Só agora a Globo faz piada com política? A história mostra o contrário

De Balança Mais Não Cai (1968) ao novíssimo Isso a Globo Não Mostra (2019), muita coisa mudou no jeito de fazer rir da emissora carioca

O programas humorísticos da TV Globo vêm chamando atenção dos telespectadores. Acostumados, por anos, com o estilo pastelão de produções como Os Trapalhões (1977) e Sai de Baixo (1996), muitas pessoas tem reagido com estranheza ao tom ácido característico de títulos como quadro do Fantástico, Isso a Globo Não Mostra (2019), e até da nova versão do Zorra.

Apesar de a verve de crítica social ter se intensificado desde que Marcius Melhem assumiu a liderança de todo o núcleo de humor global, a história da telinha mostra que, ao contrário do que muita gente pensa, essa reinvenção na maneira de fazer rir da Globo não vem de agora, e nem é ônus exclusivo do governo Bolsonaro.

Desde Balança Mais Não Cai (1968) — quando a emissora carioca tinha apenas três anos de idade—, as produções vêm passando por mudanças sutis, mas constantes. O humor deixou para trás os bordões, os longos esquetes e as piadas manjadas, para assumir um tom mais ácido e dinâmico, com crítica social e um pouco de absurdo.

 

Em 2018, durante as eleições, o Zorra Total reforçou o caráter político das piadas

Lá nos idos de 1992, Reinaldo Figueiredo, do Casseta & Planeta, aprontou poucas e boas com Devagar Franco, caricatura do então presidente Itamar Franco.  Em 1995, foi a vez de Hubert Aranha personificar o presidente Fernando Henrique Cardoso, apelidado, entre outros nomes, de Viajando Henrique Cardoso, que frequentemente repetia o bordão: “Assim não pode! Assim não dá!”. O personagem deu lugar à paródia do recém-eleito Luiz Inácio Lula da Silva, Interpretado por Bussunda, o petista ganhou codinomes como Lula-lá e Luiz Inércio da Silva.

A mudança contemporânea no modus operandi dos roteiristas ocorreu com a estreia de Tá No Ar, em 2014. A principal diferença é que os comediantes deixaram fazer graça apenas com os outros, para rir de si mesma. Com essa liberdade, todos viravam alvos: desde os apresentadores demitidos da casa até o presidente da República.

Para entender o caminho da revolução dos humorísticos da TV Globo, o Metrópoles vai relembrar os principais programas da emissora desde Balança, Mas Não Cai (1968), passando por Viva o Gordo (1981) e Os Caras de Pau (2006), até a versão repaginada de Zorra Total (2019).

Confira:

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Balança, Mas Não Cai (1968) —Originalmente um programa de rádio desde 1950, Balança, Mas Não Cai trazia esquetes já consagradas como Primo Pobre/Primo Rico (com Paulo Gracindo e Brandão Filho). O programa se passava num edifício fictício, onde os moradores eram as estrelas dos quadros. Ficou na Globo de 1968 até 1971 e, em 1982, teve uma nova versão
Faça Humor Não Faça Guerra (1970) — Foi um quadro de esquetes curtas escritas por Max Nunes, Jô Soares e Renato Corte Real
A Grande Família (1972) — Baseada na americana All in the Family, a série contava com bom humor o cotidiano de uma família numerosa. A versão original durou três anos, mas o remake ficou no ar por 14 temporadas
Chico City (1973) —Chico Anysio criou centenas de personagens para o rádio e a televisão desde os anos 1950. Em 1973, ele desfilou uma gama enorme desses personagens na tela da Globo. Os mais lembrados até hoje são o prefeito corrupto Valfrido Canavieira, Seu Pantaleão e seus “causos”, o locutor Roberval Taylor e professor Raimundo, aquele da Escolinha. Outros programas nesse mesmo estilo estrelados pelos personagens de Chico Anysio vieram depois, com Chico Total e Chico Anysio Show
Satiricon (1973) —No estilo de Faça Humor Não Faça Guerra, o programa também era feito de pequenas esquetes, sempre a respeito do comportamento humano. No elenco, Jô Soares, Renato Corte Real, Agildo Ribeiro e um grande time de humoristas
Ele fez parte da trupe Os Trapalhões
Planeta dos Homens (1976) —Jô Soares e Agildo Ribeiro eram as estrelas deste programa, cujo nome foi inspirado na série cinematográfica Planeta dos Macacos, inclusive com personagens símios. As charges políticas davam o tom do programa
Super Bronco (1979) — Foi uma adaptação da série americana Mork & Mindy (com Robin Williams), onde um extraterrestre recebe a missão de estudar a Terra, um planeta superatrasado em comparação ao seu. Estrelada por Ronald Golias, durou apenas 29 episódios, apesar da boa audiência
Viva o Gordo (1981) — Centenas de personagens foram criados para este humorístico que tinha Jô Soares à frente. O programa foi responsável por uma infinidade de bordões que ficaram na cabeça do público por décadas. Era basicamente um programa de conteúdo inspirado na política, já que Brasília, desde aqueles tempos, era motivo de piada
Ela teve vários papeis marcantes, como a TV Pirata
O programa foi criado pelo humorista Chico Anysio, no rádio
Casseta & Planeta Urgente (1992) — A turma de redatores das revistas Casseta Popular e Planeta Diário já estavam em evidência no início dos anos 1990. Então, a Globo deu a eles seu próprio programa na linha de “jornalismo mentira, humorismo verdade”. Foi um dos shows humorísticos mais duradouros da emissora, ficando no ar até 2010
Sai de Baixo (1996) — Inspirado na Família Trapo, dos anos 1960, este programa semanal também era um teatro na televisão, gravado ante uma plateia. A presença do público permitia que os atores saíssem do personagem de vez em quando e interagissem com a plateia, causando situações hilariantes. Ficou no ar até 2002, e teve um revival recentemente, com quatro episódios especiais
Zorra Total (1999) — Há 20 anos no ar, o Zorra Total é o caso mais explícito de mudança de estilo dos humorísticos da TV Globo. Nos primeiros anos, o semanal foi responsável por popularizar bordões
Os Caras de Pau (2006) Protagonizado por Leandro Hassum e Marcius Melhem, o programa girava em torno das confusões de dois amigos desempregados e trambiqueiros. Bem no estilo da dupla de O Gordo e o Magro (1920)
Tá no Ar (2014) —Quando surgiu, foi um estouro. Tanto para os que amaram quanto para os que odiaram o seu humor diferenciado. Essa recepção fez com que o programa Tá no Ar: a TV na TV se firmasse na grade da Globo com sua crítica bem-humorada de assuntos e personagens que ocupam noticiários e programas diversos. Durou seis temporadas
Isso a Globo Não Mostra 2019 — Na vibe Tá no Ar, o quadro do Fantástico faz zoação com tudo, inclusive com as críticas que a emissora recebe dos telespectadores
A Globo decidiu acabar com a atração e comunicou os atores nesta quarta-feira (15/10)