e 2015, em Roraima. A taxa chegou a 11,4 homicídios a cada 100 mil mulheres. A média nacional, de 4,4, já é uma das mais elevadas do mundo, segundo a ONG.

Praça Simon Bolívar é o primeiro ponto de parada dos imigrantes venezuelanos em Boa Vista Igo Estrela/Metrópoles
Gekidel Casanova tinha acabado de entrar em Roraima e amamentava a filha quando foi abordada pelo Exército Igo Estrela/Metrópoles
A família da menina Angela Muñoz atravessa a fronteira para comprar comida. Mercados da Venezuela estão desabastecidos Igo Estrela/Metrópoles
Cerca de 1.500 pessoas, entre adultos e crianças, entravam diariamente pela fronteira, antes do controle da Força Nacional Igo Estrela/Metrópoles
Desde fevereiro, agentes da Força Nacional controlam a entrada de estrangeiros pela fronteira de Roraima com a VenezuelaIgo Estrela/Metrópoles
Antes da chegada da Força Nacional, era comum pessoas entrarem pelo mato, sem qualquer controle da Polícia Federal Igo Estrela/Metrópoles
Policiais fazem abordagem na fronteira, em busca de traficantes de caça Igo Estrela/Metrópoles
Entrada da cidade de Santa Elena, na Venezuela, na fronteira com Pacaraima (RR) Igo Estrela/Metrópoles
Carmen Bastardo (no centro da foto) veio da Venezuela com a filha, Jhonneli Igo Estrela/Metrópoles
Sem ter para onde ir, refugiados acabam morando nas ruas, pedindo comida e emprego Igo Estrela/Metrópoles

“Vivenciamos uma nova era dessa violência com a questão da migração das venezuelanas. Muitas são exploradas na prostituição. É a vulnerabilidade dentro da vulnerabilidade”, afirma a defensora pública estadual do juizado de violência doméstica de Roraima, Jeane Xaud.

O estado também ocupa o 4º lugar no ranking das unidades da Federação com mais estupros: são 45,5 por 100 mil habitantes, anualmente. “Como afastar uma vítima do agressor se os dois estão refugiados no mesmo abrigo? Como cumprir uma medida protetiva? A lei não existe para essas mulheres”, denuncia Xaud, que acompanha de perto casos de violação de direitos.

Uma chance
de nascer

Alguns dados ajudam a compreender o êxodo das mulheres refugiadas. A mortalidade infantil na Venezuela aumentou 30% entre 2015 e 2016. O número de mães que faleceram no parto cresceu 65% no mesmo período, pelos registros do Ministério da Saúde do país.

A Federação Médica Venezuelana afirmou que os hospitais funcionam com apenas 3% dos medicamentos e insumos necessários. É preciso mover-se para sobreviver. Nos relatos abaixo, estão os depoimentos de quem viveu essa situação.

“Caminhei 40 quilômetros com uma barriga de 5 meses de gravidez, sem comida nem água, no sol, para chegar a Boa Vista. O resto da estrada completei de carona. Mulheres e crianças estavam morrendo de fome em Maturín [Venezuela].

Olhei para o meu marido e disse: ‘Se quiser ficar, fique. Eu vou embora’.

Vi amigas abortarem por não terem comida e eu não desejava repetir isso. Necessitava de um lugar onde meu bebê pudesse nascer. Deixei outros dois filhos para trás, com a avó, e tenho de mandar dinheiro para que eles possam comer. Nós não tínhamos nem roupas quando chegamos. Hoje, vivo no abrigo da Fraternidade Sem Fronteiras e sou grata.

Durmo em um colchonete e, à medida que a barriga cresce, fica mais difícil. Mas, não vou reclamar: na praça [Simón Bolívar, no centro de Boa Vista], onde a maioria dos venezuelanos estão acampados, há agressões sexuais, as pessoas brigam e se comportam como animais quando chega um pouco de comida. Há homens maltratando as mulheres. E, ainda assim, estamos melhor aqui.”

31 anos

“Uma amiga confiou no sistema de saúde da Venezuela e seu neném morreu na barriga. Em 2015, quando soube que eu tinha eclâmpsia [hipertensão arterial com risco de convulsões], tive de vir para o Brasil.

Uma mãe que quer defender a vida do filho enfrenta tudo.

Não há comida nem sistema de saúde na Venezuela. Os médicos são bons, mas não tem remédio ou material. Os doutores costumam dizer que estão ‘de braços caídos’. Durante meu parto, eu não sabia o que estava acontecendo, não entendia aquela língua [português]. Minha filha, Aurora, ficou um mês na maternidade em Boa Vista. Nasceu com 1,5kg. Hoje, ela tem 3 anos, é saudável e tem todo um futuro pela frente.

O que está acontecendo [na Venezuela] não é normal. Não podemos fechar os olhos. No planeta todo, quando uma mulher está grávida, cedem o lugar no ônibus, cuidam dela, pois o mundo tem uma responsabilidade por aquele ser humano que está por vir.

Ser venezuelana é estar vulnerável várias vezes. Se não temos documento, somos invisíveis. Por isso, entrei para uma corrente do bem. Me juntei à Fraternidade Sem Fronteiras [uma das poucas instituições que ajudam mulheres refugiadas] e, hoje, sou uma das coordenadoras da instituição.

Há garotas de programa grávidas e trabalhando. Mulheres com 14 dias de parto que já voltaram a se prostituir, por necessidade. O Brasil não trata bem as mulheres, que dirá as estrangeiras. Nós somos órfãs da nossa terra. Deixamos a nossa mãe. Sentimos muita solidão.”

27 anos

“Venho de Maturín com meu esposo. Depois de 16 horas dentro de um ônibus, chegamos. Dormi uma noite ao relento, na rodoviária de Boa Vista, e foi assustador. Nos jogavam pedras e xingavam. Depois consegui abrigo. Cheguei com dores nas costas e faminta. Mesmo assim, essa era a melhor opção. O bebê de uma prima nasceu na Venezuela, aos 8 meses, e morreu em seguida, por negligência. Não quero que me deixem ter o mesmo destino.

Todos os bebês merecem uma chance de nascer.

Depois de 9 meses de espera, preciso ter meu filho nos braços. Vim pela segurança do meu bebê, ele precisa de dignidade para nascer. Quero poder comprar, ao menos, um pacote de fraldas. Na Venezuela, tínhamos casa, eu trabalhava em restaurante e meu marido era ajudante de obra. A comida começou a chegar à cidade em cargas, de três em três meses, e ficou cada vez mais rara.

Vi mães dando água de arroz a bebês. Como uma criança pode nascer se a mulher não come? Tenho o sonho de ser engenheira civil, quero construir nosso futuro. Enquanto eu como aqui, não sei se minha mãe se alimenta na Venezuela. Penso nela enquanto mastigo. Quero trazê-la para cá. Sinto uma grande tristeza por não poder dividir com ela o nascimento do meu primeiro filho.”

22 anos, 6 meses de gestação


“Qualquer mulher sente medo de pegar carona ao dormir na rua. Estamos expostas a muitos tipos de violência.

Mas, quando se está com fome, tudo isso fica em segundo plano.

Meu marido morreu há três meses e começamos a passar fome na Venezuela. Me vi obrigada a vir para o Brasil para tentar uma vida melhor. Tenho uma filha de 2 anos, um menino de 9 e estou grávida novamente. Eu trabalhava como cozinheira, mas começaram a pagar muito pouco e não dava para comprar nada. Não podíamos mais suportar. Então, pedi carona de lá até aqui.

Me sinto bem no abrigo da Fraternidade Sem Fronteiras, as crianças vão à escola e há muitas doações. Fiquei surpresa e grata aos brasileiros pela solidariedade.”

24 anos


“Vim de Barcelona, na Venezuela, dia 11 de dezembro de 2017. Viajei dois dias de ônibus com apenas R$ 10 no bolso. Estou grávida de 6 meses e não sei nem se carrego no ventre um menino ou menina, tampouco se o bebê está saudável. Como poderia dar-lhe um nome? Imaginar seu rosto?

Sem emprego e sem comida, me vi obrigada a partir.

Sonho com uma casa, com um trabalho. Comíamos cada vez menos na Venezuela. Quem está aqui não pode imaginar como estão as coisas por lá.”

22 anos

“Viajei mais de 5 mil quilômetros sozinha e hoje vivo na praça Simón Bolívar com minha filha Jhonneli, de 4 anos. As pessoas estão com medo da gente.

À noite, é pior. As mulheres não dormem todas ao mesmo tempo, uma vigia o sono da outra.

Sempre estamos de olho nas crianças também. Na madrugada, passam pessoas nos xingando e tacando pedras. Para os brasileiros, somos todas ‘as putas do Caimbé’ [bairro de Roraima que concentra pontos de prostituição] e os homens são ladrões.

Não nos respeitam e, na sociedade, os filhos acabam sendo só da mulher. Os homens não assumem a responsabilidade. Se eu soubesse que aqui seria assim, jamais teria vindo. Só quero voltar para a minha casa. Se é para morrer de fome, que seja em El Tigre, onde nasci, perto dos meus outros dois filhos. Não sei quando foi a última vez em que eles comeram.”

30 anos


“A primeira coisa que me disseram foi: ‘Não tome banho no banheiro feminino’. Uma grávida pegou uma grave infecção urinária lá. Só tem um banheiro de mulher e um de homem em todo o acampamento [no Ginásio Tancredo, espaço cedido pelo governo para os imigrantes espalharem barracas] para 800 pessoas.

Quando eu saí de Maturín, de carona, achei que seria melhor, mas nos colocaram em um campo de refugiados.

Tudo o que mais desejo é voltar, mas estou com 7 meses de gravidez e sinto dores nas costas, nos pés. Não tenho nada em dinheiro e não como todos os dias. No acampamento, os fogões são pedaços de pau espalhados no chão. Há vários brinquedos de criança quebrados jogados nos cantos, enquanto elas correm sujas e aprendem coisas erradas. Não era isso que eu buscava.”

18 anos

“Tenho quatro filhos e mais um na barriga. Vivia no centro da Venezuela, agora moro na rua, aqui em Santa Helena [cidade venezuelana na fronteira com Roraima, onde a reportagem esteve].

Estou há três dias caminhando e pedindo carona, até chegar aqui. Não sei como, mas irei até Boa Vista.

Está difícil resistir, só comemos uma pasta com água e farinha de trigo. Ninguém come isso porque deseja. Vivo de esmolas, mas nem sempre foi assim. Já trabalhei com limpeza, em restaurante e em casa de família.

Não sei se terei leite para dar ao bebê quando ele nascer. Mas desejo que ele seja brasileiro, porque terá mais chances de estudar e trabalhar. Ninguém sabe o que vai acontecer com a Venezuela, mas não podemos ficar aqui para esperar. Um bebê tem o seu tempo para nascer e os pequenos precisam comer para crescer.”

33 anos, em Santa Helena, na Venezuela


“Estou caminhando há cinco dias com uma criança de 5kg no colo. Essa é a minha filha, Dairimar, de 4 meses.

Por sorte, foi tudo bem no parto, feito na Venezuela, mas lá não há mais como viver.

Nossa última refeição foi pão com salsicha, depois de dias sem comer. Ela só toma leite do peito, mas como vou ter leite se não me alimentar? Ainda tenho um pouco para dar, mas tenho medo que acabe.

Ficamos três dias dormindo ao relento e o rosto dela está todo picado por mosquitos. Além das doenças, tenho medo principalmente de estupro, mas não há o que fazer. Se ficasse na Venezuela, veria minha filha morrer.

Tudo que temos está nessa mochila, são algumas roupas velhas e dois sapatos. Meu marido veio primeiro e está em Boa Vista. Quero me juntar a ele. Sozinha não vou conseguir enfrentar tudo isso.”

21 anos, à beira da estrada aguardando carona, em Pacaraima

“Yessica Torres não está mais aqui, então terei de falar por ela. Ela chegou ao Brasil com 24 anos, em 2017, aos 7 meses de gestação.

Estava grávida de gêmeos, foi abandonada pelo pai dos bebês, e tinha muito medo que algo acontecesse com eles no parto.

Veio de Barinas, três dias de ônibus. Chegou aqui cansada, inchada. Tinha anemia aguda. A viagem era arriscada, mas o que ela poderia fazer se, na Venezuela, não tinha nem um pacote de fralda para os nenéns? Então, ela veio. Deixou para trás o primeiro filho, Fabian, com o pai.

Ela foi para o hospital em 15 de janeiro e sentia muitas dores, mas os médicos a mandaram de volta para casa. Yessica teve cólicas e vômito, mas disseram que era normal. Em 24 de janeiro, Sebastian e Santiago nasceram bem, mas ela não resistiu. Morreu dois dias depois.

A certidão de óbito traz a causa da morte: acidose hemorrágica grave, insuficiência renal aguda, choque séptico, origem indeterminada, anemia hemorrágica, síndrome ictérica febril. Recebemos doações para mandar o corpo dela de volta à Venezuela. O filho queria enterrá-la, a mãe desejava se despedir.

Tudo que temos, as roupinhas, o leite, veio de doação, em uma campanha na internet. Há muita xenofobia no Brasil, pessoas atravessam a rua quando nos veem, mas tem também muita solidariedade. Conhecemos o melhor e o pior das pessoas aqui.

Nós também viemos da Venezuela. No começo, vivíamos 12 pessoas em um quarto. Agora, temos trabalho e uma casa. Eu faço diária e meu marido trabalha na construção. Vamos adotar os bebês”

23 anos, casada com o irmão de Yessica, Joxan Alexander, 23

Colapso na maternidade

O número de partos na única maternidade de Boa Vista, no Hospital Nossa Senhora de Nazaré, aumentou 450% nos últimos três anos. Em 2015, foram 164 nascimentos de filhos de venezuelanas. Em 2017, tiveram mais 572 registros. A expectativa para 2018 é chegar a 630 atendimentos de grávidas do país vizinho, no mínimo. Esses dados refletem apenas os nascidos na capital. A cada quatro horas, uma venezuelana dá à luz no estado, segundo o governo de Roraima.

Até 2017, quase todas as gestantes da Venezuela vinham de cidades fronteiriças, em ambulâncias. A partir do último ano, porém, o perfil mudou: as mulheres vêm cada vez de mais longe, de cidades como Caracas (a 1.500km de Boa Vista), Maturín, El Tigre e outras. A maioria faz uma parte do trajeto de ônibus e outra de carona. Algumas chegam a caminhar 200km de Pacaraima até a capital roraimense, onde estão os abrigos.

“Antes, elas vinham, tinham o filho e voltavam para casa. Agora, não. São mulheres que migraram de vez para o Brasil”, explica o diretor-técnico da maternidade, o pediatra Luiz Gustavo Araújo da Silva.

A mãe dos gêmeos Sebastian e Santiago morreu no parto. Os tios dos garotos Yusmerlys e Joxan adotarão os dois Igo Estrela/Metrópoles
Crianças brincam na Fraternidade Sem Fronteiras, um dos únicos abrigos para os venezuelanos oferecidos em Boa VistaIgo Estrela/Metrópoles
Homens, mulheres e crianças dividem o mesmo espaço: não há instituições exclusivas para cada gênero Igo Estrela/Metrópoles
A Fraternidade sem Fronteiras administra um dos únicos abrigos disponíveis em Boa VistaIgo Estrela/Metrópoles
Venezuelanas na maternidade de Boa Vista: só em 2018 são previstos 630 partos de mulheres dessa nacionalidadeIgo Estrela/Metrópoles
O número de prematuros e de partos de alto risco é maior entre as refugiadas Igo Estrela/Metrópoles
A única distração das crianças são os brinquedos doados por brasileiros Igo Estrela/Metrópoles

“Nos enxergam
como uma praga”

Para alimentar a si mesmas e aos filhos – geralmente sem qualquer apoio dos pais das crianças –, parte das mulheres venezuelanas tem recorrido à prostituição. Eram chamadas pelo nome, trabalhavam como médicas, enfermeiras, garçonetes e engenheiras no país de origem. Agora, estão nas ruas do Caimbé, bairro de Boa Vista famoso pelos prostíbulos, expostas a todo tipo de violência.

Em um programa, elas ganham no máximo R$ 80. Ficaram conhecidas na cidade como “as ochenta”, uma cruel referência ao preço do serviço prestado a quem tem dinheiro para pagar. “Elas não podem parar de trabalhar nem depois de ter um bebê. Encontrei uma moça que, com 14 dias de parto, já estava de volta às ruas. Fui ameaçada de morte por tentar ajudá-las”, relata a ativista humanitária Vanessa Epifânio.

Sem emprego, venezuelanas se prostitutem nas ruas de Boa Vista Igo Estrela/Metrópoles
O bairro Caimbé concentra a maior parte dos pontos de prostituição Igo Estrela/Metrópoles
Atrás da rua que concentra a prostituição, refugiados acampam, lavam roupas e cozinham de forma improvisada Igo Estrela/Metrópoles
Prostituição se dá nas imediações do Ginásio Tancredo NevesIgo Estrela/Metrópoles

Muitas das refugiadas tentaram outros caminhos, como um emprego na área de formação ou faxinas em casas brasileiras. É comum, porém, encontrar quem deseja pagar entre R$ 10 e R$ 30 por um dia inteiro de serviço de limpeza ou apenas dar-lhes um prato de comida em troca do trabalho pesado.

“Há diversos relatos de venezuelanas que estavam trabalhando como domésticas e sofreram exploração sexual por parte do empregador. Não tendo como sobreviver, acabam submetidas a humilhações, ofensas e agressões”

Rosita MilesiDiretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH)

Prostituir-se não é crime no Brasil. Lucrar com a exploração sexual de pessoas, sim. Em Roraima, há quem alicie essas mulheres. Em agosto de 2016, nove venezuelanas foram resgatadas pela polícia em uma casa no Caimbé. Eram mantidas sob cárcere privado e obrigadas a trocar sexo por comida.

Agentes da Polícia Civil e da Guarda Municipal (a Polícia Militar da capital) tocaram a campainha. Da janela, uma mulher conseguiu se comunicar e afirmou não ter como abrir a porta. “Elas ficavam dentro do imóvel durante o dia e, à noite, eram obrigadas a se prostituir. Eram escravas sexuais. O dinheiro que ganhavam era repassado ao brasileiro responsável pela casa, que, em troca, dava moradia e comida a elas”, explicou a chefe de Divisão de Proteção da 1ª Vara da Infância e Juventude, Lorrane Costa. As autoridades liberaram as vítimas, mas ninguém foi responsabilizado pelo crime.

A impunidade é regra quando se trata de apurações que envolvem mulheres em Roraima. Segundo a Human Rights Watch, nenhum dos 8.400 boletins de ocorrência de violência doméstica registrados em Boa Vista, entre 2014 e 2015, terminou em punição. Crimes são arquivados e acabam prescrevendo.

Prostituição se dá nas imediações do Ginásio Tancredo NevesIgo Estrela/Metrópoles

Quando Maria, 30 anos, precisou de ajuda, não sabia a quem pedir. Ela veio de El Tigre, na Venezuela, a mais de 5 mil quilômetros de Boa Vista, com a irmã, Rosa, 24. As duas começaram a fazer programa no Caimbé em fevereiro de 2017.

Em 7 de dezembro do ano passado, Maria foi estuprada e esfaqueada por um cliente. Ele queria fazer sexo sem preservativo e ela negou. Foi violentada e ferida no abdômen e no pescoço, dentro de um carro.

Em seguida, o homem jogou o que acreditava ser um cadáver na estrada. Maria ficou sobre o asfalto da via RR-205, com as vísceras expostas, até alguém encontrá-la e chamar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Enquanto fingia-se de morta e aguardava socorro, pensava no filho, que ficou na Venezuela com uma tia, até perder os sentidos.

Nos jornais, ela aparecia como “garota de programa venezuelana de 30 anos”. Era só mais uma das meninas do Caimbé: vítimas diárias das maiores atrocidades. O Metrópoles localizou Maria, que não quis ter o sobrenome divulgado. Antes de vir ao Brasil, ela trabalhava como farmacêutica na Venezuela. Perdeu o emprego por conta da crise e não conseguiu mais ocupação.

“Ninguém que tem escolha se arrisca assim. Estupros, mortes e outras violências são rotina no Caimbé. A maioria nem registra ocorrência”

RosaIrmã de Maria

Maria ficou com sequelas por conta da agressão e perdeu parte dos movimentos das pernas. Impossibilitada de trabalhar, foi levada de volta à Venezuela, amparada pela irmã.

“Não sabíamos mais o que fazer, então dei um jeito de levá-la para lá por um tempo. Consegui um emprego como empregada, mas ainda não ganho o suficiente. Estou sustentando toda a família e minha irmã nem saúde tem”, desabafa.

Rosa tem dois filhos na Venezuela. Trabalhava com serviços gerais no país onde nasceu. “Depois que cruzamos a fronteira não temos mais nome, nem profissão. Somos vistas como uma praga”, afirma.

“A mulher sofre mais na sociedade. A responsabilidade sobre o filho, que é muita coisa, cai toda sobre ela”

RosaIrmã de Maria

Dias depois do crime, Maria reconheceu seu algoz por meio de uma fotografia. Passaram-se meses e ele permanecia em liberdade. “Tivemos que acionar conhecidos na Polícia Federal e recorrer ao Ministério Público para que a investigação seguisse em frente. Após interferência federal, o homem logo estava na cadeia”, relata Vanessa, que representa a Fraternidade Sem Fronteiras. Com Maria longe do Brasil, a família teme que o processo não prossiga e o autor da agressão seja solto.

Uma em cada cinco refugiadas – ou mulheres deslocadas em complexos contextos humanitários, conforme designação oficial – sofreram violência sexual, no mundo, de acordo com a ACNUR, Agência da ONU para Refugiados.

Barbearia improvisada no Ginásio TancredoIgo Estrela/Metrópoles

No Brasil, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) trabalha junto ao poder público para garantir que os direitos desses imigrantes sejam respeitados. “A violência de gênero não está erradicada em lugar algum do mundo. O deslocamento aumenta a vulnerabilidade. Ao perder os vínculos sociais, mulheres ficam ainda mais expostas a isso. Não têm familiares e amigos a quem pedir ajuda nem conhecem seus direitos”, explica a oficial do UNFPA Brasil para Gênero e Raça, Ana Cláudia Pereira.

Considerada avançada, a lei de imigração brasileira é respeitada internacionalmente, diz Ana Cláudia. “O país garante aos refugiados os mesmos direitos dos nascidos aqui. Quando a presença de imigrantes aumenta muito rápido, como em Roraima, o desafio é fortalecer toda a estrutura estadual, que já era carente de políticas de proteção à mulher”, ressalta.

O Metrópoles pediu informações e entrevistas ao governo de Roraima, mas não recebeu retorno até a publicação da reportagem. Segundo as fontes ouvidas, não há atualmente no estado nenhuma política pública pensada especificamente para proteger os direitos das mulheres refugiadas.

A Casa da Mulher Brasileira em Roraima – que teria apoio psicossocial, delegacia, juizado, alojamento e até brinquedoteca – está fechada há um ano por falta de móveis. A obra custou R$ 10 milhões. Enquanto isso, a cada dia, uma nova garota chega às ruas do Caimbé.

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