Crítica: Soldado Estrangeiro mostra os brasileiros em guerra no exterior

Documentário sobre brasileiros que lutaram em outros países é uma das estreias da semana

atualizado 03/12/2020 18:03

Divulgação

Não é porque o Brasil está numa situação pacífica que um soldado não pode ir à guerra. No documentário Soldado Estrangeiro, os diretores José Joffily e Pedro Rossi expõem as histórias de três homens que partiram do país para se arriscar em outras fronteiras. O filme tem uma montagem temática e elegante, em que os momentos da vida de cada um se unem para contar uma história só, do começo ao fim.

Bruno, nosso primeiro personagem, está tentando se alistar na Legião Estrangeira. Rejeitado pelo Exército Brasileiro e sem falar francês, ele passa pelo momento de alistamento com um visível nervosismo. Sua razão para estar ali é econômica: recebendo um salário mensal em euros, consegue prover a família, mesmo que passe cinco anos sem vê-la.

Mário, por sua vez, já está no meio de sua carreira bélica, passando seus dias em zonas de conflito próximas e dentro de Israel. Aparentemente deslumbrado com a cultura da guerra (um de seus hobbies é jogar jogos do gênero no videogame, numa aparente antítese do velho ditado sobre a casa do ferreiro), ele forma um contraste com sua rotina de treinamentos nas discussões domésticas com a namorada.

Por último temos Felipe, veterano da guerra americana no Afeganistão. De seus primeiros momentos, em que conta histórias em inglês a um homem na rua, vemos que está sofrendo de estresse pós-traumático. Sua experiência claramente o deixou sem rumo, atormentado e guiado apenas por uma campanha de revisão de seu histórico disciplinar no exército. Para ele, é a designação desonrosa que o impede de emplacar seu futuro. Para o espectador, fica claro que o verdadeiro culpado é o trauma.

Os documentaristas tiveram, nas duas primeiras sessões do filme, amplo acesso aos processos pelos quais passam seus personagens. Bruno no alistamento e Mário no “trabalho”, o que já torna o filme um objeto fascinante. A construção dramática de três pontos diferentes numa vida, estendendo-se como representação de uma só vida, também é uma boa escolha.

Mário e Felipe, porém, já estão distantes de suas realidades brasileiras para as suas histórias ecoarem nossa influência e cultura. Eles parecem iguais aos outros soldados, dos países estrangeiros. O próprio epigrafo de cada história, citações do livro Johnny Vai à Guerra, do americano Dalton Trumbo, é internacional.

É com Bruno que deveria se encontrar o propósito do filme. Está aqui o cerne da questão: as razões e as oportunidades pelas quais ele sonha com um projeto que o deixará distante da filha pequena. Os diretores entendem isso e a realidade violenta do subúrbio sugere que a vida de Bruno corre risco em qualquer lugar. Talvez, se houver disposição em continuar documentando sua vida, o projeto ainda tenha uma vida longa.

Avaliação: Bom

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