Vítimas de Jeová. Mesmo acusado de assediar alunas, servidor da UnB é homenageado

Com 43 anos de carreira, o técnico de fotografia foi removido para o HUB após ser condenado pela Justiça. Dez estudantes relatam casos

Arte / Metrópoles

atualizado 30/12/2018 14:39

Na manhã do dia 12 de dezembro, servidores empenhados em “construir uma instituição melhor” foram homenageados pela Universidade de Brasília (UnB). Os funcionários escolhidos para receber a honraria “Prata e Ouro da Casa” estão na ativa há mais de 25 anos. Cinco dias depois da premiação, artigo lancinante assinado por uma ex-aluna da UnB desnudou a idoneidade de um dos perfis agraciados. Não é a primeira vez que o caso vem a público, mas, sem dúvida, foi a exposição mais contundente da denúncia que, durante anos, foi negligenciada pelas autoridades acadêmicas.

Em seu artigo publicado pelo site Huffpost Brasil, a cineasta e roteirista Danyella Proença reviveu um episódio traumático a fim de reforçar a necessidade de romper a naturalização de comportamentos abusivos. Os recentes relatos de violências sexuais cometidas pelo médium João de Deus ao longo de décadas provam que muitas vítimas se calam por medo, vergonha e sensação de impunidade. Justamente no sentido de encorajar outras mulheres a denunciarem seus abusadores, Danyella remexeu suas feridas.

Em 2004, quando ainda estava na metade do curso, ela conta que foi agarrada à força por Jeová Batista, então técnico do laboratório de fotografia da Faculdade de Comunicação da UnB. No local, sempre escuro para proteger imagens reveladas em papéis fotográficos, ocorria boa parte das atividades de disciplinas obrigatórias de fotojornalismo. Jeová era o servidor camarada e gentil, sempre disposto a ajudar os novatos. O ambiente, antes refúgio de tranquilidade para Danyella, se transformou no cenário de seu pesadelo.

Na época, encorajada por amigas, relatou o caso à diretoria da Faculdade de Comunicação da UnB e à polícia. Dois anos depois, ainda em busca de justiça, montou um relatório com depoimentos de outras alunas também abusadas pelo mesmo personagem.

Metrópoles revela o depoimento de nove mulheres que se dizem vítimas do servidor público. Quatro delas recontaram o modo como o acusado costumava assediar as alunas e o que sentiram diante da perplexidade de abuso praticado dentro de um ambiente aparentemente de proteção e acolhimento. Todos os lados envolvidos deram sua versão na história. Na manhã de sexta-feira (28/12), a reportagem entrevistou Jeová Batista, que, atualmente, aos 69 anos, trabalha no setor de radiologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Desde que a roteirista revelou publicamente o caso, outras mulheres que estudaram na Faculdade de Comunicação da UnB expuseram em grupos de redes sociais relatos semelhantes ao de Danyella. Muitas delas ficaram surpresas ao saber que mais colegas passaram pelo mesmo constrangimento à época da graduação.

Penumbra vermelha
Com base nos relatos, as investidas ocorriam enquanto as estudantes esperavam pela revelação artesanal de fotografias, em um ambiente de penumbra vermelha, quase sombrio. A baixa luminosidade é requisito para evitar interferência na revelação. Repetindo um padrão, Jeová, de acordo com os depoimentos, agarrava repentinamente as mulheres e as beijava à força, às vezes, passando a mão em suas partes íntimas. É o que diz Danyella em seu artigo ao detalhar a dinâmica de quando foi atacada:

“Eu estava feliz. O sorriso de minha mãe de braços esticados, segurando uma borboleta, começava a surgir no papel fotográfico. Neste momento, chamei meu algoz. Perguntei o que ele achava: se eu deveria deixar a foto alguns segundos a mais no revelador ou se já poderia retirar. Ele, sempre tecnicamente certeiro, me disse para deixar mais dois segundos. A foto ficou perfeita. Nem clara, nem escura demais. Eu o abracei para agradecer, como quem queria dizer: ‘Você é incrível!’. Todos os alunos, na verdade, o achavam incrível. Ele era uma unanimidade. E eu não via perigo algum nesta figura incrível”, relatou.

Quando o abracei, ele me segurou forte pelos braços, não me deixando sair. Logo, me beijou à força e passou a mão na minha bunda. Eu estava petrificada. A violência da língua dele, quente, dentro da minha boca, é algo de que tento esquecer todos os dias. Eu simplesmente não consegui reagir

Danyella Proença, ex-aluna da UnB

Como geralmente ocorre, numa espécie de autopenitência, Danyella culpou a própria roupa e até o gesto de agradecimento, quando decidiu desabafar para uma amiga – a mesma que a encorajou a levar o caso às autoridades competentes: da diretora do curso à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), ainda em 2004. Institucionalmente, no entanto, o caso foi minimizado. Para a reportagem, a UnB informou que “o processo de sindicância foi aberto em novembro de 2006, mas não houve andamento e prescreveu”.

“Importunação ofensiva ao pudor”
O Metrópoles apurou que, embora inúmeros relatos tenham sido feitos, apenas dois registros foram oficializados na Polícia Civil do Distrito Federal: um em 2004, pela própria Danyella, e outro em 2006, por outra estudante chamada Núbia. Segundo a legislação da época, os dois casos restaram enquadrados em contravenção penal, encaminhados à Justiça como “importunação ofensiva ao pudor”. Jeová foi condenado ao pagamento de cestas básicas.

Em conversa com a reportagem, Danyella Proença afirmou que, quando o caso foi exposto, outras estudantes a procuraram. Ela, então, reuniu o depoimento de várias vítimas e entregou o relatório para a faculdade. Só que, segundo a própria roteirista conta em seu artigo, a UnB não tomou providências. “A então diretora, mulher, foi ouvir a versão dele e voltou dizendo o seguinte: ‘Ele disse que você se confundiu. Que foi apenas um carinho no seu cabelo’. Segunda violência. Uma mulher sabe bem a diferença entre cabelo e bunda, entre carinho e agressão.”

Indignada com a apatia administrativa, Danyella procurou a polícia. Mas seu incômodo persistiu até a formatura. Quando os colegas discutiam quais professores e servidores seriam homenageados na colação de grau daquele semestre, surgiu o nome de Jeová. Danyella protestou e contou o ocorrido. Apoiada por colegas e pela professora Márcia Marques, responsável pelo Campus, jornal laboratório do curso, o funcionário foi vetado e o caso virou reportagem com destaque no periódico.

“Historicamente, o jornal Campus teve muita autonomia. Nunca tivemos de nos submeter à reitoria ou a quem quer que fosse para efeitos de censura. Quando recebemos o relato, discutimos: é notícia? É claro que era notícia e trabalhamos como tal, obviamente ouvindo também o outro lado”, pontuou a educadora, que ingressou na instituição em 1997 e até hoje leciona na UnB.

Numa época em que denúncias de assédio eram raras, a docente enxergou no episódio oportunidade para tratar o assunto com a importância que merecia. “Naquele tempo, não havia instrumentos para se denunciar, como existem hoje. Era tudo guardado debaixo do tapete. A notícia correu muito rápido depois da publicação e a universidade teve de fazer algo”, frisou Márcia Marques. Embora a UnB negue sanções administrativas, o servidor foi afastado da Faculdade de Comunicação após essa primeira reportagem. Mas foi realocado no hospital-escola – que pertence à instituição.

0

 

Repercussão
Formada há 24 anos pela UnB, Rafaela (nome fictício a pedido da vítima) contou ter sido assediada por Jeová enquanto esperava a revelação de um trabalho no laboratório de fotografia. Sem perceber, recebeu um inesperado e incisivo abraço do técnico.

O que parecia ser um abraço normal se tornou num abraço tão forte que prendeu meus dois braços junto ao meu corpo, me impossibilitando de reagir, enquanto ele me beijava à força. Fiquei tão sem ação que só consegui me soltar quando ele afrouxou um dos braços para começar a passar a mão no meu seio. Empurrei ele com toda a minha força e saí correndo e chorando, prometendo que nunca mais voltaria naquele laboratório

Relato de outra vítima

No semestre da colação de grau, Rafaela soube que a turma havia decidido homenagear justamente seu assediador: “Houve quase uma unanimidade nessa indicação, e eu ficava me perguntando o que havia de errado comigo, para uma pessoa que era tão gentil com todos ter feito isso comigo. No dia da formatura, ao receber o diploma, me recusei a apertar a mão dele. Dei graças a Deus ao fato de nunca mais precisar encontrá-lo”.

 

Michael Melo/Metrópoles
Faculdade de Comunicação da UnB: vítimas eram assediadas no laboratório de fotografia

 

Duas ex-alunas ouvidas pelo Metrópoles contaram episódios semelhantes. Foram igualmente atacadas por Jeová, só que do lado de fora do laboratório. “É uma demonstração de que ele pouco se importava com as consequências”, ressaltou uma das vítimas. “Irônico é que, embora outras colegas de curso tenham sido assediadas também, só falamos umas com as outras agora. Muitas vezes, a gente demora a entender que fomos vítimas de abuso. A reação instintiva é fugir, a consequência é ter medo, e a providência, muitas vezes solitária, é tentar esquecer”, salientou.

A outra egressa do curso de jornalismo também relatou ao Metrópoles como foi abordada pelo servidor da UnB. “Eu não era caloura. Foi no semestre quando a gente fazia o Campus. Ficava muito tempo no laboratório por ser uma das responsáveis pela fotografia e pela arte. Ele é o cara mais simpático do universo e nunca tinha percebido algo que não fosse camaradagem”, relembrou.

A ex-aluna conta que, certo dia, quando corria atrasada para aula, Jeová lhe abordou no corredor, segurou sua cabeça e lhe deu um beijo à força: “Ele me segurou de um jeito muito firme, sem que eu conseguisse reagir imediatamente. Saí sem entender direito o que tinha acontecido”.

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), Sandra Gomes destaca: “A denúncia liberta”


Rigor da legislação

A titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), Sandra Gomes Melo, explicou que, à época do relato dos casos, a legislação era mais branda do que a atual. “O que antes era considerado apenas uma contravenção, que não permitia instauração de inquérito, hoje pode resultar em pena de até cinco anos. A mulher precisa acreditar que, para nós da polícia, a palavra dela tem muita importância”, enfatizou.

Sandra Gomes considera que a formalização da denúncia ajuda a restaurar os danos psicológicos causados às vítimas. “Contamos com uma grande rede parceira para acompanhamento de todas as mulheres. Esses casos não podem ser calados. A atual legislação descortina a invisibilidade que até então as mulheres vivenciavam. Temos que ser intolerantes com o desrespeito à mulher”, sublinhou.

Sobre os episódios expostos recentemente, a delegada diz que pode abrir novas investigações, uma vez que, somente agora, tomou conhecimento dos relatos de assédio. Para tanto, as vítimas precisam procurar a delegacia especializada. “Temos o dever de ouvir e reavaliar cada caso. É claro que casos de importunação ofensiva já estariam prescritos, mas não podemos afirmar que todos tenham essa única tipificação. Pode ser que encontremos outros crimes dentro do que as vítimas relatarem”, orientou a delegada.

“Mal interpretado”

O Metrópoles foi ao Novo Gama (GO), Entorno do DF, à procura de Jeová Batista. Uma neta do servidor informou que o acusado não se encontrava. Ela disse que o avô estava no HUB, onde está lotado há 13 anos.

Em seu local de trabalho, o laboratório de radiologia, Jeová aceitou conversar. Com a aparência cansada pelo tempo, ele prontamente afirmou à reportagem ter sido mal interpretado pelas jornalistas que o denunciaram formalmente. “Não sei o que vou fazer da minha vida agora, com tudo isso de volta, depois de 13 anos, sendo que eu já paguei por um crime que não cometi. Fui mal interpretado para dedéu. Estão se aproveitando de uma situação para me sacanear, desculpe o termo.”

O técnico disse sempre ter tratado todas as alunas com muito carinho, mas nunca forçado beijo na boca de nenhuma delas. “Eu interpretei que ela [Danyella] estava me dando mole. Não houve nada de aperto, de força. Não teve beijo na boca. No máximo, um beijo no rosto, no pescocinho, um abraço. Sempre fui o Jeová da Faculdade de Comunicação, brincalhão, o amigo de todos. Na universidade, tínhamos até uma brincadeira de que eu era o funcionário mais homenageado”, contou. Ele se mostrou surpreso com os relatos de outras nove mulheres. “Como isso vem à tona depois de 13 anos?”, indagou.

Mesmo ouvindo nome por nome das denunciantes, Jeová insistiu em dizer que não se lembra de nenhuma das ex-alunas: “Meu querido, só aqui no hospital estou há 13 anos. Pedi para sair de lá por causa de todo o constrangimento que isso me causou. Tenho filha, tenho neta, poxa. E agora, depois de tanto tempo, tudo isso volta de novo? O que vai ser da minha vida? Não sei até onde isso vai me prejudicar”.

A reportagem também questionou o acusado sobre o caso específico de Danyella Proença, a autora da primeira denúncia pública. “A Proença, eu beijei. Mas foi no rosto. Foi quando ela disse: ‘O que é isso, seu Jeová?’ E eu disse que ela era maravilhosa e paguei um preço alto por isso. Não sei o que fazer, se é que eu posso fazer alguma coisa. Vou esperar a delegada me chamar para repetir o que estou te dizendo. É a palavra delas contra a minha, fazer o quê?”

Acolhimento
Em nota enviada ao Metrópoles, a UnB disse lamentar “profundamente o episódio descrito pela ex-estudante e se solidariza com ela e com outras possíveis vítimas”. Segundo o texto, “a administração está à disposição para acolher as mulheres que denunciaram situações de assédio. Também esclarece que vem atuando para aprimorar os mecanismos de denúncia e de apuração de casos de assédio e abuso sexual na universidade”.

A instituição reforça que, “entre as ações, está a criação do Conselho de Direitos Humanos da UnB, cujo lançamento, em março deste ano, foi marcado pela apresentação dos resultados de uma pesquisa sobre violência contra a mulher”. Após diversas reuniões, a universidade emitiu uma nota. “O conselho apresentou, no último dia 10 de dezembro, uma proposta de política para os direitos humanos na instituição. O assunto deve ser levado para apreciação do Conselho Universitário no início do próximo ano”, diz trecho do comunicado.

Ainda segundo o texto, “a UnB repudia qualquer tipo de violência, física ou psicológica, contra mulheres e reitera seu compromisso com a paz e a defesa dos direitos humanos”.

Encontros pedagógicos
Também procurada, a direção da Faculdade de Comunicação da UnB se manifestou por meio da assessoria de imprensa da instituição. Informou, em nota, observar as recomendações da reitoria em episódios de questionamentos e críticas a condutas de professores e técnicos. 

“Quando necessário, a direção da faculdade segue determinações da reitoria e leva em conta recomendações da Procuradoria Jurídica da UnB referentes a questionamentos relacionados a atividades de docentes, técnicos, discentes ou egressos, para que as medidas cabíveis sejam tomadas”, pontuou a FAC.

O Coletivo de Mulheres Jornalistas e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF (SJPDF) também se solidarizaram com as ex-alunas vítimas do técnico. Em nota, afirmaram que, “infelizmente, casos de abuso e assédio sexual, recentes ou não, em diversos espaços públicos, instituições de ensino e locais de trabalho vêm sendo denunciados cada vez mais, o que mostra que as mulheres estão rompendo o silêncio frente à violência sofrida”.

As entidades sugerem que “a UnB e demais instituições de ensino superior do DF realizem campanhas de conscientização e de combate à violência sexual dentro da comunidade acadêmica”. Cobram apuração dos casos e se colocam à disposição para apoiar as mulheres, inclusive juridicamente. “Ao mesmo tempo em que nos solidarizamos com as colegas, cobramos ampla investigação por parte da Justiça e também reivindicamos que a Universidade de Brasília apure os casos e crie um espaço de denúncia e de acolhimento às vítimas de assédio sexual.”

Últimas notícias