Seleção feminina: o que deixar na França e o que trazer na mala

As brasileiras tropeçaram nos próprios erros e em um treinador sem atitude, mas saem de cabeça erguida por diversos motivos

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atualizado 25/06/2019 12:20

A Copa do Mundo Feminina vai até o dia 7 de julho, mas, nesse domingo (23/06/2019), ela terminou para a Seleção Brasileira. Durante os 90 minutos, contra as donas da casa, o placar ficou empatado em 1 x 1. A confirmação da eliminação veio apenas no segundo tempo da prorrogação com gol de Amandine Henry, a capitã da equipe.

 

O fechamento da competição, com campanha de 50% de aproveitamento — duas vitórias, contra a Jamaica e a Itália, e duas derrotas, diante da Austrália e da França —, diz muito sobre o que a Seleção errou e acertou, o que precisa mudar/evoluir e o que pode manter. Refletir sobre o que se passou nesta Copa traz à tona 10 questões (5 negativas e 5 positivas) a serem ressaltadas. Confira:

Erro atrás de erro
O treinador Vadão, permanentemente questionado sobre seus atos no comando da Seleção, poderia ter feito um trabalho melhor se houvesse mais esforço de sua parte. Feições sempre apáticas e escolhas equivocadas empurraram o Brasil ladeira abaixo.

É incontestável que cada jogadora convocada por ele tenha qualidade, história e compôs o elenco por merecimento. Mas algo discutível é o momento o qual determinadas peças foram utilizadas e outras não. O maior pecado foi a escalação insistente da atacante Ludmila que, repito, tem uma história incrível, é habilidosa e é importante tê-la no elenco, mas porquê não ter usado Andressinha mais vezes?

 

A meia entrou em campo pela primeira vez no Mundial diante da Itália, na 3ª rodada. A outra oportunidade apareceu na última partida. Ela teve a grande responsabilidade de substituir Formiga aos 20 minutos do segundo tempo.

Pensando que o Brasil precisava ter mais qualidade na finalização contra as francesas, a melhor opção seria Andressinha no lugar da Marta, escalada no meio nessa partida, e a camisa 10 no lugar da Ludmila no ataque. Dessa forma, quando a Seleção tivesse a bola, atacaria as adversárias com toda a força.

Ludmila teve melhor desempenho nas oitavas de final do que demonstrou nas outras três partidas que Vadão a acionou. Porém, o “poder” que falta nela, e é o que o Brasil demonstrou mais carência, é o da finalização. E no confronto mata-mata da Copa, o treinador não podia se dar ao luxo de ter em campo uma jogadora fraca nesse fundamento.

Falta de preparo
A fragilidade física, mental e emocional da Seleção Brasileira deu as caras no duelo contra a Austrália, o primeiro tira-teima da força da equipe, já que a Jamaica era a mais fraca do grupo e ganhar delas foi mamão com açúcar. As guerreiras abriram o placar por 2 x 0 e o sentimento de superioridade e de jogo ganho subiu à cabeça rapidamente.

O gol sofrido nos últimos minutos do primeiro tempo quebrou a confiança das brasileiras, que já começaram a parte final sem forças para garantir a vitória. Ficou evidente a falta de preparo da Seleção, e de atitude do banco de reservas, da equipe técnica, treinador e seus auxiliares em motivar as jogadoras. Uma equipe concentrada, que sabe controlar as emoções durante a partida e tem gás para correr atrás do resultado faz o que as australianas fizeram. Saíram atrás do placar, sabiam que precisavam vencer, afinal haviam perdido contra a Itália, e conseguiram fazer o necessário para conquistar os 3 pontos. E o Brasil deixou.

Irregularidade debaixo das traves
A goleira Bárbara, lembrada pela grande atuação nos Jogos Olímpicos do Rio em 2016, quando defendeu pênaltis contra a Austrália, oscilou na Copa. O começo glorioso diante das jamaicanas não se repetiu quando se precisou da arqueira nos duelos mais duros, o que acaba resultando em falta de confiança por parte das zagueiras. Frente a frente novamente com as australianas, agora na Copa do Mundo, a brasileira errou de todas as formas possíveis.

Com movimento lentos e posicionamentos equivocados, ela ajudou a Austrália a tomar a frente do placar. Subiu de patamar diante das italianas em jogo que era de extrema importância para as brasileiras, quando pegou todas as finalizações que foram no gol (4/4). Depois, o Brasil se classificou para as oitavas e Bárbara voltou a decepcionar.

Saiu errado nas jogadas dos primeiros gols (o anulado pelo VAR e o legal) e errou ao desistir do lance que definiu a partida, alegando impedimento, ao invés de, no mínimo, tentar defender a bola. Enquanto ela entrava, Bárbara estava de pé e com os braços abertos, olhando para a bandeirinha, pedindo a irregularidade.

CHUTA PRO GOL!
Quantas vezes, você, que assistiu aos jogos do Brasil, falou essa frase? Foi agoniante ver as meninas da Seleção carregando a bola, passando de um lado para o outro, quando tinha espaço para arriscar o chute, e elas simplesmente não chutavam! Debinha reinou nesse quesito.

 

Depois da primeira partida, contra a Jamaica, na qual a camisa 9 não se destacou e ainda perdeu chances, ela melhorou consideravelmente. Passou a participar de forma mais efetiva das jogadas, tomando as decisões certas, mas ainda com medo de chutar para o gol.

O pior capítulo dessa agonia veio justamente contra a França. Na prorrogação, a atacante perdeu a chance de ouro da seleção verde e amarela. Demorou demais pra concluir o lance e tanta espera resultou na chegada da adversária a tempo para tirar a bola da direção do gol.

Tudo na mais perfeita desordem
Diante de equipes mais fortes, bem treinadas e organizadas, o Brasil não conseguiu impor o jogo. Principalmente contra a Austrália e a França, partidas que a Seleção saiu derrotada, as adversárias ditaram o ritmo e fizeram de tudo e mais um pouco. As brasileiras estavam perdidas dentro de campo.

Não há organização tática no time de Vadão. Além das jogadoras não terem esboçado qualquer jogada ensaiada, elas não estavam preparadas defensivamente para os movimentos adversários. As zagueiras se atrapalharam no gol da virada australiana, no qual Mônica colocou a cabeça na bola e acabou fazendo gol contra. E o segundo êxito das francesas veio de jogada de bola parada, além de, uma vez ou outra durante a partida, as jogadoras da casa terem superado a marcação facilmente.

Contudo, também temos motivos para sorrir.

 

Brasil não pipocou
Todo o pessimismo que rondava a Seleção Brasileira antes do início da Copa do Mundo não foi justificado pela falta de vontade das jogadoras. Pelo contrário. Em nenhuma das partidas a Seleção foi massacrada ou deixou de dar trabalho para as adversárias.

Chamou atenção a dificuldade das francesas no jogo das oitavas de final. O Brasil jogou de igual pra igual diante da anfitriã da competição, no estádio lotado por franceses, levou o jogo para a prorrogação, não deixou elas respirarem, amassou, pressionou, lutou, botou bola trave…e ficou por aí. Na trave. A eliminação veio com dignidade. Saímos da Copa de cabeça erguida.

Temos grandes jogadoras
Quando olhamos uma por uma as jogadoras do elenco brasileiro e o que cada uma fez em campo individualmente, podemos ser otimistas e ter orgulho do futebol feminino brasileiro. Mônica, Kathellen, Letícia Santos, Tamires, Thaisa, Debinha e cia, todas têm muito talento.

Na marcação, no bote, na força do jogo um contra um, na raça, na habilidade, na hora de driblar, os cruzamentos, a inteligência. Na hora de criticar o coletivo, ninguém lembra como se deu o gol da Cristiane contra a Austrália. Vamos lembrar: Tamires deu uma caneta desconcertante na marcadora, lançou Debinha em profundidade, que acertou um cruzamento sem defeitos na cabeça da Cris, que subiu e guardou a bola no cantinho esquerdo da goleira.

Claro, que o somente o jogo individual de todas essas jogadoras não funciona, assim como não funcionou. Mas, graças a cada uma delas, o Brasil não passou vergonha na Copa. Visando o futuro e a troca de treinador, o torcedor brasileiro pode ter esperança na conquista de títulos.

“1 minuto de silêncio…”
Para os críticos de plantão, que estão bem quietinhos depois do desempenho de Cristiane nesta Copa do Mundo. A atacante não vestia a camisa da Seleção desde fevereiro de 2018 — não esteve na conquista da Copa América Feminina, nem na She Believes Cup e muito menos nos amistosos de preparação — e estava desde de abril sem entrar em campo, recuperando de lesão, mas mesmo assim marcou presença na lista das convocadas e fez bonito.

 

Logo na estreia, calou a boca de todos que duvidavam de seu potencial. Anotou três gols e destacou-se na vitória brasileira sobre as jamaicanas. Fechou a competição com 4 gols, sendo a artilheira do Brasil na Copa. Contra a França, ela saiu machucada e a preocupação com o tempo de recuperação a assombra. De qualquer forma, a maior artilheira olímpica provou que jogar futebol é igual andar de bicicleta: você nunca esquece.

Marta reafirmando a realeza
Não que precise falar algo sobre ela, mas é bom demais ter alguém como Marta no nosso futebol. Artilheira incontestável de Copas do Mundo masculina e feminina com 17 gols, a rainha não brilhou tanto na competição, mas fez o suficiente para alcançar mais esse título na carreira.

Ao lado dela, a lendária Formiga. A meia mostrou que não estava participando da sua 7ª Copa do Mundo para bater recorde como quem mais disputou a competição — também entre homens e mulheres —, mas ainda mostrou que tem garra e energia de sobra para uma jogadora de 41 anos.

Pro mundo inteiro ver
O Brasil e o mundo, pela primeira vez, tiveram a oportunidade de acompanhar uma Copa do Mundo Feminina da mesma forma que fazem com a masculina. Para diversos países como, principalmente, os Estados Unidos, é normal as pessoas torcerem pelos times femininos, assistirem aos jogos e até gostar mais do futebol das mulheres do que dos homens.

No país pentacampeão mundial com a Seleção Masculina, a história é outra. O futebol feminino é o oposto do masculino em sentidos de investimento, recurso, incentivo e oportunidade. Para esta Copa, a marca esportiva Nike e outras produziram vídeos promocionais emocionantes e inspiradores em apoio ao futebol das mulheres. A resposta/reação do público e a repercussão que eles tiveram, prova que estamos dispostos a abraçar a modalidade e colocar as meninas onde elas merecem estar: no topo.

 

Veja o discurso de Marta após a eliminação e um dos vídeos promocionais mencionados:

Classificação

PosTimePÚltimos
jogos
1Flamengo58
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2Palmeiras50
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3Santos48
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4Corinthians43
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5São Paulo43
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6Grêmio41
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7Internacional39
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8Bahia38
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9Goiás36
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10Athletico-PR35
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11Atlético-MG31
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12Vasco31
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13Botafogo30
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14Fluminense29
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15Fortaleza28
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16Ceará26
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17CSA25
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18Cruzeiro22
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19Avaí17
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20Chapecoense16
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