Cannes: “Happy End”, de Michael Haneke
Uma comédia de erros inesperada, irônica e perturbadora de Michael Haneke
atualizado
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Após um acidente de construção, vários membros da família dona da incorporadora se encontram na pequena cidade-sede, Calais. O que sucede é uma comédia de erros com ironia, masoquismo e bastante humor negro, como seria esperado de Haneke. Assim, “Happy End” não é um filme com uma trama forte–o próprio acidente é mais uma razão para reunir a família inteira do que qualquer outra coisa–e assim tudo que ele tem de excelente é formada pela conjunção de interações entre o elenco multinacional de primeira linha.
O patriarca da família Laurent é Georges (Jean-Louis Trintignant), octagenário rabugento e louco para morrer. Trintignant, lembremos, foi o ator do filme “Amour”, que deu a Haneke sua segunda Palma de Ouro, e em que seu personagem ajuda a esposa a cometer eutanásia e depois se suicida. De cadeira de rodas, Georges é cuidado por um casal marroquino de empregados, Rachid (Hassam Ghancy) e Jamila (Nabiha Akkari). É suficiente dizer que as opiniões do velho sobre imigrantes não são tão progressistas.
A filha mais velha, Anne (Isabelle Huppert), é a CEO da família, tendo assumida há anos a construtora e os negócios do clã. Dama de gelo, Anne está noiva de um advogado britânico (Toby Jones) e é permanentemente frustratada pelo seu filho adulto, Pierre (Franz Rogowski), responsável pela obra aonde ouve o acidente e provavelmente negligente devido à embriaguez.
O irmão de Anne é Thomas (Mathieu Kassovitz), que precisa voltar pra casa porque seu casamento acaba de desmoronar. Entre suas amantes e seu trabalho, não contribui em nada para ajudar os outros. Pior, traz consigo sua filha Ève (Fantine Harduin), ainda pré-adolescente e fica largando-a dentro de casa para que se vire ou para que outros tomem conta dela.
Ève é a estrela do filme, e na maior parte do tempo, é uma menina que sabe se virar. Ela é também a única descendente de George com quem o espectador consegue empatizar, e que está conhecendo sua verdadeira família pela primeira vez, digerindo as décadas de amarguras e brigas internas que os deixaram incapazes de amarem uns aos outros.
“Happy End” usa a conotação de ser um filme do controverso e chocante para esconder o fato de ser uma comédia. Na verdade, a primeira e única do diretor. Justamente no ponto em que poderia sossegar na carreira e ser previsível, Haneke inova. E se isso parecer paradoxal, aceite: Snapchat e redes sociais tem um papel importante no filme do septagenário.
Avaliação: Excelente (5 estrelas)
