Entenda como o conservadorismo mudou o pop brasileiro

Enquanto cantores apoiadores de pleitos tradicionais veem audiência crescer, artistas representantes de grupos minoritários têm queda

Arte/MetrópolesArte/Metrópoles

atualizado 16/02/2019 16:19

O show business passa por transformações que constantemente permeiam o momento político-social do Brasil. São diversos os exemplos de produções influenciadas pelo debate ideológico “conservadores versus progressistas”, principalmente no polêmico e fértil terreno das redes sociais. A polarização que acomete o país desde 2013, explicitada na disputa nas urnas de 2018, tem apontado novos ventos para indústria do entretenimento.

Um dos reality shows mais assistidos do país, o Big Brother Brasil é prova disso. Se em 2018 a vencedora do programa global foi a acreana Gleici Damasceno, mulher negra, moradora da periferia e militante política filiada ao Partido dos Trabalhadores, na 19ª edição o favoritismo aponta para uma personagem oposta. Loira de olhos azuis, a participante Paula tem causado polêmica no programa com uma enxurrada de falas nada “politicamente corretas”.

 

Aliado de Paula, Maycon chegou a dizer que os atuais espectadores do jogo estão em uma fase “família e não querem ver militância no BBB”. A frase do vendedor de queijos faz sentido, visto que uma das sisters mais contestadoras da nova temporada foi eliminada pelo público ainda na terceira semana de confinamento.

Professora titular de comunicação e cultura da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), Maria Cristina Castilho Costa afirma que o consumo ideológico das artes acontece no país desde a segunda metade do século 20. “Há o que chamamos de Guerra Fria Cultural, na qual, sem identidade, as pessoas se unem a grupos de referência, torcidas pouco preocupadas com o debate sobre a qualidade do produto em si, e mais atentas a dogmas e exibicionismo de fachada”, explica.

Arte/Metrópoles

 

Em baixa
No mercado fonográfico, a banda toca o mesmo ritmo. São vários os fatores que determinam o sucesso ou o “fracasso” de um artista, mas a procura musical simbólica também é uma forte motivação. É o que mostram os dados levantados pelo Relatório Anual Playax – pesquisa sobre o desempenho de cantores em 2018. O estudo analisa a carreira de alguns dos nomes mais comentados da música brasileira.

Nos últimos anos, artistas representantes de grupos minoritários, como negros, LGBTQ+ e mulheres, viram as portas da indústria musical se abrirem. Pablo Vittar soube aproveitar a onda para impulsionar sua carreira e cresceu no mesmo período em que o gênero pop ultrapassou 20% de presença no universo musical.

Apesar de ter se beneficiado, a cantora não conseguiu manter a mesma tendência e começou a ver seus números caírem. Mesmo com planejamento de carreira que inclui o lançamento do EP Seu Crime, participação em programas de TV e parcerias com artistas populares, a drag queen não conseguiu novo impulsionamento.

Ainda assim, os números da intérprete continuam altos. Só em 2018, as canções de Pablo foram ouvidas 208 milhões de vezes no Spotify, e seu vídeos do YouTube tiveram 311 milhões de acessos. Para Maria Cristina, os dados não são alarmantes, visto que “esse consumo político-cultural é flutuante e depende de como oscila o poder”.

Arte/Divulgação

 

Em alta
O monitoramento da Playax também revela o crescimento de figuras artísticas da ala mais conservadora, entre elas, Mano Walter, Ferrugem e Zé Neto & Cristiano – dupla que, inclusive, se posicionou pró-Bolsonaro nas últimas eleições.

Jheison Failde de Souza, o Ferrugem, começou a levar o seu som para fora do eixo Rio-São Paulo em 2017, mas foi em 2018 que o pagodeiro conquistou de vez todas as regiões brasileiras. Ao longo do último ano, o pagodeiro somou 361 milhões de plays no Spotify e 355 milhões de acessos no Youtube. Além da execução maciça de canções como Atrasadinha, reproduzidas 811 mil vezes nas rádios.

Para a dupla Zé Neto & Cristiano, o ano de 2018 foi um divisor de águas. Os sertanejos tiveram o videoclipe mais acessado do YouTube.  A faixa Largado às Traças, lançada em 20 de janeiro do último ano, alcançou mais de 520 milhões de views em 12 meses e, hoje, ultrapassa os 576 milhões. Ao todo, todos os vídeos dos cantores atingiram a marca de 2,89 bilhões de plays.

O relatório aponta, ainda, para o crescimento no índice de audiência de ritmos como o sertanejo e o funk. Ao mesmo tempo em que gêneros como a MPB, por exemplo, tiveram queda. Para Maria Cristina Castilho Costa, uma das explicações pode ser a busca de determinados grupos por uma alienação cultural, uma maneira de fugir dos debates políticos.

É o espaço público de superficialidade. A indústria enxerga esse nicho e aproveita para vender um entretenimento sem comprometimento, fast-food cultural

Maria Cristina Castilho Costa, professora e pesquisadora da USP

Arte/Metrópoles

 

Contraponto
Segundo Gilson Schwartz, professor de economia do audiovisual, também da Escola de Comunicações e Artes e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar Diversitas, na Faculdade de Filosogia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), ainda é cedo para dizer que o país passa por uma onda conservadora.

Em sua avaliação, desde as eleições de 2014, o Brasil está rigorosamente rachado. Não surgiu uma autêntica maioria conservadora, apenas os extremos tornaram-se mais estridentes e visíveis, ocupando espaço na mídia tanto pela esquerda quanto pela direita.

Os tempos são de polarização e extremismos, que se acentuaram com o impeachment e a eleição de Bolsonaro. Não existe essa tendência política majoritária, nem creio que ela irá firmar-se no longo prazo

Gilson Schwartz

De acordo com Schwartz, o mercado cultural e as tendências políticas não funcionam de modo reflexo. Mesmo que em alguns momentos ocorra uma sintonia entre as tendências culturais e as emergências de forças sociais significativas. “Isso é claro para as agendas chamadas identitárias, ou seja, que expressam as demandas de negros, mulheres e LGBTs. Mas é notório que há negros, mulheres e LGBTs de direita, de centro e de esquerda”, conclui.

Últimas notícias