“Que Horas Ela Volta?”: reflexão sobre o Brasil de abismos

Filme de Anna Muylaert mostra as relações de poder na esfera patrão-empregado

Muito já foi dito sobre “Que Horas Ela Volta?”, filme de Anna Muylaert. Diretora de talento – são dela “Durval Discos” e “É Proibido Fumar” -, Anna foi certeira ao trazer um tema tão espinhoso e necessário para os dias de hoje.

Impregnado com o ranço do racismo e do elitismo, o Brasil viu a carapuça servir nos diálogos cruéis entre Dona Bárbara (Karine Teles) e Val (Regina Casé). Quantos de nós encarnamos a persona da patroa exigente e insensível, que considera a empregada “quase da família”? O longa é um soco no estômago nas classes média e alta brasileiras.

Outro triunfo do filme é a interpretação de Regina Casé. Apresentadora, ela se reencontra como atriz e nos faz ter saudade de sua faceta cênica. Regina resgata o sotaque pernambucano da família (o avô, Ademar Casé, nasceu em Belo Jardim) e injeta drama e humor à protagonista. Sem excessos.

Nascida em Ceilândia, Camila Márdila precisou sair de Brasília para ser “descoberta” por produtores e diretores. Atriz competente, viu a carreira dar um salto depois da peça “Nada – Uma Peça para Manoel de Barros” cumprir temporada no Rio de Janeiro. O êxodo é comum a artistas e aponta a necessidade de olhar fora do eixo Rio-São Paulo.

Por trás das telas, o longa tem ainda mais força. É um filme de sucesso artístico nacional dirigido por uma mulher (que é raridade, mas não deveria ser) e que quebra o jejum de 30 anos sem uma representante brasileira na corrida por uma vaga ao Oscar. Além disso, é uma produção feminina: da direção ao elenco, passando pelo tratamento visual (dado pela diretora de fotografia, a uruguaia Bárbara Alvarez). À luz da recente polêmica envolvendo Lírio Ferreira e Cláudio Assis durante um debate em Pernambuco, essa potência do feminino soa ainda mais política.

Muito já foi dito sobre “Que Horas Ela Volta?” e o burburinho continuará. O filme está num hall seleto de obras selecionadas para representar o Brasil na disputa pelo Oscar (2016) e se coloca como referência para refletir sobre a sociedade brasileira. Seja para exemplificar as relações de poder na esfera patrão-empregado, seja para relembrar o machismo nosso de cada dia.

 Foto: Aline Arruda/Gullani Filmes