12 de outubro é dia de dar presente?

Os presentes têm significados, mas não dá-los também pode transmitir ideias não necessariamente ruins

atualizado 11/10/2018 21:22

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Lembro, ainda hoje, o último presente que ganhei de Dia das Crianças. Eu devia ter uns 11 ou 12 anos, e meu pai, com uma expressão solene, me entregou uma embalagem retangular. Ao abri-la, me
deparei com um relógio despertador.

Podia ter sido broxante, mas eu já era grandinha e, no final das contas, o relógio era bem engraçadinho: colorido e com diferentes sons para o despertar, que incluíam o canto de um galo, o mugido de uma vaca e a buzina de um trem.

O que ficou mesmo, no entanto, foi o simbolismo do regalo. A partir daquele momento, ninguém mais ia me acordar para ir à escola. A infância tinha acabado de vez. Estava sob minha responsabilidade sair da cama. Foi um belo último presente de Dia das Crianças. Fiquei pensando nessa história esses dias, quando me dei conta de que os presentes têm significados, mas não dá-los também pode representar coisas – não necessariamente ruins.

Não ando muito a fim de comprar presentes para meus filhos por ocasião do 12 de Outubro – embora ainda não tenha discutido isso com o pai deles. Não é que as crianças não “mereçam” ou que eu não goste de agradá-las – pelo contrário. A questão é: elas parecem já ter brinquedos demais.

Na minha família, temos o privilégio de viver em uma situação econômica favorável – o fato de eu estar escrevendo sobre isso já dá uma dimensão das coisas. Não somos ricos, mas temos acesso à saúde, educação, cultura e podemos adquirir brinquedos com facilidade. E temos parentes, que adoram mimar as crianças. No meu íntimo, temo que essa situação acabe por deixar meus filhos “mal acostumados”.

Se eles percebem que é sempre fácil ter as coisas, será que vão aprender a valoriza-las?

Além disso, fico pensando qual é o sentido do Dia das Crianças. Será que, ao invés de correr para as lojas atrás daquela pista de carrinhos superbacana, eu não devia festejar a infância de um jeito menos consumista?

Talvez, passar o feriado ao lado dos meus filhos, me entregando às brincadeiras deles, sem pressa e sem distrações (tchau, celular) possa ser um baita presente.

Que, neste dia, nossas crianças possam celebrar a alegria de serem o que são. E que a gente possa aproveitar ao lado delas, afinal, elas crescem rápido demais.

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