Fernanda Rocha largou o Rio de Janeiro para se encontrar em Brasília

Revelada por Domingos de Oliveira, a atriz de “O Último Cine Drive-in” virou mãe na capital federal e agora se lança como diretora de teatro

atualizado

metropoles.com

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Premiada por seu trabalho no filme “O Último Cine Drive-in” nos festivais do Rio de Janeiro e de Gramado, a atriz Fernanda Rocha atravessa momento ímpar em sua carreira. Agora assume a direção teatral, pela primeira vez na vida, à frente da montagem de “Os Estonianos”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil até domingo (4 /10).

Visto de longe, tudo parece ter acontecido ao mesmo tempo para Fernanda. Sua agenda, que ela carrega na bolsa e onde toma notas a lápis, está bem cheia. Mas nem sempre foi assim. Quando anunciou aos amigos e colegas de sua cidade natal, o Rio de Janeiro, que estava se mudando para Brasília, as reações foram de descrédito.

“Tive que explicar que eu não estava abandonando minha carreira de atriz. Na verdade, eu estava correndo atrás dela”, lembra Fernanda Rocha, 38 anos, comentando sobre o ousado movimento feito há quase uma década. Na contramão da ordem natural das coisas. No contrapé de um mundo artístico que gira em torno de Rio e São Paulo, ela recuou uma casinha para, ali adiante, andar duas.

Daniel Ferreira/Metrópoles
Fernanda no palco do CCBB, onde estreia como diretora, com a peça “Os Estonianos”

Domingos e Xuxa
Fernanda Rocha teve uma formação clássica de atriz carioca da sua geração. Ainda adolescente, frequentou os cursinhos do Teatro Tablado e, na sequência, entrou em artes cênicas na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Mas precisou trancar a matrícula por um par de anos quando cruzou caminho com um certo Domingos de Oliveira.

Àquela altura, aos 22 anos, Fernanda nem sabia muito bem quem era Domingos de Oliveira. Cineasta do clássico “Todas as Mulheres do Mundo” (1966) e figura de proa do teatro carioca no último meio século, Domingos para Fernanda era apenas o pai de Maria Mariana, autora do fenômeno teen “Confissões de Adolescente”, livro que virou best-seller, que virou peça de teatro, que virou série de tevê, que rendeu outras tantas temporadas em cartaz varando a década de 1990.

Igual a mim, com a minha cara e o meu corpo, tem outras 25 mil atrizes. Essa cara de classe média, sabe?

Fernanda Rocha

Aprovada para o elenco de “Confissões de Adolescente”, Fernanda descobriu que o pai de Maria Mariana era também diretor daquela peça — e de outras tantas. E ganhou em Domingos de Oliveira um mentor para o resto da carreira, uma referência emocional e artística.

Após rodar por dois anos com o espetáculo juvenil, foi graduada por Domingos para o mundo do teatro adulto. Maribel, sua personagem em “Separações”, fazia par romântico com Cabral, o próprio Domingos. E depois de seis meses em cartaz no Teatro Planetário, o papel rendeu a Fernanda sua estreia no cinema. “Separações”, o filme de 2000, foi bem recebido na época e hoje é celebrado como o ápice da carreira madura de Domingos de Oliveira no cinema. Fernanda Rocha, a mais novinha daquele elenco, se sentia pronta, na pilha para engatar a carreira. Mas…

Não foi bem o que aconteceu. “Igual a mim, com a minha cara e o meu corpo, tem outras 25 mil atrizes. Essa cara de classe média, sabe?”, brinca a Nanda do Grajaú. Com a cena carioca de teatro girando em torno da televisão, ela pensava em ser famosa e acabou (de fato) entrando na Rede Globo. Para ser preparadora do elenco infantil do programa da Xuxa.

Fernanda Rocha por Domingos Oliveira from Fernanda Rocha on Vimeo.

Carreira e maternidade
Namorando à distância o cineasta brasiliense Iberê Carvalho, Fernanda Rocha bem que tentou se desdobrar entre duas cidades. Mas acabou tomando coragem e se decidiu por Brasília. Mais do que um novo fôlego na carreira, nesse movimento ela ganharia uma família.

Sua primeira peça em Brasília foi “O Homem de Buenos Aires”, de Alexandre Ribondi, em 2010. Ali conheceu Daniela Vasconcelos, também atriz. Entre afinidades imediatas, as duas descobriram uma amizade em comum: Julia Spadaccini, dramaturga carioca que passou a infância em Brasília e que foi colega de Fernanda na Unirio. Anos mais tarde, essa rede de contatos possibilitaria a montagem de “Os Estonianos”, texto de Julia, ora em cartaz no CCBB, com Daniela em cena e Fernanda na direção.

A vida inteira, o ator busca estar presente inteiramente, fisicamente, emocionalmente presente em cena. E eu nunca estive tão presente quanto na hora do parto

Fernanda Rocha

Reencontrar a antiga colega de faculdade através da dramaturgia fecha um ciclo para Fernanda. Mas o retorno para casa, o proverbial retorno ao lar, aconteceu no Festival do Rio de 2014. Com o filme “O Último Cine Drive-in”, Fernanda recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante em sua cidade natal.

Recebeu esse prêmio sendo dirigida pelo marido e carregando o filho na barriga. Não constava no roteiro de Iberê e de Zé Pedro Gollo que Paula, a projecionista do Drive-in vivida por Fernanda, estivesse grávida. Essa foi, digamos, uma improvisação da atriz, que soube calcular na folhinha o momento exato para aparecer em cena com uma barriguinha de cinco meses.

“Já estávamos querendo ter um bebê e, sem dúvida, a personagem ganhou outra dimensão”, diz Fernanda, referindo-se ao jeito menininho de Paula, tomboy de cabelo curto, nenhuma maquiagem ou vaidade, uma garota num ofício pesado num cinema decadente.

Débora Amorim/Divulgação
Foto do ensaio feito por Débora Amorim e que integrou a mostra “Gesto Natural”

A gravidez funcionou na ficção e revolucionou a vida real de Fernanda. “Eu me tornei uma atriz, uma artista muito melhor depois que pari”, acredita. “A vida inteira, o ator busca estar presente em cena, estar inteiramente, fisicamente, emocionalmente presente em cena. E eu nunca estive tão presente quanto na hora do parto. Optei por ter um parto natural porque não suporto sequer anestesia de dentista. Eu tinha que estar lá quando o Otto nascesse, e eu estava lá, estava inteira lá.”

Numa atitude ao mesmo tempo poética e política, o nascimento de Otto foi registrado pela fotógrafa Débora Amorim. Uma foto de Fernanda e Iberê (e Otto) durante o trabalho de parto compôs a exposição “Gesto Natural”, que há pouco ocupou a galeria Olho de Águia. E seu dia a dia de mãe,  num viés afetivo e confessional, pode ser seguido no canal do YouTube “Fralda Justa”.

Pois a maternidade agora é parte da vida de Fernanda e também da carreira de Fernanda, que ela já não consegue mais distinguir uma da outra.

Até domingo (4/10). De quarta a sábado, às 19h, e domingo, às 18h, no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Esportivos Sul, Trecho 2, Lote 22; 3108-7600). Ingressos a R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). À venda na bilheteria do teatro (de quarta a segunda, das 13h às 21h). Classificação indicativa 10 anos.

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