Entenda a guerra entre cineastas consagrados e filmes da Marvel

Depois de Scorsese dizer que longas do MCU “não são cinema”, Jennifer Aniston, Coppola, Ken Loach e Fernando Meirelles aderiram à treta

O assunto do momento no cinema é a guerra travada entre cineastas consagrados e os filmes de super-herói da Marvel. Enquanto o estúdio da editora, abrigado na Disney, acumula bilhões de dólares nas bilheterias, as produções também atraem críticas pesadas de diretores e artistas de peso.

Tudo começou quando Martin Scorsese, no momento divulgando o aguardadíssimo O Irlandês, disse que os longas do MCU, o Universo Cinematográfico Marvel, “não são cinema”. Nas semanas seguintes, Francis Ford Coppola, Ken Loach, o brasileiro Fernando Meirelles e a atriz Jennifer Aniston, famosa por Friends, aderiram à treta e engrossaram os ataques a Vingadores e companhia.

Veja o que cada um disse na galeria:
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Durante a divulgação de seu novo filme de máfia, O Irlandês, produzido pela Netflix, Martin Scorsese (Oscar por Os Infiltrados, Palma de Ouro em Cannes por Taxi Driver) disparou contra a Marvel: "Tentei (assistir), sabe? Mas não é cinema. Honestamente, o mais perto que chegam disso, por mais bem feitos que sejam, são de parques temáticos. Não é o cinema de seres humanos tentando comunicar experiências emocionais e psicológicas para outros seres humanos”.Depois, o diretor fez várias outras declarações sobre a Marvel, criticando a presença massiva dos filmes de super-herói nas salas de cinema. Em outra entrevista, disse que “está tudo bem” ter esses filmes. “Mas não deveriam se tornar o significado de cinema para os jovens”
Famoso por fazer cinema de humanidades e de forte ativismo social, o inglês Ken Loach, celebrado por Kes (1969) e vencedor da Palma de Ouro por Eu, Daniel Blake (2016) e Ventos da Liberdade (2006), endossou as falas de Scorsese em conversa com a Sky News. Ele definiu os filmes da Marvel como "chatos". "São feitos como hambúrgueres. Não envolvem comunicar algo ou compartilhar a nossa imaginação. É uma commodity que vai dar lucro a uma grande corporação. São um exercício cínico, de mercado e nada têm a ver com a arte do cinema". O novo longa de Loach, Sorry We Missed You, ainda não tem previsão de estreia no Brasil
Jennifer Aniston, uma das estrelas da sitcom Friends, pela qual ganhou Globo de Ouro e Emmy, retorna às séries com The Morning Show, produção da Apple TV+. Em conversa com a Variety, a atriz se mostrou preocupada com a supremacia da Marvel nos cinemas: "Você vê o que está disponível para assistir e só está diminuindo e diminuindo. Só tem filmes da Marvel. Ou coisas que não são oferecidas a mim. Realmente não estou interessada em interpretar sob uma tela verde"
Vencedor de cinco prêmios do Oscar (quatro pela saga O Poderoso Chefão, um pelo roteiro de Patton) e da Palma de Ouro por A Conversação (1974) e Apocalypse Now (1979), Francis Ford Coppola esteve em Lyon (França) para receber o Prix Lumière por suas contribuições ao cinema. Na conversa com jornalistas, disse que Scorsese "foi gentil quando disse que (filmes da Marvel) não são cinema". "Ele não disse que são desprezíveis, o que eu digo que são". "Ele está certo porque nós esperamos aprender algo com o cinema, ganhar algo, alguma iluminação, algum conhecimento, alguma inspiração. Não sei o que alguém vai ganhar vendo sempre o mesmo filme"
Indicado ao Oscar por Cidade de Deus (2002), o brasileiro Fernando Meirelles, cujo Dois Papas estreia na Netflix em 20 de dezembro, fez críticas moderadas e disse não ver filmes de super-herói, em declaração no Festival de Mumbai (Índia): "Não posso discordar de Scorsese, porque não vejo (esses filmes). Assisti a um Homem-Aranha oito anos atrás, e foi isso. Não tenho interesse. Isso não significa que sejam ruins. Não sei se é da Marvel, mas vi o primeiro Deadpool e achei muito bom. Sequências de ação incríveis. Então tentei assistir a Deadpool 2 em um avião. Vi meia hora e desisti"

As declarações geraram controvérsia e, obviamente, respostas em defesa da franquia vindas de estrelas do MCU, como os astros Robert Downey Jr. e Samuel L. Jackson e os diretores Jon Favreau, Joss Whedon e James Gunn. Kevin Smith (O Balconista), cineasta e notório fã de quadrinhos, também rebateu as espetadas.

As redes sociais entraram na briga com a já esperada polarização. De um lado, cinéfilos endossando a ideia de que as franquias, sobretudo as de super-heróis, parecem mais parques temáticos do que obras cinematográficas, como apontou Scorsese. Do outro, nerds e leitores de gibis enlouquecidos com dinossauros metralhando seus ídolos encapuzados, fantasiados, mascarados e, claro, computadorizados.

Há lado certo?

Claro que não. Mas as críticas não vêm ao acaso ou motivadas por autopromoção. As franquias geram fenômenos de bilheterias e ocupam salas de cinema de maneira predatória. Quase não sobra espaço para filmes alternativos, independentes, estrangeiros (uma maneira simplista de definir o que não é de Hollywood), autorais – os chamados filmes de arte –, cada vez mais dependentes das telas de festivais e plataformas de streaming.

Em um país como o Brasil, então, onde não há tantas salas de exibição e elas se concentram em shoppings, os blockbusters nadam de braçada. Fato é que a maioria dos longas de Scorsese, Coppola e Loach tem mais prestígio do qualquer capítulo do MCU ou do DCEU, o Universo Estendido DC, editora rival da Marvel. Na avaliação do autor deste texto, por exemplo, os bons são minoria entre os 23 títulos do MCU.

Vingadores: Ultimato, dono da maior arrecadação da história (US$ 2,797 bilhões), é um dos melhores, mas passa longe de obra-prima. Já grandes obras abundam nas carreiras de Scorsese (Depois de Horas, Taxi Driver, Touro Indomável, Cassino, O Rei da Comédia, A Última Tentação de Cristo, Os Bons Companheiros) e Coppola (trilogia O Poderoso Chefão, A Conversação, Apocalypse Now, O Selvagem da Motocicleta, Drácula de Bram Stoker).

Os ataques desses veteranos podem soar radicais, exagerados, ressentidos, puristas. Mas há autenticidade nas críticas. E talvez eles estejam gritando justamente para serem ouvidos.

O formato extremamente lucrativo (e criativamente confortável) de franquias e sagas precisa conviver de forma mais saudável com histórias originais, linguagens “estranhas”, narrativas desafiadoras e culturas que não recebem a mesma atenção dada ao mundo pop.