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Autor de “O Filho Eterno” (premiado como melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e pelo Jabuti), “O Professor” e “A Suavidade do Vento”, entre outros, Cristovão Tezza decidiu passear por novos ares em abril de 2008. Naquele ano, o romancista catarinense aceitou o desafio de tornar-se cronista do jornal paranaense “Gazeta do Povo”.

Desafio, pois aquele era um terreno novo para autor que, em entrevista, confessou as artimanhas do gênero. “Considero minha vida de cronista uma experiência completa. Comecei realmente como aprendiz, tateando a forma e enfrentando minha ignorância das limitações e potenciais do novo gênero. A crônica é um texto difícil, enganador e manhoso, o que logo percebi”, disse Tezza.

Em seis anos como cronista, ele produziu 355 textos de temáticas variadas. Desde futebol à política, passando pela falta de assunto (!) e pelo cotidiano de Curitiba, cidade onde cresceu e onde vive até hoje. Dessa saga, saíram as 64 crônicas de “A Máquina de Caminhar”, livro de Tezza, recém-lançado pela Editora Record.

Ilustradas pelo cartunista Benett e selecionadas pelo jornalista Christian Schwartz (o mesmo responsável por organizar “Um Operário em Férias”, primeiro livro de crônicas do escritor), os textos dividem a obra com uma publicação inédita, o ensaio “Um discurso contra o autor”, em que ele afirma encerrar de vez a carreira no gênero textual.

Sofro de uma espécie de Transtorno Obsessivo-Compulsivo Literário, que me obriga a ‘fechar’ de algum modo tudo que eu começo, de modo a criar uma simetria imaginária que equilibre minha obra e minha história pessoal."
Cristovão Tezza em “A Máquina de Caminhar”

Porém, os leitores mais atentos já sabiam que o fim da trajetória (exitosa) como cronista era um caminho sem volta. Em “O cronista se despede” – último texto publicado no “Gazeta do Povo”, em novembro de 2014 –, o escritor deixa a mensagem derradeira:

Mudando de assunto – não sei bem por que juntei um antigo projeto de crônica com este adeus ao leitor –, estou me despedindo agora da minha vida de cronista. Foi muito bom enquanto durou, mas sinto que é hora de, enfim, me concentrar apenas nos prazeres da ficção, o de leitor e o de escritor. Foram 335 semanas contadinhas de convivência na página 3, que a Gazeta temerariamente cedeu a este escriba. Está de bom tamanho – uma boa experiência, essa de escrever em voz alta. Meu mérito, se houve algum, foi jamais extrapolar a faixa entre 2,8 mil e 2,9 mil toques digitados, título incluído, uma tarefa de revisão, acréscimos e cortes que me divertia toda semana como a um sonetista parnasiano. A coluna deve muito ao traço do Benett, que tantas vezes salvou o texto com sua arte precisa. E agradeço a paciência e a generosidade dos meus 11 fiéis leitores, informando que agora prossigo em voz baixa, nos livros, como sempre.

Editora Record/Reprodução

Livro “A Máquina de Caminhar”, de Cristovão Tezza. Editora Record. Preço médio: R$ 37,90.

“A Máquina de Caminhar”, segundo (e último) livro de crônicas de Tezza, leva esse título por uma razão interessante. Schwartz tirou o nome da crônica “Esteira Sherazade,” em que o autor conta ter encontrado uma única inspiração para começar a se exercitar, por recomendação médica: a leitura de livros durante as caminhadas na esteira.

“Emerge, ali, a imagem-síntese do cronista virando as páginas de algum livro enquanto se deixa conduzir por Sherazade (literal ou metaforicamente) ‘em passadas regulares como um Dr. Livingstone das nuvens’, numa evocação em movimento do que talvez seja a principal qualidade destas crônicas: criar pontos de contato entre o mundo mental da literatura e o mundo ‘de verdade’ da política, da cultura, do futebol”, explica Schwartz na apresentação da obra.

 

 

 

 

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