Brasília erudita: cena musical ganha força com cantores e compositores

Cláudia Costa pesquisa compositores nacionais e locais no projeto Lírica Brasiliensis, que acaba de ganhar novo registro em CD

Filipe Cardoso/Especial para o MetrópolesFilipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

atualizado 24/06/2018 12:43

Ainda que não tão divulgado quanto a música popular, o estilo erudito é bastante apreciado em Brasília. Mesmo há anos sem se apresentar em casa, a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro costuma ser prestigiada semanalmente por centenas de pessoas no Cine Brasília. Outra frente, pouco explorada, é a gravação de obras de artistas da cidade. Cláudia Costa (foto em destaque), cantora lírica atuante no DF, interpreta três compositores da capital em seu novo trabalho de estúdio.

Recém-lançado, o segundo volume do projeto Lírica Brasiliensis – o primeiro saiu em 2015 – dá destaque a peças de música sacra. Para tal repertório, a artista e professora da Escola de Música de Brasília (EMB) recorreu a obras de Beethoven, Debussy e do cearense Alberto Nepomuceno.

 

A pesquisa de Cláudia ampliou os horizontes e contemplou três autores locais: Eduardo Dias Carvalho e Marco AB Coutinho, professores aposentados da EMB – ambos fizeram as obras para Cláudia –, além de Pedro Jacobina.

“Nós temos um pequeno polo erudito aqui. Por exemplo, o maestro Jorge Antunes e esse ping pong entre UnB e Escola de Música. O núcleo é forte, apesar de não ser tão divulgado”, diz a paulistana de 53 anos, doutora em História pela UnB e atualmente graduanda em fonoaudiologia na Uniplan.

A ideia de desbravar obras eruditas pouco conhecidas começou dentro da EMB. Um dos projetos de Cláudia envolvia a realização de concertos didáticos. “Comecei a investigar mais a música brasileira e, depois, tomei um caminho multicultural”, aponta.

O caráter educativo do meu trabalho é permanente. No popular, a pessoa vai pelo entretenimento, pela diversão. No erudito, penso sempre em educar, para que a pessoa aprenda a apreciar e entender a arte

Cláudia Costa, cantora lírica

Cada compositor recebeu a interpretação de Cláudia de um jeito diferente. “Jacobina chorou. Marco Aurélio me xingou, me fez gravar de novo”, brinca. “Eduardo disse que poderia melhorar aqui e ali e pediu para mexer em algumas coisas na edição. Dos que já morreram, será que o Beethoven teria gostado?”, especula.

Professor da EMB por 27 anos, Carvalho aposentou-se em 2016, mas retorna à instituição como temporário enquanto lança o primeiro de uma série de três livros de composições próprias. Com 20 partituras, Diálogos Instrumentais I acaba de sair.

“Fico muito feliz de ter uma obra gravada. Participei um pouco da etapa final do processo e sugeri alguns acertos, coisas corriqueiras de produção, trabalho com isso também”, explica o autor, de 59 anos.

Aos 23, Pedro Jacobina teve a sua primeira composição gravada por Cláudia. Ele trabalha com música erudita desde 2013, mas, até então, só teve peças apresentadas no meio acadêmico. E o jovem autor emocionou-se com a interpretação da cantora lírica.

“Ela deu a dramaticidade que eu esperava”, diz ele, que pediu ajuda do pai, teólogo, para musicar poema de Machado de Assis. Professor de piano e fotógrafo, o baiano chegou a estudar composição na UnB, mas hoje faz publicidade no UniCeub. Também teve aulas de canto na EMB, quando conheceu Cláudia.

Jacobina enxerga a existência de uma pequena, mas produtiva e talentosa cena musical de Brasília. “Temos bons compositores, que fazem mais sucesso lá fora do que aqui, e muitos musicistas. Mas não há oportunidades, principalmente na área erudita. Não sei se por causa de divulgação ou do gosto do público”, avalia.

Últimas notícias