Brasília projetada: VJs colorem os prédios da capital com arte

O ramo que utiliza de técnicas digitais para colocar imagens em diferentes plataformas ganhou adeptos em Brasília

Arquivo Pessoal cedido ao MetrópolesArquivo Pessoal cedido ao Metrópoles

atualizado 23/10/2019 19:45

Na década de 1990, o termo VJ (video jockeyera bastante conhecido dos jovens brasileiros: tratava-se dos apresentadores da MTV, emissora pela qual passaram nomes como Zeca Camargo, Edgard Piccoli, Sabrina Parlatore e Astrid Fontenelle. Com a mudança de perfil do canal, a expressão parecia ter perdido força: no entanto, um grupo de artistas passou a ressignificá-la no Brasil, a transformando em uma nova linguagem de arte e entretenimento.

Essa mudança – que, de certa forma, é um retorno ao sentido original da expressão – foi possibilitada pelo avanço da tecnologia, que proporciona novas formas de produção de conteúdo. Assim, artistas passaram a incorporar em suas projeções visuais, elementos como cenografia, música e expressão: surgindo a cena do VJing. Quem anda pelas baladas de Brasília – e do Brasil inteiro – certamente já presenciou o trabalho de um VJ. Esses profissionais sãos os responsáveis por projetarem em prédios públicos, ruas e painéis de LED imagens que complementam o ambiente da festa.

O Distrito Federal tem se tornado, aos poucos, um dos principais cenários para VJs – em grande parte estimulados pela arquitetura moderna da cidade, quando prédios públicos viram tela para artes digitais.  Não à toa, Brasília virou um polo do VJing, tendo sido sedo do último torneio internacional  da modalidade.  Um dos nomes em acensão por aqui é Graziela Paes, 26 anos. No começo do mês, ela esteve no Rock in Rio, onde projetou seu material.

“Geralmente respondo que VJ é um cenógrafo digital. É um artista que faz integração com a arquitetura do lugar, tem muita interação com os espaços urbanos”, descreve a brasiliense.

Formada em cinema, Graziela ou VjGrazzi conheceu o VJing quando trabalhava com produção de artes e cenografia. Ao se interessar pelo tema, buscou conhecer mais sobre a atividade. Através do contato com outros profissionais, principalmente Spetto, um dos precursores do estilo no Brasil, e VJ Boca, a brasiliense aprendeu a trabalhar com as projeções e viu a área se tornar sua paixão. “Achei que não tava preparada, mas, em 2017, larguei a produção de arte para me dedicar somente ao VJing e desde então nunca mais parei de projetar”, lembra a artista. 

Vencedora da edição de 2018 do Torna, campeonato internacional de VJs, Grazzi teve uma crescimento meteórico em apenas três anos de carreira. Desde a descoberta do estilo, aos 23 anos, já projetou em festivais  do mundo todo. Recentemente, projetou na festa Só Track Boa, em Brasília, e esteve no Rock in Rio, com a banda Plutão Já Foi Planeta. 

É nesse cenário de shows e festas que o VJing tem crescido no país.  As projeções – que geralmente fazem parte do cenário dos artistas – integram a apresentação e fazem parte da experiência do público. “Acho que o VJ traz uma experiência complementar a música. Ele torna o evento mais sensorial, porque usa as imagens junto das músicas. Já ouvi muitas pessoas falarem que se sentiram relaxadas e se arrepiaram nas apresentações”, garante Graziela.

Cena Local

No Distrito Federal, o estilo tem ganhado popularidade e novos praticantes. Segundo o colega de Grazzi, o VJ Boca – um dos mais experientes da capital –, o aumento de demanda e de profissionais tem lados bons e ruins. “É uma área que tem crescido muito, mas com o aumento do número de pessoas na área, começou a ter um certo ‘canibalismo’”, relata. Para ele, isso cria desconforto entre a categoria, porque os mais antigos acabam sendo deixados de lado. 

Apesar da concorrência, Grazzi reforça que a cena na capital é bastante unida. “Todo mundo está sempre trocando ideia, tentando chamar os outros para fazer parcerias em trabalhos. Se eu consegui chegar onde estou, não não foi sozinha. A gente não consegue fazer nada sozinho, precisamos ter bons aliados ao nosso lado’, acrescenta. 

As criações, geralmente, estão aliadas com o evento em que trabalha, mas, em competições e apresentações próprias, o VJ tem liberdade para mostrar sua assinatura. “Sempre que posso vou colocando assuntos voltados ao mundo feminino. Falando de amor, de feminismo, aborto… enfim, de todo esse mundo que a gente passa, dessas situações do cotidiano das mulheres”, enfatizou Grazzi. Para ela, essa ação se torna ainda mais importante, porque, afinal, trata-se de um meio dominado por homens. 

Divulgação
Projeção no Torna 2018: concurso no qual Grazzi foi vencedora

Eu tendo um destaque maior depois que eu venci o campeonato em Brasília e estou usando isso para carregar meninas que estão começando. O máximo que puder ajudar, vou ajudar. A gente está sempre comunicando e estendendo a mão para a outra, isso só fortalece a cena

VJ Grazzi

Apesar de estar entre a minoria da área, a VJ crê que as dificuldades são vencidas pelo talento e união entre os artistas. “O que faz você se destacar mesmo dentro dessa profissão é se você é bom e não se você é homem ou mulher. É um mercado restrito, mas se a gente batalhar e correr atrás, conseguimos vencer”, conclui.  

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