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Marguerite et Julien chega com muita ambição e falha espetacularmente. Baseado em um roteiro que o ícone François Truffaut planejava rodar nos anos setenta, a história retrata o caso supostamente real de um irmão e uma irmã, executados no século 17 por um caso incestuoso. Porém, a partir destes fatos, todas as escolhas que a diretora Valérie Donzelli faz são erradas.

O filme toma a forma de um conto de fadas que uma menina mais velha (Esther Garrel) conta para as criançinhas de um orfanato antes destas dormirem. Chamado por ela de uma incrível história de amor, de bravos e apaixonados adolescentes que lutaram contra tudo e desafiaram as tradições de uma época para viverem um amor eterno, o filme não mostra nada disso. Sim, mostra os dois irmãos se apaixonando enquanto crianças e continuamente indo e vindo até decidirem fugir do castelo dos pais e da polícia, mas em momento algum consegue transcender a ignomínia de um incesto mimado. Que a diretora escolheu contar a história como um conto de fadas para crianças (colocando estas crianças para fazer parte do filme) é mais bizarro ainda.

Os adultos na vida destes dois são a parte mais interessante do filme. Vemos pais que, conhecendo a condição de incesto, tentam guiar os filhos para outros caminhos, primeiramente no verbal, depois fisicamente e, finalmente, separando-os geograficamente. A empatia fica com estes dois sofridos, e não com o casal teen. O romance é tão clichê e forçado que agradecemos qualquer minutagem passada com os outros personagens.

Decisões estranhas também fazem parte da direção de arte pois, apesar da história se passar no século 17, helicópteros e automóveis aparecem no final, por razão nenhuma, quando a polícia está à busca dos aristocratas juvenis. Estes inventos tecnológicos não adicionam nada à trama, não tem um propósito e desafiam a lógica. Pode ser que a diretora queria comentar sobre este “conto de fadas” ser eterno e que a periodicidade dele não importa, mas isto teria de estar presente no filme como um todo. Marguerite et Julien devia ter permanecido no passado, como um filme não-realizado de Truffaut.

 

 

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