Balada segura? Festas criam protocolo para manter a diversão na pandemia

Eventos ganharam novo formato para que programação siga até as 23h. Veja opções e dicas de especialista para não se expor muito aos riscos

Desde 11 de março, quando o governador Ibaneis Rocha publicou decreto proibindo a realização de eventos com mais de 100 pessoas no DF, empresários, artistas e demais trabalhadores de entretenimento convivem com a incerteza. Inicialmente, a determinação para ajudar a frear o avanço da Covid-19 valia por cinco dias — mas o setor já está há nove meses investindo alto na adoção de novos protocolos, sem saber se eles serão suficientes no dia seguinte.

As apresentações musicais nesses estabelecimentos foram autorizadas em setembro e para não somar à lista de casas obrigadas a fechar, as festas acabaram se adaptando a um formato com clientes sentados, atendimento na mesa e uso obrigatório de máscaras, entre outros cuidados. Porém, mal conseguiram colocar as novas estratégias em prática, uma nova medida obrigou esses empreendimentos a fechar às 23h.

Foi a gota d’água para casas como o Lah no bar, na Asa Sul, que anunciou seu fechamento na mesma data de publicação do decreto, no dia 1º de dezembro. “A limitação de horário não reflete o comportamento e interesse do público. Tentamos fazer dessa forma em julho e agosto, mas os primeiros clientes chegavam apenas após 21h para fecharmos logo depois. Tentamos nosso delivery igualmente sem sucesso”, alegou a produção em comunicado.

Outros espaços decidiram insistir, acreditando que o público brasiliense vai acabar se acostumando à nova dinâmica. É o caso da Birosca, no Conic, que, em um primeiro momento, também cogitou paralisar novamente as atividades.

“Já estávamos imaginando que pudesse acontecer [o decreto do GDF] por conta dos avisos sobre a segunda onda. Com a Birosquinha, esperamos atrair um outro perfil, que são as pessoas que preferem aproveitar mais o dia, mas também esperamos que o nosso público, mesmo sendo noturno, se adapte tendo em vista que é a única opção que terá”, explica a produtora Mayara Machado.

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A Birosca retomará sua programação neste final de semana, das 15h às 23h. No sábado (12/12) os DJs Amanda Mussi, Tonny Rocks e Helio Weirdo comandarão as picapes em uma versão diurna e segura da festa Vapor BSB. Já o domingo é dia de Manga Rosa, mais novo projeto de música brasileira, latinidades e afrobeat, com os DJs Maiê, FGON e Kaká Guimarães.

Para incentivar o público a comparecer, a produção aposta na reserva gratuita de mesas pelo Sympla, válida até as 19h. Após esse horário, a entrada é R$ 20, com pagamento de couvert opcional para os artistas (R$ 12).

A casa garante estar preparada para oferecer um lugar seguro para o público, mas faz uma recomendação honesta  no material de divulgação. “Apesar de nossos esforços para gerar um evento seguro, é preciso analisar a situação atual: nāo coloque sua vida e de quem você ama em risco. Nāo se sente segure? Fique em casa, sua vida vale muito”.

Temporada de verão no Criolina Jazz Club

Um dos palcos musicais mais expressivos da cidade, o galpão da Criolina, reabrirá no próximo dia 16 após nove meses fechado. “É novo projeto de acústica, luz, imagens e serviços de bar e cozinha que vão transportar os clientes para os espaços contemporâneos de música ao vivo das cidades mais cosmopolitas do mundo, numa atmosfera intimista e sofisticada, regada a jazz, soul, world music e música brasileira”, explica o DJ Rodrigo Barata.

A casa reabre com capacidade reduzida, com limite de 100 pessoas por sessão, novo sistema de exaustão e ventilação, dois metros de distância entre as mesas, encerrando as atividades às 23h e programação definida até janeiro.

Ellen Oléria abre a temporada nos dias 16, 17 e 18 de dezembro representando um dos maiores ícones da música mundial: Nina Simone. Nos próximos dias também sobem ao palco as bandas Funqquestra, convidando a cantora Miriam Marques cantando Ella Fitzgerald. Em seguida o grupo Brasília Samba Jazz chega acompanhado pela cantora Carolina Nogueira interpretando Tom, Vinícius e Baden. Na sequência, a cantora Bell Lins, ex-participante do The Voice, presta um tributo a Amy Winehouse.

Ainda haverá homenagens para Elis Regina, Aretha Franklin, Billie Holiday e outras grandes divas. O acesso ao local também se dará com a reserva antecipada de mesas, pelo site do Criolina.

“Apesar de Brasília ter essa coisa noturna, a gente está com uma expectativa boa para esse novo projeto. Mas tudo vai depender do comportamento de cada um, cuidando de si e do outro o tempo todo. Temos uma equipe treinada para lembrar os clientes a todo o momento dos novos protocolos. Está sendo um desafio para a gente, mas contamos com a colaboração de todos. Até porque esse cenário não vai mudar imediatemente por causa da vacina”, pontua Rodrigo.

Público reduzido e programação extensa

O Outro Calaf , conhecido por ser point agitado da capital e receber todos os ritmos, também tem se reinventado diante da pandemia de Covid-19. Desde que os bares voltaram a convidar artistas para se apresentar, o local já recebeu rodas de samba, uma versão light do bloco Essa Boquinha Eu Já Beijei e noites com pop para o público curtir sentado na mesa, aproveitando a nova carta de drinques.

Neste sábado, a programação é a festa Revoada, com a banda Xéu, Dudu Troca Tapa e outros, com entrada gratuita até as 18h— e lotação limitada ao número de mesas disponíveis. No domingo, será a vez da Mexidão, promovida pela InShock BSB, com muito pop, funk e trash. A mesa antecipada, para duas, quatro ou seis pessoas, custa entre R$ 20 e R$ 60.

Durante o período fechado, o Calaf promoveu uma festa on-line a fim de arrecadar fundos
Velvet Pub

Um dos pubs mais frequentados da cidade pelo público jovem, o Velvet, na Asa Norte, mudou sua operação para a área externa. Além disso, tem investido em uma grade de eventos minimalista e diversificada. No sábado, a partir das 18h, comanda a música do local a DJ Luísa Rodrigues e, no domingo, os DJs Saulinho e Stifa, da festa Subversiva.

Todo cuidado é pouco

Ao decidir sair de casa é importante ter uma coisa em mente: não basta que o estabelecimento diga que o ambiente e seguro. Isso porque muitas vezes, os protocolos existem, mas acabem sendo negligenciadas ao longo do evento, por profissionais e clientes.

A médica infectologista Ana Helena Germoglio alerta que é preciso aproveitar o momento descontraído com certa atenção, um vez que a diminuição dos riscos depende de um pacto entre o local e o público.

“Ainda é muito importante evitar contato com pessoas fora do nosso ciclo íntimo e familiar. Minha recomendação é observar se as normas estão sendo cumpridas, evitar locais fechados, observar o uso de álcool gel e de máscaras, além do distanciamento de mesas e do manuseio adequado de comida e bebida”, destaca a profissional.

Ao perceber algo errado, a melhor coisa a fazer é ir embora. “Todas essas medidas, estabelecidas em decreto, são para reduzir riscos e não eliminar. Frequentar lugares públicos é assumir o risco, pra você e para aqueles com quem você convive. Mas se o lugar está seguindo todas as regras, esse risco é menor. Por isso, ao perceber que o lugar tá ficando cheio, que as pessoas estão muito empolgadas, bebendo, falando alto, é melhor se retirar”, recomenda.

“A bebida alcoólica inibe o medo e falar alto também faz com que as gotículas de saliva tenham um alcance maior”, conclui.