Buscando emprego no DF, jogador de futebol ganha corte de cabelo

Profissional na Tunísia, Ismail Taghouti está em Brasília há 8 meses e não desistiu do sonho. Foi atendido em ação que ajuda desempregados

atualizado 11/12/2019 14:40

Myke Sena/Especial para o Metropoles

Ismail Taghouti, 27 anos, está atrás de emprego. Antes de distribuir currículos, recebeu uma cortesia inesperada e que considerou necessária na corrida por uma nova colocação no mercado de trabalho: barba feita e corte de cabelo, de graça, pelas mãos de um profissional. “Em meio a tantas dificuldades, pessoas boas aparecem para ajudar a gente a seguir”, diz.

Uma das barreiras para conseguir emprego foi a comunicação. Mesmo fluente em três línguas, Taghouti começou a aprender o português apenas em março, quando se mudou para o Brasil. “Só consegui tirar a carteira de trabalho brasileira há três meses, quando aprendi a falar com os funcionários da agência”, conta o imigrante.

O rapaz deixou a família na Tunísia, na África, para viver o grande sonho: ser jogador no país do futebol. Oito meses após o início da empreitada, Taghouti se viu morando de favor com um amigo tunisiano no Guará, desempregado e abandonado pelo empresário que prometeu alavancar sua carreira profissional.

“Cheguei para atuar no Esporte Clube Próspera, sediado em Criciúma (SC). Me destacava nos treinos, mas, na hora do campeonato, não entrava em campo. Com dificuldade em falar a língua, sofri preconceito, fui sendo colocado de lado. Mas não vou voltar sem mostrar quem eu sou e o potencial que tenho”, garante o tunisiano, que atua como zagueiro e volante.

Material cedido ao Metrópoles
O tunisiano Ismail Taghouti veio ao Brasil para tentar carreira no futebol

 

Fora de clubes e sem agenciador, ele treina todos os dias por conta própria, enquanto procura por oportunidades no ramo. No entanto, sente a necessidade de conseguir outra fonte de renda para se bancar no Brasil. “Já trabalhei em autoescola, como motorista de caminhão, tenho cursos de segurança e ajudava meu irmão na barbearia”, lista o tunisiano. “O que vier, será bem-vindo”, afirma.

Cortes de graça para desempregados

De cabelo e barba feitos, Taghouti segue tentando uma colocação no mercado de trabalho da capital da República. Assim como ele, mais de 300 mil pessoas estão desempregadas no DF, segundo os últimos números divulgados pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).

Na tentativa de ajudar, o cabeleireiro Hagá di Souto, 46 anos, organizou-se para oferecer 20 cortes de cabelo de graça por mês, além de divulgar os currículos dos desempregados para os amigos e nas redes sociais. A professora e técnica em enfermagem Cristiane Cardoso, 48, ficou sabendo do projeto e foi atendida pelo profissional. “É engraçado como o mundo dá voltas. Um dia a gente ajuda e, no outro, somos ajudados”, diz ela, que procura emprego há um ano.

Desde que o contrato temporário como professora na rede pública de ensino acabou, em 2018, ela procura outras oportunidades na área de atuação. “Enquanto isso, a gente acaba fazendo uns bicos. É tanto ‘não’ que a gente recebe, que desmotiva. Então eu ganhei mais que um corte. Ganhei autoestima, um tratamento com carinho, um olhar diferenciado, uma conversa boa e uma alavanca para conseguir um emprego”, agradece.

Rede de ajuda

A ideia do projeto nasceu por acaso, quando Hagá voltou de Portugal para o Brasil após dois anos fora. “Fiquei dois anos sem notícias daqui. Voltei e me espantei com a quantidade de pessoas qualificadas sem emprego. Decidi ajudar, mas não esperava que a ideia se espalhasse dessa forma”, afirma o cabeleireiro, que atua na área há mais de 20 anos.

Hagá foi procurado por outros cabeleireiros, inclusive de fora do DF, querendo reproduzir a iniciativa em suas cidades. “O que a gente precisa é fazer crescer essa rede de colaboração. O mundo precisa de mais colaboração, amor, olhar humano”, opina.

Para tentar atender mais pessoas, Hagá conta com a ajuda dos amigos e os cabeleireiros Tatiana Coutinho e Henrique Rolin, ambos com 39 anos. É no salão de Tatiana, no Guará, que os cortes são feitos. Os três se juntaram para conseguir aumentar a rede de ajuda e flexibilizaram os preços de vários procedimentos. “Todos deveriam ter chance de serem atendidos por profissionais e com carinho. Essa é a nossa missão e vamos fazer dentro da nossa capacidade”, diz Tatiana.

Os atendimentos sociais serão feitos com agendamento prévio às segundas-feiras, dias em que o salão antes não funcionava. “Vamos abrir as portas [aos desempregados]”, avisam os amigos envolvidos na iniciativa.

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