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Estamos acostumados com vários filmes nos mostrando a vida e a luta de soldados em guerra, e bem raramente sobre o que resta aos derrotados sobreviventes. Dheepan abre com um homem e seus companheiros de exército em frente a imensas fogueiras de corpos. Assistindo o fim de seus companheiros de guerra aproveitam para tirar seus próprios uniformes e jogá-los nas chamas. Para Sivadhasan, um guerrilheiro da Sri Lanka, o conflito acabou, e ele perdeu. Resta agora sobreviver. A solução é imigrar para a Europa com uma nova identidade. Sivadhasan agora se chamará Dheepan, e é colocado com uma jovem e uma criança de 10 anos, todos desconhecidos e obrigados a fingirem ser uma família de refugiados.

Com 5 minutos de filme já estamos nas ruas de Paris com Dheepan, vendendo bugingangas na rua. Claramente, o diretor Jacques Audiard não está interessado em mostrar o caminho de imigraçao, mas sim sua consequencia. O título simples, com o nome do protagonista, já indica que aqui temos uma história íntima e “pequena”. Será que este ex-guerrilheiro conseguirá se transformar numa nova pessoa, o Dheepan do título?

Em seus últimos três filmes, todos participantes do Festival de Cannes, Audiard tem focado nos cidadãos periféricos. Um Profeta foca na vida de um presídio e Ferro e Osso no relacionamento entre uma mulher que perdeu as duas pernas num acidente e um lutador. Similarmente, a jornada de imigrantes em solo francês também tem ampla representação no cinema. A novidade é a dinâmica de uma família de estranhos e o chamado à Sri Lanka, um país sofrendo com guerras civis e que o mundo negligencia.

A falsa família permanece junta, embora a “esposa”, Yalini, ameace partir rumo à Londres e a “filha” Illayaal tem problemas na escola. Aqui passamos o maior tempo do filme, na convivencia com estes três imigrantes que, sem ninguém para ampará-los, são forçados a se unirem. Quando Dheepan consegue um emprego como zelador de um conjunto de prédios da periferia, a situação parece perfeita. Yalini também começa a trabalhar, como cuidadora de Mr. Habib, um senhor enfermo. Neste momento, os três estão bem próximos da estabilidade.

A narrativa não se contenta em deixá-los assim, pois na verdade o conjunto habitacional é um reduto do tráfico de drogas. Dheepan passa o dia inteiro trabalhando enquanto observado por olheiros, vendedores e outros membros da organização criminal e sentimos que a qualquer instante, o choque entre culturas terá consequencias trágicas. Não basta apenas o aprendizado da língua francesa para uma adaptação—em determinado momento Dheepan usa um pedaço de giz para tentar demarcar uma zona livre de gangsters.

Trabalhando na casa de Mr. Habib, Yalini convive com o jovem Brahim, um dos líderes da gangue. E o passado também volta a assombrar Dheepan quando conhece um outro guerrilheiro refugiado, ainda tentando mandar armas para o Sri Lanka, incapaz de acreditar que sua causa está derrotada. Todos estes conflitos se misturam num pequeno caldeirão, e o desfecho final é um pouco rápido e clichezinho demais para elevar Dheepan ao status de obra-prima.

 

 

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