Categorias: Cinema

Crítica: autoironia volta à toda em Zumbilândia: Atire Duas Vezes

Road trip pelos Estados Unidos, hordas de zumbis metralhadas, piadinhas sobre o pós-fim de mundo, personagens que amam se odiar ou odeiam se amar. A receita de Zumbilândia (2009), despreocupada comédia de terror que virou hit nas bilheterias (US$ 102,4 milhões), recebe sequência tardia em Zumbilândia: Atire Duas Vezes, com retorno do elenco original e do diretor Ruben Fleischer.

Dez anos depois, o quarteto Tallahassee (Woody Harrelson), Wichita (Emma Stone), Columbus (Jesse Eisenberg) e Little Rock (Abigail Breslin) parecem bem acostumados aos devoradores de cérebro – e meio cansados um da cara do outro. Atirar na cabeça de mortos ambulantes é tão comum como não ter nada para fazer depois do apocalipse.

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Fleischer e os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick, dos dois Deadpool e do primeiro Zumbilândia, e Dave Callaham (Mulher-Maravilha 1984) colocam desafios cascudos no caminho dessa “família” disfuncional.

Eles se refugiam na Casa Branca, mas logo têm de sair para uma nova jornada pelos EUA quando Little Rock decide dar o fora em busca de aventuras – sendo um músico riponga e pacifista de Berkeley (Avan Jogia) a principal delas.

É aí que diretor e escritores criam a melhor coisa de Atire Duas Vezes: as novas categorias de zumbis. Tem o Homer, tão tapado quanto o pai de família do desenho Os Simpsons. Hawking, em referência ao famoso físico, é o oposto: inteligentes e calculistas. Ninjas são sorrateiros, silenciosos e letais. Mas nada supera T-800, em alusão ao Schwarzenegger de O Exterminador do Futuro. Para matar esses monstros, só atirando bem mais do que duas vezes.

Fugir, matar e rir

Esse recurso de transformar tudo em autoironia ganha anabolizantes na continuação. Os personagens, agora mais do que nunca, sabem que estão num filme de zumbis. E que os maiores perigos nem são os mortos-vivos, mas as relações humanas complicadas e sensíveis entre quem sobreviveu ao fim do mundo.

Não à toa, uma das sacadas envolve os próprios tipos padronizados do cinema de terror e como eles se apresentam desconstruídos (ou simplesmente zombados) no filme. O caubói amoroso (Harrelson), o nerd babaquinha (Eisenberg), a jovem durona (Stone), a adolescente aborrecida e autossuficiente (Breslin).

Junta-se ao grupo a patricinha Madison (Zoey Deutch), definida por Wichita como “garota Forever 21”. Está, assim, formado o bando para achar Little Rock, que encontrou abrigo na Babilônia, acampamento hipster onde armas não são bem-vindas. A ver como essa galera vai dar conta do enxame de T-800s lá fora.

Esse apego ao sarcasmo é a salvaguarda de um filme que não consegue funcionar em outras frentes: cenas de ação meramente funcionais, várias tiradas que não decolam (sobretudo as piadas internas), e gracejos dispensáveis, como os “clones” de Tallahassee e Columbus, Albuquerque (Luke Wilson) e Flagstaff (Thomas Middleditch).

Apesar de jogar no seguro, sem ir além de “o 1 com mais sangue e risadas”, Atire Duas Vezes diverte ao defender a comédia como último refúgio no apocalipse zumbi. A boa notícia para Fleischer é que finalmente ele volta ao que faz de melhor, já que a carreira pós-Zumbilândia jamais deu liga (30 Minutos ou Menos, Caça aos Gângsteres, Venom).

Avaliação: Regular

Felipe Moraes

Formado em jornalismo pela Universidade Católica de Brasília (UCB), Felipe Moraes é repórter de cultura e crítico de cinema no Metrópoles. Passou pelas redações do jornal Correio Braziliense e da revista Veja Brasília. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e escreveu artigos para livros publicados pela entidade. Participou do Júri da Crítica (Abraccine) no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) de 2013 e 2018 e do Júri Oficial no FBCB de 2014.

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