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Rio de Janeiro — Dono de uma das carreiras mais multifacetadas e instigantes no cinema contemporâneo, o diretor francês Olivier Assayas veio ao Brasil para apresentar seu novo filme, Vidas Duplas, no Festival do Rio*.

Após dois longas rodados em inglês, Acima das Nuvens (2014) e Personal Shopper (2016), ambos com Kristen Stewart no elenco, o parisiense retorna à França para debater os impactos da era digital na literatura e no mercado editorial.

Assayas, de 63 anos, conversou com jornalistas em uma mesa-redonda sobre tecnologia, redes sociais e os desafios de fazer cinema atualmente. Ele também deu alguns detalhes de seu próximo projeto, Wasp Network, adaptação do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, com Wagner Moura, Penélope Cruz, Edgar Ramírez, Pedro Pascal e Gael García Bernal no elenco.

Leia entrevista com Olivier Assayas sobre o filme francês Vidas Duplas:

Qual foi sua ideia inicial para o filme?

O filme é sobre mudança. O mundo editorial e os livros são um pano de fundo. No fim das contas, é sobre como nos adaptamos ou não nos adaptamos às mudanças do mundo. Obviamente, a revolução digital está modificando as coisas. Não apenas o mundo à nossa volta, mas também nós mesmos.

Como é fazer filmes sobre a contemporaneidade?

Fiz dois filmes em inglês. Personal Shopper foi feito em Paris, mas também foi rodado na República Tcheca. Acima das Nuvens também foi rodado fora, na Alemanha, Itália e Suíça. Eles vestiam sapatos universais. Mas eu queria fazer um filme ambientado em Paris. Um pouco como um filme jornalístico, lidando com o presente, conversas atuais, um debate com o qual o público se sentisse identificado. De certo modo, é um filme que inclui o espectador na conversa.

A tecnologia sempre foi um assunto importante em seus trabalhos, como Espionagem na Rede (2002) e Personal Shopper. De que maneira você trouxe essa preocupação para discutir livros e literatura?

Sempre tive muito interesse em mudanças tecnológicas. No sentido de que elas nos mudaram. A revolução digital nos tornou pessoas diferentes. É um processo perturbador e fascinante. Não é que o digital mudou nosso ambiente. Mas nos mudou também, a maneira como nos locomovemos, pensamos, interagimos com os outros.

Quando você tem interesse na sociedade moderna, e de certo modo tenho feito filmes que tentam lidar com o que representa essa sociedade, não é um assunto que você escolhe, mas que vem até você. Na verdade, seria estranho não lidar com isso. Mas, nesse caso, uso o pano de fundo editorial, de um lado a página impressa, do outro a página numa tela, algo bem simples. Mas qualquer um pode se relacionar com isso. Todos os empregos foram afetados pelo digital. Os valores, as qualificações. Mudou tudo.

No filme há uma citação a Luz de Inverno (1963), obra de Ingmar Bergman, em que o padre vive uma crise de fé, já que toda sua vida foi construída em cima da existência de Deus. Era sua intenção dizer que Alain (Guillaume Canet) está na mesma situação, sempre acreditou nos livros, mas agora a tecnologia e os modos de consumo mudaram tudo?

É como se o mundo estivesse mudando e, de alguma maneira, você tivesse que se agarrar ao que você acredita, mesmo que o mundo inteiro contradiga suas convicções. De certo modo, ele está certo. A mudança vem de maneiras estranhas. Por um longo tempo, no mundo editorial, as pessoas pensavam que o futuro eram os livros digitais.

Mas, aos poucos — é mais ou menos a história que o filme conta –, eles percebem que ebooks não se saíram tão bem e que as pessoas amam os livros tradicionais e continuam os comprando. Então, de certa maneira, Alain estava certa em continuar pregando na igreja vazia. Porque, gradualmente, as pessoas começaram a voltar para o tempo, uma a uma.

Você pode falar um pouco sobre a construção dos personagens?

Comecei com o personagem de Alain, do editor. Tinha escrito um roteiro em torno dele há vários anos, mas o filme nunca foi realizado. Não me arrependo, porque li o roteiro alguns anos depois e percebi que não estava mais interessado naquilo. Mas o personagem ficou comigo. Entendi que, eventualmente, seria um pontapé para um novo filme.

Quando escrevi a primeira cena, não tinha ideia em que direção estava indo. Levei três meses para chegar à segunda cena. Tive que esperar de novo pela terceira. O processo inteiro consumiu dois anos, o que é muito mais tempo do que qualquer outro roteiro que eu tenha escrito.

Em Hollywood, o diretor trabalha para os atores. Como é o seu processo criativo em torno da escolha dos atores?

Acho que porque pertenço a uma tradição diferente. Não cresci nos Estados Unidos, nunca funcionei no sistema de Hollywood. O mundo de onde venho é o do cinema europeu indie. No qual você tem muito mais liberdade. Tenho muita sorte, mas é também graças ao sistema no qual eu funciono. Desde que comecei a fazer filmes, tenho uma liberdade parecida com a que um romancista tem. Nunca fiz filmes em torno de estrelas, mesmo quando filmei com Juliette Binoche e Kristen Stewart, o mais próximo que tive de um elenco estrelado.

Juliette, quando fala inglês nos filmes, não atrai tanta gente na França. E nos Estados Unidos, você não financia um filme com Juliette falando inglês. E Kristen, mesmo que seja uma grande estrela, se ela não estiver em um filme de Crepúsculo… Quando faço um filme como Vidas Duplas, eu sei que, por não ter uma narrativa clássica, terei dificuldades em fazê-lo se não tiver grandes nomes. Para esse filme, decidi que deveria ter Canet, que na França é uma grande estrela e Juliette, também alguém que ajudaria o filme a acontecer.

Usei um elenco maior do que o usual porque sei que ajudaria a contar essa história. Já Personal Shopper, fiz esse filme para Kristen. Naquela época, ela tinha virado uma amiga, nós queríamos trabalhar juntos de novo. Para aquele tipo de filme, ela tem uma fama que ajudaria o projeto. Não é uma questão de financiar o filme, mas também de ter a pessoa certa para o papel certo. Se não tivesse Kristen para Shopper, não sei se teria feito com outra pessoa.

O Michael Haneke ficou sabendo da piada envolvendo A Fita Branca (2009) e um boquete?

Eu não sei (risos). Eu amo o trabalho dele. De verdade. Sempre me sinto um pouco mal por causa dessa piada desagradável. Mas espero que ele me perdoe (risos).

Como o filme é sobre mudança, isso necessariamente implica no fim de algo. E é curioso porque os personagens vivem num mundo monogâmico, mas não pertencem à monogamia. Como você trabalhou esse assunto no filme? Era mais um pano de fundo?

Isso meio que entrou naturalmente no filme. Não foi planejado. Foi acontecendo no processo de escrita. Honestamente, penso que vivemos num mundo em que o compasso moral mudou de diversas maneiras. E mudou de um jeito muito rápido. Quem o sujeito moderno é? É também definido, para o bem e para o mal, por sua existência digital. As redes sociais mexeram muito na forma como as pessoas funcionam e seu relacionamentos. Algumas mudanças são boas, outras ruins. Mas não temos muito o que fazer a não a ser aceitar tudo isso.

O que você acha desse debate entre livros digitais e tradicionais?

O filme é muito sobre como, em algum momento, o mundo editorial acreditou que os livros físicos eram algo do passado. Aos poucos, perceberam que as pessoas ainda amam os livros. Pessoalmente, não gosto de ler em tablets, se essa foi a sua pergunta. Eu leio livros de verdade. Mas não estou sozinho. As pessoas ainda leem livros e continuarão lendo.

A quantas anda a sua adaptação de Os Últimos Soldados da Guerra Fria, livro de Fernando Morais?

O livro dele é uma pesquisa jornalística incrível e série. Estou escrevendo uma adaptação já há algum tempo. Agora temos uma versão final do roteiro. Será em espanhol e vamos rodar principalmente em Cuba.

*O repórter viajou a convite do Festival do Rio 2018