É correto usar o medo para educar?

Esse tipo de recurso realmente traz resultados, mas pode ser sinônimo de consequências ruins, como inseguranças e, até, fobias

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atualizado 24/01/2019 15:54

Eu devia ter uns 6 ou 7 anos quando a figura do Homem do Saco entrou, de vez, no meu imaginário. Era um velho maltrapilho, feio e perverso, que andava pelas ruas da cidade falando impropérios, atento às traquinagens das crianças. Quem não se comportasse teria os brinquedos levados embora por ele.

O Homem do Saco foi inventado pela minha avó, que ficava comigo e minha irmã enquanto nossos pais trabalhavam. Dona de uma pedagogia pra lá de ortodoxa, ela também é a criadora da Mulher Mágica – criatura ainda mais cruel, que aterrorizou minha irmã na época do desfralde. Se ela não controlasse o xixi à noite, era certeza que a tal mulher levaria os brinquedos, principalmente os favoritos.

Ainda hoje, minha avó conta com orgulho que, graças a ela e seus métodos, minha irmã parou de molhar a cama. “O grande problema é que esse tipo de recurso realmente traz resultados, já que o objetivo é amedrontar a criança para que ela faça ou deixe de fazer algo. Talvez por isso esse modelo de educação continue sendo usado por gerações e gerações”, afirma a psicóloga infantil Juliana Barbosa.

Mesmo “eficiente”, a prática pode trazer consequências ruins. A primeira delas diz respeito ao fato de que meninos e meninas já têm uma grande capacidade para fantasiar personagens malvados, como bruxas, lobos-maus e monstros diversos. “Quando o adulto acrescenta mais criaturas a essa imaginação, pode exceder a capacidade de a criança lidar com isso e, assim, surgem medos, inseguranças e até fobias”, detalha Juliana.

Além disso, em muitos casos, amedrontar só serve para que as crianças tenham um mau exemplo de como se comportar, na infância e vida adulta. “Será que ela está sendo ensinada a entender a importância de algumas regras para o convívio em sociedade e a respeitar os mais velhos, ou está aprendendo que algumas normas podem ser burladas, caso não tenha ninguém olhando?”, questiona a psicóloga.

A especialista lembra que o medo é muito importante para a sobrevivência e o desenvolvimento infantil. Por exemplo, é necessário que meninos e meninas conheçam o risco de falar com estranhos ou de atravessar a rua sem olhar os dois lados. A melhor estratégia para preveni-los em relação a essas situações, contudo, é mostrar os motivos reais pelos quais essas são condutas perigosas – por mais que tenhamos de repetir muitas e muitas vezes.

Por fim, Juliana reforça que o uso do medo revela, também, a incapacidade de os adultos tratarem dos pequenos. “Isso só demonstra a nossa fragilidade ao lidar com conflitos, e a nossa pressa em querer resolver problemas”, afirma. “Ninguém gosta de ser enganado, independentemente de ser adulto ou criança. A confiança e a honestidade são a base de qualquer relação saudável.”

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