“Behr” é a grafia arcaica para a palavra “urso” em alemão. Nicolas Behr, o poeta verde do Lago Norte, no entanto, jamais se atreveu a escrever seus poemas no idioma de seus pais. Um entrave que sempre o frustrou. Quando ficou sabendo do caso de uma colega carioca, Laura Erber, que teve poemas seus vertidos para o alemão, ele correu atrás do responsável.

Após cinco anos trocando e-mails e dois encontros pessoais em Berlim com seu tradutor Timo Berger, Nicolas Behr apresenta “Brasilyrik”. Ao preço de R$ 30,00, o volume de 192 páginas traz 190 poemas em versões bilíngues. Será lançado na “Septemberfest”, na manhã de sábado (19/9), às 10h, no Viveiro Pau Brasília, Polo Verde do Lago Norte.

A tiragem inicial de mil exemplares foi bancada pelo próprio autor. Assim como no recente dicionário afetivo “BrasíliA-Z” (2014), que já recebeu sete edições, este novo volume conta com patrocínios vários. Entre eles, o do Instituto Goethe. “O poeta quer ser útil e, ao menos desta vez, meus poemas serão de fato úteis”, orgulha-se Nicolas. “Boa parte desta tiragem vai para o Goethe, para ajudar os alunos a aprenderem alemão. Quero também espalhar outros tantos no Departamento de Letras da Universidade de Brasília.”

A língua alemã, Nicolas Behr aprendeu dentro de casa, com o pai e a mãe. Mas jamais se atreveu a ir adiante. “Meu alemão é de caipira”, admite, apontando as declinações como seu maior estorvo gramatical. De toda forma, ele aprova a tradução de Timo Berger. “Minha poesia é muito pé no chão, muito fincada no real, não uso rimas, nem grandes metáforas ou imagens despirocantes. Então, Timo deve ter tido um trabalho tranquilo.”

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Livro terá lançamento simultâneo com a cerveja Nicolas Bier

Unsere Heilige Maria des Cerrados
Todos versando sobre Brasília, os poemas de “Brasilyrick” foram selecionados pelo autor e por seu tradutor a partir de quatro volumes: “Poesília” (2002), “Braxília Revisitada” (2004), “Brasilíada” (2010) e o recente “A Teus Pilotis” (2014).  Os dois primeiros, no entanto, já são eles próprios antologias de publicações anteriores. Então, alguns dos textos aqui reunidos remontam à juventude do autor, aos anos que Behr chama de sua “fase áurea”, o fim dos anos 1970 e começo dos 1980.

Caso de “Travessia do Eixão”, um clássico da lírica brasiliense. Publicado em 1978, o poema foi logo depois transformado em canção por Nonato Veras e assim gravado pelo Liga Tripa. Anos mais tarde, também pela Legião Urbana.

Ele vai assim… “nossa senhora do cerrado,/ protetora dos pedestres/ que atravessam o eixão/ às seis horas da tarde//fazei com que eu chegue/ são e salvo/ na casa da noélia”.

Sob o trabalho de Timo Berger, ficou assim… “unsere heilige maria des cerrados,/ beschützerin der fussgänger/ die über die wohnachse gehen/ um sechs uhr abends,// mach dass ich/ heil und ganz/ zu noélia komme”.

Vale notar que, no alemão, os substantivos carregam sempre iniciais maiúsculas. Como na lírica particular de Nicolas Behr até a Nossa Senhora vira nossa senhora, aqui já cabe então a primeira aulinha de ortografia para quem quiser estudar idiomas a partir de “Brasilyrik”: identificar e maiuscularizar as palavrinhas corretas.

Foto: Rafaella Felicciano