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Disse certa vez o filósofo árabe Averróis (1126 – 1198): “Somos mais parecidos com nosso tempo do que com nossos próprios pais”. Vejamos o caso então da persona Kéfera, autêntico produto do nosso tempo. Aos 23 anos, com cerca de 30 milhões de seguidores nas redes sociais, a jovem artista paranaense é fenômeno entre os adolescentes. Milhares deles estão indo agora, histericamente, aos cinemas para ver a comédia “É Fada”.

Na trama que mais parece um capítulo de “Malhação” com parte do elenco do humorístico “Zorra Total”, ela é uma fada “fodona” ou uma fadona “foda”, que perdeu o prestígio entre os seus pares ao falhar numa missão. Castigada a ficar sem suas asas mágicas, ela tem que se dar bem na tarefa de ajudar Júlia (Klara Castanho) se quiser ter seus acessórios alados de volta.

“Você também não tem peito e não estou jogando isso na sua cara!”, grita ela, quando perguntada por sua protegida onde estão as asas. “Eu não sou fada, eu sou fodona!”, gaba-se.

Adolescente problema e fada desbocada
Recém-transferida para uma escola classe média alta, Júlia é uma adolescente típica. A tela do celular que usa é toda detonada, é complexada, sofre bullying entre os colegas e, para piorar as coisas, tem uma relação difícil com os pais separados. A mãe (Mariana Santos) é uma dondoca ausente que só pensa no material. O pai (Silvio Guindane), chefe de obras dedicado que não sabe lidar com a filha mulher e adolescente.

Como num passe de mágica, claro, a desbocada fada Geraldine chega do nada para lhe salvar. Ou atrapalhar. Desajeitada, politicamente incorreta, ela usa mil e um truques para levantar a moral da amiguinha e fazer com que ela fique bem na fita com a turma. O problema é que, o tempo todo, a pequena Júlia terá que fingir o que não é. 

Bobagem adolescente fake e rasa
Uma produção de Daniel Filho com direção de Cris D’Amato (quem?), “É Fada” — baseado no livro “Uma Fada Veio Me Visitar”, de Thalita Rebouças –, é uma bobagem adolescente sem precedentes. Tudo no filme é fake, raso e, demasiadamente, irritante. Assim como a persona que encarna no YouTube, Kéfera Buchmann é over em cena. Ou seja, o tempo todo grita, faz caretas e exibe uma boca mais suja do que os bueiros do Rio de Janeiro, onde a trama se desenrola.

Quase que onipresente no filme, a vlogueira pode ser uma sensação entre os milhares de fãs adolescentes que tem Brasil afora, mas toda vez que entra em cena no filme é um verdadeiro suplício para os pais ou o tio coroa que se propôs a levar as sobrinhas ao cinema.

Existem contos de fadas de verdade, aqueles escritos por autores clássicos e imortalizados pela Disney. Na sua essência capenga, “É Fada” é um conto de fadas de mentira.

No filme, o tempo todo, a adolescente Júlia vive o drama de fingir o que não é. Enfim, a crise típica de identidade da idade. Parece ser o caso dessa moça rainha das redes sociais de ego estrambelhado que passa a impressão de que nunca cresceu. Aqui ela não é fada, não é comediante, não é atriz, não é nada. Lembrando a citação do início do texto, vivemos tempos de mentira criativa. Assistir “É Fada”, no sentido ruim da palavra, é foda…

 

 

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