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Personagens insones e atormentados em centros urbanos marcaram a primeira sessão competitiva deste sábado (24/9), no 49º Festival de Brasília. O Cine Brasília voltou a receber um bom público, sobretudo no segmento seguinte, às 21h30.

Entre divagações noturnas e dramas pessoais, os filmes “O Delírio É a Redenção dos Aflitos” (PE), “Estado Itinerante” (MG) e “Elon Não Acredita na Morte” (MG) abriram a noite. Outro destaque importante foi a boa composição de dois atores em seus personagens: Nash Laila no curta “O Delírio” e Rômulo Braga no longa “Elon”.

Leia críticas dos filmes exibidos na primeira sessão noturna deste sábado (25/9), no Festival de Brasília:

“Elon Não Acredita na Morte” (MG), de Ricardo Alves Jr.
Elon procura a esposa desaparecida numa Belo Horizonte desbotada, com cenários caídos e uma arquitetura urbana que parece parcialmente demolida. A teimosia desenhada no título serve a um propósito bem claro do diretor Ricardo Alves Jr.: construir uma estética de pesadelo a partir de uma narrativa que se estabelece entre realismo cru e atmosfera de sonho.

O próprio roteiro inspira um mote visual repetitivo, apegado a cenas que surgem para compor um personagem doentio em plena degradação psicológica — murros na parede, uma corrida ao ar livre durante uma forte chuva, um arroto endereçado ao inquisitivo chefe, provocando sua demissão do emprego de vigia.

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Por essas e outras cenas, o filme soa acomodado em certos vícios de cinema contemporâneo. Um deles é o arquétipo do personagem engaiolado pela câmera e por seu próprio ponto de vista. Ele persegue o fantasma de Madalena, interroga conhecidos, perde-se em sua obsessão cega e surda. E a imagem só parece estar ali para engordurar a paranoia, a cercar e punir Elon.

Num dos poucos momentos em que o filme de fato se desgarra da trama, vê-se um delírio sexual explícito entre os personagens de Rômulo Braga e Clara Choveaux. É também quando “Elon Não Acredita na Morte” ousa ambicionar algo mais do que uma mera busca implacável.

Avaliação: Regular

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“O Delírio É a Redenção dos Aflitos” (PE), de Fellipe Fernandes
O curta pernambucano consegue atingir notas interessantes dentro dessa filiação a gêneros como suspense e fantasia bastante cara a um certo cinema jovem brasileiro. Apesar do argumento à la “Aquarius” — uma jovem mãe é a última moradora de um prédio condenado –, Fellipe Fernandes parece mais inclinado a achados visuais do que a alegorias urbanas.

A personagem de Nash Laila trabalha numa loja de departamentos, cria uma filha pequena — sempre aprontando e se sujando na sala de estar — e ainda precisa cuidar da mudança. Sem dormir há uma semana, ela descreve a falta de sono a amigas: é como se algo a corroesse fisicamente. Numa fotografia sempre atenta ao dinamismo de cores e luzes em neon, “O Delírio” entrega um consistente exercício de fantasia urbana minimalista.

Avaliação: Bom

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“Estado Itinerante” (MG), de Ana Carolina Soares
A emancipação de uma personagem errante. Uma jovem cobradora de ônibus, recém-admitida no transporte público, é casada e tem um lugar para voltar. Mas ela nunca retorna. Sutis interações com ambientes e colegas de trabalho indicam um cenário de violência doméstica e busca por liberdade.

Nesse casulo de estresse cotidiano e incertezas pessoais, é interessante notar como a personagem vaga aparentemente sem objetivo definido, quando na verdade existe uma procura por catarse. Há pelo menos um bom plano capaz de registrar essas sutilezas — uma dança ao mesmo tempo orgástica e desesperada ao som de “Don’t Cry”, do Guns N’ Roses.

Avaliação: Bom

 

 

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