Vox Lux, de Brady Corbet, mostra trajetória pop nascida na violência

Violência e música pop trazem fama e fortuna à cantora vivida por Natalie Portman

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atualizado 29/03/2019 9:11

Não causa controvérsia dizer que um dos gêneros mais batidos do cinema de Hollywood é a biografia musical. Tudo é familiar: a origem humilde, o trauma, um estrelato repentino e, como consequência, a perdição pelas drogas e pela esbórnia, deixando a protagonista longe de todos que ama. No final, a sobriedade e uma nova humildade existencial lhe garantem a redenção. Com tudo isso agindo contra o filme, Vox Lux consegue impressionar com atuações inesperadas e estética vertiginosa.

Embora relate uma história fictícia, muito será familiar a quem acompanha o gênero. A adolescente Celeste (Raffey Cassidy) sobrevive a um tiroteio dentro de sua escola após ser baleada no pescoço e testemunhar o extermínio de uma dezena de colegas e uma professora.

Moradora de uma cidade pequena e acolhedora, a jovem ganha atenção ao cantar uma música escrita por ela e pela irmã (Stacy Martin) em homenagem às vítimas. Pouco tempo depois, com a ajuda de um empresário ambicioso (Jude Law), ela realiza seu sonho. Na vida adulta, agora vivida por Natalie Portman, Celeste lida com as consequências da fama antes de um grande show.

A fórmula está toda aí, só que com um elo muito mais macabro. Enquanto a típica personagem da biopic lida com uma tragédia familiar, como a morte de um irmão ou de um dos pais (no máximo, um pai alcoólatra e abusivo), o diretor e roteirista Brady Corbet resolve arriscar a boa vontade do espectador logo no começo, transformando este passo da história numa sequencia grotesca de assassinato em massa – algo cada vez mais comum no mundo real, lamentavelmente. Semanas após um tiroteio escolar ter ocorrido em solo brasileiro, é difícil imaginar que o filme arrecadará dinheiro na bilheteria.

Só que Corbet não usa a sequencia de maneira gratuita. Na verdade, ela lança a grande exploração de seu filme. A violência e a fama ocorrida pela descaracterização e expectativa que o público de fora impõe sobre esses personagens reais, o tanto que se escreve e que é projetado em cima de vítimas, criminosos e celebridades. É uma tese desconfortável, assim como Vox Lux não é um prazer de se ver, pelo menos narrativamente.

Os atributos do longa estão em sua tese provocadora (a violência se estende além da sequencia inicial), nas atuações interessantes (especialmente de Portman e Law) e na estética de câmera. A segunda metade do filme, onde Portman navega em um dia de crises e conferências de imprensa, assim como um show gigante, são um tour de force. Importante destacar que as músicas são da cantora SIA, embora a percepção delas como paródias pop ou arte sincera dependerá da avaliação do espectador.

Avaliação: bom

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