Bruno Sartori viraliza com vídeos “zoeira” sobre Bolsonaro e Moro

Utilizando a tecnologia deep fake, o editor de mídias digitais produz memes com o rosto de integrantes do governo federal

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atualizado 04/08/2019 19:15

Em 16 de maio, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) se confundiu ao encerrar seu discurso de agradecimento pelo prêmio de pessoa do ano, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos no World Affairs Council em Dallas, Texas, nos Estados Unidos. Do púlpito, ele falou: “Termino com meu chavão de sempre. Meu muito obrigado a todos. Brasil e EUA acima de tudo, Brasil acima de todos”.

Como acontece com as declarações de Bolsonaro, rapidamente a confusão – o slogan original é “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” – virou meme na internet. No dia seguinte, Bruno Sartori, 30 anos, chegou entediado do estágio no fórum de Justiça da cidade de Unai (MG), a 150 km de Brasília. O rapaz viu o vídeo do discurso e teve uma ideia: usar tecnologia para misturar o presidente ao personagem Chapolin Colorado.

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Bruno Sartori: tecnologia a serviço de montagem bem-humoradas com políticos

“Quando eu vi aquele discurso todo atrapalhado, lembrei na hora dos episódios de Chapolin. Aí, como já trabalhava com a tecnologia de deep fake, coloquei o rosto do presidente no corpo do personagem”, lembra Sartori. O vídeo chegou às redes sociais, foi compartilhado e viralizou. O rapaz saiu de 300 para 30 mil seguidores. “Muita gente passou a me procurar”, conta.

Deep fake

Mas o que é essa tal de deep fake? A tecnologia usa inteligência artificial para trocar o rosto de pessoas em vídeos, com sincronização de movimentos labiais, expressões e tudo o mais, em alguns casos com resultados impressionantes e bem convincentes. O nível de perfeição preocupa algumas autoridades, já que pode ser utilizado para criar situações nunca antes ocorridas, promovendo todo um novo nível de notícias falsas.

Esse não é o caso de Sartori – jornalista, editor de mídias digitais e estudante de direito. O criador de conteúdo deixa claro que seus vídeos são peças de humor e não uma realidade. Apesar de ser evidente, no atual mundo da internet, convém ressaltar se tratar de ficção uma possível fala do presidente vestido de Chapolin.

Depois do primeiro vídeo, Sartori passou a desenvolver diversos memes usando a tecnologia – com a qual trabalha há alguns anos. Outros personagens ligados direta ou indiretamente ao governo federal entraram na pauta: Carlos Bolsonaro, filho do presidente, e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, foram alguns deles.

Piada pronta

“Este governo é uma piada pronta, não tenho que me esforçar muito. Eu simplesmente retrato os fatos, a realidade é um absurdo por si só. Quando vi a fala do Bolsonaro falando sobre um ministro [no Supremo Tribunal Federal] ‘terrivelmente’ evangélico, pensei no meme da senhora cantando o Sangue de Jesus Tem Poder”, explica Sartori.

O editor de mídias digitais avalia que a viralização de seu conteúdo – no Instagram, por exemplo, ele acumula quase 40 mil seguidores, a maior parte chegada após 17 de maio – está ligada à atualidade e ao humor de seus posts. No último dia 24 de agosto, por exemplo, ele postou Eduardo Bolsonaro como o garoto propaganda da Open English.

No vídeo, o deputado federal, indicado pelo presidente para ocupar a vaga de embaixador brasileiro em Washington (EUA), aparece falando em inglês e sendo corrigido por uma mulher.

Na política

Bruno Sartori trabalha com jornalismo político há algum tempo. Por meio do humor e da internet, ironizava e denunciava desmandos que aconteciam em Unai (MG): o município que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem 83,8 mil habitantes. “Eu provocava muita gente poderosa da região”, alerta. Além de provocações, ele também enfrentou processos e, de tanto lidar com a Justiça, optou por estudar direito.

Tava cansado do clima aqui da cidade e busquei uma nova carreira, dentro do direito

Bruno Sartori

A experiência no dia a dia do poder municipal e a própria infância pobre ajudaram Sartori a formar sua ideologia política. Ele se define como centro-esquerda, com “uma empatia maior pela luta das pessoas”. Porém, o estudante rejeita rótulos de extremismo.

Milícias

Adepto do diálogo com amigos e pessoas que possuem outra ideologia política, Sartori sabia que, ao fazer vídeos zoando Bolsonaro, ia enfrentar duras críticas dos apoiadores do atual presidente da República. São as chamadas milícias virtuais, usadas para tentar abafar vozes no debate público.

“Esse clima de polarização do Brasil transformou a política em torcida de futebol, mas a maior parte dos que me atacam são robôs ou usuários com perfis falsos. O pessoal que me segue rapidamente aparece em minha defesa”, frisa o editor.

A popularidade recém-conquistada é usada por Bruno para conseguir um novo computador. Como a tecnologia deep fake exige máquinas com maior capacidade de processamento, Bruno Sartori iniciou uma vaquinha na qual pede R$ 20 mil. Ele deseja comprar um equipamento mais avançado com o recurso.

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