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Embalado pelo sucesso de Strokes, Arctic Monkeys e outros sucessos do indie rock, o Phoenix despontou mundialmente com seu som dançante e cantado em inglês. A questão do idioma, neste contexto, é decisiva: a expansão global do pop da “terra do croissant” não deveria ser cantada em francês. Isso no passado – afinal, uma nova geração de cantores adeptos à sonoridade da língua natal hoje forma um interessante movimento a se acompanhar.

Obviamente, a música francesa não estava morta: Carla Bruni, Yelle e alguns grupos de hip-hop tiveram boa repercussão fora do país. Os novos artistas, no entanto, representam o movimento pop, mais sintonizado com as diretrizes do mainstream mundial (amplamente dominado por norte-americanos e ingleses).

Pascal Le Segretain/Getty Images

Clara Luciani: expoente da música francesa com pretensões globais

 

É do reconhecimento desse estado das coisas que parece ter surgido Clara Luciani. A cantora não esconde seu desejo de acrescentar um accent français aos sons contemporâneos que escutava diariamente. Ela gravou uma versão em francês de um sucesso das pistas de dança: The Bay, do Metronomy, virou La Baie. Mesma letra, mas com biquinho na pronúncia. Voilà: a artista ganhou a alcunha de heroína da cena.

“Nos anos 2000, o Phoenix encarnou a vontade dos grupos que desejavam ser globais. Atualmente, percebemos um retorno da autenticidade – mais ou menos parecido com o movimento da gastronomia local e orgânica. Trata-se de ser inovador, de casar o francês aos estilos tipicamente anglo-saxões”, conta Benjamin Caschera, responsável do selo La Souterraine, em entrevista à L’Express.

French pop
Esse movimento de antropofagia abriu espaço para grupos e cantores que podem ocupar um hiato (criativo e comercial) da indústria do pop. Ganham visibilidade, então, nomes como o Therapie TAXI, com o gostoso disco Hit Sale. Tão global como Clara Luciani, o grupo canta a realidade (quase mundial) de uma juventude disposta a viver relacionamentos intensos, achar um sentido na própria existência e encarar um mundo em ebulição.

A neozelandesa Lorde é um fenômeno mundial. Muito daquela jovem rebelde, apaixonada e carregada da tal culpa burguesa aparece em Fishbach, nome artístico adotado por Flora Fischbach. Entre o synth-pop e o indie rock, a cantora, de 26 anos, entrega uma releitura dos anos 1980 – Indochine? Talking Heads? – com uma voz grave hipnotizante. Un Autre Que Moi, certamente, é das mais viciantes faixas do disco À Ta Merci.

O que me agrada muito nos anos 1980 é a audácia. A gente experimentava as coisas, não havia nada de complexo em cantar músicas mais incisivas ou coisas mais bobinhas"
Fishbach, à revista Têtu

Outros nomes embarcam no experimentalismo eletrônico, como L’Imperatrice – grupo formado por Charles de Boisseguin, Hagni Gwon, Flore Benguigui, David Gaugué, Tom Daveau e Achille Trocellier –, o duo Pépite (Thomas Darmon e Edouard Perrin) e o projeto de Charline Mignot: Vendredi Sur Mer.

 

Pascal Le Segretain/Getty Images

Eddy de Pretto: o mais complexo representante da nova geração francesa

 

Uma crônica francesa
Após o EP Kid, Eddy de Pretto virou uma espécie de intérprete dos sentimentos de uma França profundamente marcada por uma delicada luta entre xenofobia e segurança, intolerância e respeito a princípios republicanos (liberté, egalité e fraternité), religião e sexualidade. Pares de oposição presentes na obra desse rapper de 25 anos.

Em Normal, single do disco Cure, Eddy de Pretto, em meio a uma cena carregada de homofobia, grita o óbvio: qualquer integrante da sigla LGBT é “completamente normal, completamente banal”. E lança a provocação aos preconceituosos: “E você é normal?”

Eddy é, em suas discussões, o mais complexo representante dessa nova geração. Na faixa Kid, clipe com mais de 4,6 milhões de visualizações, o cantor discute algo silencioso entre os homens: a opressão de uma masculinidade impossível, agressiva, que corrobora em muito com o machismo dominante da sociedade.

Na música, um pai diz que o filho será viril, um herdeiro de Apolo, sem qualquer traço feminino. Até surgir a voz do rapper e chamar esse comportamento de “virilidade abusiva”.