Em Nome de Deus mostra a estrutura de poder criada por João de Deus

O documentário no estilo true crime também exibe os crimes de assédio e estupro cometidos pelo médium

Em Nome de Deus vem para marcar uma tendência da Globoplay: aproveitar a grande equipe de jornalismo da Globo na construção de documentários do gênero true crime, que se tornou a nova vedete dos serviços de streaming. A obra, assinada por Pedro Bial e Camila Appel, analisa em seis episódios os casos de abuso sexual cometidos pelo médium João de Deus.

Boa parte da história já é conhecida do público: após a exibição da entrevista com a holandesa Zahira Lieneke Mous, no Conversa com Bial, em 2018, diversas mulheres denunciaram os casos de abuso e estupros cometidos por João de Deus. De novidade, o documentário traça o perfil das vítimas, mostrando o modus operandi do médium e apresentando o contexto político e de poder na Casa Dom Inácio de Loyola.

Logo no segundo episódio, Em Nome de Deus responde à pergunta sobre “por que as mulheres demoraram tanto a denunciar” – questionamento que, a bem da verdade, nem deveria ser feito, pois imputa altas de doses de descrédito às vítimas.

João de Deus não era apenas um médium com poderes curativos (ou um enganador para outros). Trata-se de um homem com forte relações com o poder público e com o soft power, circulando entre prefeitos, governadores, ex-presidentes, juízes e muitas celebridades.

Por isso, é tocante o depoimento de Xuxa, que, de cara, rompe com João de Deus e tenta convencer outros famosos a fazerem o mesmo – a apresentadora, ela mesma vítima de abuso, foi uma das faces públicas a se posicionar contra o médium, que ela tinha como amigo.

Além disso, Em Nome de Deus também mostra os bastidores do poder político e policial de João de Deus, que chegou a ter uma espécie de milícia atuando em seu favor. Armas e dinheiro foram encontrados na sua casa.

Em Nome de Deus é um documentário de qualidade – assim como aquele que trata da morte da vereadora Marielle Franco – e que coloca a Globoplay com força em um dos mais disputados filões do streaming: o true crime. E, convenhamos, o que não falta são história absurdas e escandalosas no Brasil.