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“Porra, meu, tava lá com a gata!” não podia. “Você que me prende com esse cheiro de fêmea no cio”, nem pensar. “Tenho paixão por homem com muita quilometragem”, muito menos. Falas assim a tesoura cortava na hora. Situações interpretadas pelos censores como “implicações de suicídio”, “sentimentos de ódio e intenções criminosas e negativas” ou relacionadas a “bruxaria” (uma cena de prática de quiromancia) também era vetadas.

Entre 1964 e 1985, enquanto durou a ditadura militar no Brasil, nenhum programa de televisão ia ao ar sem passar antes pelo crivo da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). E os zelosos funcionários do departamento farejavam ameaças à moral e à ordem onde a maioria podia sequer imaginar.

O jornalista Cláudio Ferreira resolveu se debrucar sobre os arquivos da DCDP (hoje guardados no Arquivo Nacional) e recuperar essa parte da história brasileira no livro “Beijo Amordaçado — A Cesura às Telenovelas Durante a Duradura Militar” (Ler, 270 págs.), que ele autografa neste sábado (15/10), entre 17h e 20h, no Espaço Cultural Alexandre Innecco (116 Norte, Bloco A, ao lado do Café Savana) — durante o lançamento o livro será vendido a R$ 40 (dinheiro/cheque) e R$ 50 (cartão).

Em entrevista ao Metrópoles, Cláudio fala como nasceu o livro e dá mais detalhes de uma fase que, na verdade, perdurou por mais três anos depois da saída dos militares. A DCDP só acabou em 1988, quando Ulysses Guimarães assinou a atual Constituição Brasileira. “Vale Tudo” foi o último texto que os censores tiveram o privilégio de ler em primeira mão.

Como surgiu a sua curiosidade pelo assunto — a censura nas novelas?
O jornalista Carlos Marcelo foi ao Arquivo Nacional fazer uma pesquisa sobre a censura nas músicas do gênero forro e me deu a dica de que havia um material lá sobre televisão. Quando consultei o índice e vi o tamanho do acervo, fiquei impressionado. Resolvi ficar nas telenovelas porque só desse tipo de programa há 157 caixas com os pareceres dos censores e a correspondência entre as emissoras e a Censura.

E quanto tempo você levou para vasculhar todo esse acervo?
Passei seis meses examinando esse material, indo de duas a três vezes por semana ao Arquivo Nacional. O que me ajudou muito foi o corpo de funcionários, que era extremamente organizado: eu já pedia a próxima caixa com antecedência e quando chegava lá, ela estava à minha disposição . Facilitou também o fato de o material estar organizado por novela e por ordem cronológica. Vi todos os documentos das 157 caixas e fiz anotações.

Os cortes representavam o pensamento dos militares e de uma parte conservadora da sociedade. E os censores se viam como funcionários do Estado, preocupados em preservar os ‘valores da família brasileira’ e ‘deter’ os avanços de pensamento que chegavam ao Brasil na virada dos anos 1960 para os 1970"

Além do Arquivo Nacional, quais foram suas fontes?
Preferi me concentrar no material do Arquivo, que é muito rico. Optei por não procurar os antigos censores para entrevistar, por exemplo. Queria explorar os pareceres dos censores, mostrar como era a linguagem utilizada. O livro tem muitas transcrições dos pareceres justamente para mostrar a redação original dos censores

“A moral e os bons costumes” parecia ser o principal alvo dos censores. Você viu algum registro relacionado a assuntos políticos nas tramas?
Minha estimativa é de que os assuntos políticos correspondam a cerca de 30% do acervo e a “moral e os bons costumes” aos outros 70%. Talvez porque os autores tivessem consciência da dureza do regime militar e achassem que temas políticos dificilmente fossem liberados. Quando tentaram, como em “O Bem Amado” e “Saramandaia”, foram advertidos para não fazerem nenhuma conexão entre ficção e realidade. A Censura também prestava atenção a como eram feitas referências à polícia, às Forças Armadas e aos políticos.

Um censor se deu ao trabalho de cronometrar um beijo (na novela ‘Os Deuses Estão Mortos’, da TV Record, 1971), registra que ele durava 22 segundos e exigir que ele fosse reduzido para 5 segundos"

As justificativas de alguns pareceres soam engraçados hoje em dia. Havia exagero dos censores ou os cortes eram condizentes com a moral e o comportamento da época?
Os cortes representavam o pensamento dos militares e de uma parte conservadora da sociedade. E os censores se viam como funcionários do Estado, preocupados em preservar os “valores da família brasileira” e “deter” os avanços de pensamento que chegavam ao Brasil na virada dos anos 1960 para os 1970.

Qual o caso mais curioso de censura que você encontrou em suas pesquisas?
O nome do livro me veio à cabeça ao ver a quantidade de beijos que foram censurados nas novelas. Um censor se deu ao trabalho de cronometrar um beijo (na novela “Os Deuses Estão Mortos”, da TV Record, 1971), registra que ele durava 22 segundos e exigir que ele fosse reduzido para 5 segundos. Outra curiosidade é que personagens feitos por atores muito populares, como Regina Duarte, eram especialmente visados pela Censura, que sabia da identificação do público com esses atores e temia a “má influência” que os personagens e suas atitudes poderiam provocar.

A despeito da queda de audiência da TV aberta e das mudanças de comportamento do telespectador, as novelas continuam sendo muito comentadas nas redes sociais, as revistas de fofocas proliferam"

Ficou algum material pesquisado que você teve de deixar de fora na edição final do livro?
Ficou o material referente a outros gêneros de programas, como as séries, programas humorísticos. Quem sabe não me animo a continuar a pesquisa ?

Há algum outro aspecto das telenovelas que você gostaria de explorar em um próximo livro?
A despeito da queda de audiência da TV aberta e das mudanças de comportamento do telespectador, as novelas continuam sendo muito comentadas nas redes sociais, as revistas de fofocas proliferam. Gostaria de investigar esses novos padrões de assistir e repercutir a novela e pesquisar também o público que ainda vê novela da maneira tradicional, como os idosos. Mas se eu encontrar outro acervo histórico sobre televisão e telenovelas, é pra ele que vou correr.
 

 

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