Crítica: em “Coolaid”, Snoop Dogg reencontra o rap da costa oeste
Três anos após sua epifania no reggae, o rapper californiano retoma suas músicas sobre curtição no novo álbum
atualizado
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Se alguém tem dúvidas de que Snoop Dogg gosta de curtir a vida, basta dar uma olhada em sua recente conta criada no Snapchat (@snoopdogg213). Aos 44 anos, ele ainda não se vê como um coroa do rap. Recém-saído da epifania rastafári registrada em “Reincarnated” (2013) – disco e documentário –, o californiano voltou a ser ele mesmo em “Bush”. Em “Coolaid”, esse retorno é ainda mais urgente: um resgate ambicioso e, claro, divertido do rap da costa oeste.
Aliás, o momento é propício para tal flashback. Dr. Dre, mentor de Dogg, revisitou sua cidade em “Compton” (2015), um disco nostálgico baseado na batida californiana dos anos 1990, o G-funk. Ano passado, o filme “Straight Outta Compton” narrou o início de carreira de Dre e dos companheiros de N.W.A. Dogg foi descoberto por Dre no começo daquela década.
Com interesse apenas moderado de se aproximar do rap contemporâneo de Kanye West e Kendrick Lamar, Dogg joga com os temas que conhece: farra, celebrações à maconha e jogos de palavras em refrões engraçados. É assim em “Oh Na Na”, um G-funk grudento repleto de versinhos monossilábicos, bem a cara dos anos 1990, e na baladinha dançante “Two or More”.
Um bom flashback, mas longo demais
Apesar das boas sacadas, “Coolaid” poderia ser mais enxuto: tem 20 músicas distribuídas em 1 hora e 17 minutos de duração. O extenso material revela algumas incômodas arestas, como o R&B genérico de “Kush Ups”, o ar gangsta meio caído de “Let Me See Em Up” e a canção sub-Kanye “Let the Beat Drop (Celebrate)”.
Enquanto as pretensões de soar multigeracional falham, Dogg encaixa seus melhores momentos já no desfecho do disco. Em “What If”, ele fala sobre a morte da avó, em março, que o fez cancelar os shows que daria no Brasil (incluindo o Lollapalooza). Mas, em vez do luto, ele prefere celebrar o que já conseguiu e seu espírito pacífico. Quase uma constatação de sua pesona cool: “Eu sou doidão demais, não consigo odiar”.
Na faixa final, “Revolution”, ele finalmente parece conseguir associar o rap contemporâneo às crônicas urbanas da década de 1990. Ele inverte a canção-poema de Gil Scott-Heron, “The Revolution Will Not Be Televised”, para celebrar seus ídolos aqui confessos: os históricos líderes Huey Newton, Malcolm X e Martin Luther King Jr., “esses são os meus pares”. Na narrativa de Dogg, a revolução sai do subterrâneo e precisa, sim, ser televisionada.
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“Coolaid” ainda não teve lançamento físico no Brasil
O disco está disponível no Google Play, no iTunes e no Spotify
