Mães solo falam sobre as dores e as delícias da maternidade

Nos depoimentos de Camila, Michele e Fernanda descobrimos como elas receberam a notícia da gravidez e encaram o dia a dia

Se ser mãe é difícil, ser mãe solo é treta. Mulheres que tiveram bebês e não estão em relacionamentos estáveis enfrentam a rotina exaustiva da maternidade sozinhas – em especial, as com filhos pequenos, ainda muito dependentes. Elas também precisam lidar com julgamentos e administrar a relação com o pai da criança, algo sempre desafiador. “Tenho muito medo de ser acusada de alienação parental”, conta a servidora pública Michele*, 38 anos.

A expressão “mãe solo” surgiu para tentar eliminar o estereótipo que ronda essas mulheres, antes chamadas de “mães solteiras”. Ao associar a maternidade ao estado civil, vende-se uma série de ideias equivocadas, como a de que é preciso estar em um relacionamento, ou mesmo ter um marido, para constituir uma família feliz.

“Sempre preciso provar que não sou uma mãe sofredora. As pessoas me olham com pena e isso é muito desagradável”, desabafa a jornalista Camila*, 29 anos, mãe de uma bebê de 1 ano.

Nos depoimentos abaixo, Camila, Michele e Fernanda* contam como receberam a notícia da gravidez e encaram a maternidade solo. Todas pediram para não serem identificadas e, assim, evitarem conflitos com os pais das crianças.

Camila, 29 anos, jornalista, mãe de uma bebê de 1 ano
“A notícia da gravidez foi um baque. Eu e o pai da minha filha saímos apenas uma vez e aconteceu. Nunca mais tivemos nada romântico, mas, desde então, temos sido muito parceiros e respeitosos. Decidi seguir com a gravidez e ele optou por assumir a paternidade. Escolhemos parir juntos. A gente precisou se tornar melhores amigos pela nossa filha. É claro, temos momentos difíceis. Às vezes eu dou pane ou ele dá pane, mas sempre puxamos a orelha um do outro e tentamos conversar.

Nos primeiros dois meses, ele e meus amigos se revezavam para eu não passar as noites sozinha. Tenho muita sorte, porque minha filha está sendo criada em uma tribo. Fora do nosso círculo, porém, ainda rola muito julgamento. O pai sempre precisa provar que não é ausente, e eu, que não sou uma mãe sofrida. As pessoas me olham com pena, e isso é muito desagradável.

Há alguns meses, baixei o Tinder, mas já desisti. Até conheci pessoas legais, mas também cruzei com boy lixo. Essas experiências me mostraram: não estou no momento para isso. Existe um meme que  listas os tipos de caras com que não devemos desperdiçar uma depilação. Eu faço o mesmo com os homens que me fazem desperdiçar uma babá. Tudo é muito mais complicado, marcar um encontro, ser romântica, fazer o namorado se sentir seguro para frequentar a sua casa, sem achar que vai virar pai da criança.”

Michele, servidora pública, 38 anos, mãe de uma bebê de 1 ano e 5 meses
“Eu e o pai da minha filha nunca namoramos, mas falávamos em ter um bebê. Foi uma gravidez planejada, a ideia era desenvolver uma relação e criar nossa filha juntos. Mas, quando eu estava com 16 semanas de gestação, terminamos. Para mim, foi um baque, porque nossos planos foram por água abaixo.

Ele é bastante presente na vida dela, saem juntos, mas a carga mental é 100% minha. Planejo as refeições, o guarda-roupa, o cronograma de remédio, essas coisas. Mas informo tudo a ele, porque tenho muito medo de ser acusada de alienação parental.

Não sinto muito o julgamento das pessoas, mas tenho 38 anos. Penso que isso pesa muito mais se você cria um filho sozinha aos 20 e poucos anos. Eu quis ter a minha filha. Mas tudo é um perrengue, fazer compras, carregar coisas no carro. Já fui embora de uma festa porque, sozinha com ela, não conseguia tomar uma água sequer.

Por enquanto, não tive nenhum relacionamento. A minha vida é muito limitada à maternidade e, certamente, minha filha é um impedimento para que eu viva novas experiências. Mas tenho plena consciência de que essa é uma fase. Em breve, ela vai ganhar mais autonomia e vou poder voltar a ter vida social.”

Fernanda, 34 anos, acupunturista, mãe de uma bebê de 1 ano e 11 meses
“A gravidez foi um descuido. Quando descobri, fiquei com a visão turva e chorei muito. Já havia percebido que o pai da minha filha era esquisito, meio obsessivo, mas tive total apoio da minha família e dos meus amigos. Minha mãe me ajudou a entender que eu não precisava estar junto dele. Eu e minha filha vamos criar uma relação, ela e o pai, outra. Ele é superpresente e se dão muito bem. Por enquanto, passam apenas o dia juntos, mas, quando ela fizer 2 anos, começará a dormir na casa dele.

Os primeiros 11 meses são muito difíceis, a exaustão se sobressai. Em poucos momentos sinto, efetivamente, como é gostoso ser mãe. Ela aprendeu a andar e as coisas foram ficando mais fáceis. Também me virei para criar soluções e estratégias. Divido o apartamento com uma amiga, também mãe solo, e somos uma família. As crianças fazem tudo juntas, dividem o quarto, é um amor.

Não é fácil, mas, às vezes, leio relatos de mulheres casadas e penso ‘como é que vocês conseguem?’. A minha situação é melhor do que a de muitas mães que, além de cuidarem dos filhos, precisam lidar com maridos infantis, imaturos e dependentes.”