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Nos últimos meses, a vida de uma advogada brasiliense de 36 anos ganhou enredo de filme. Uma trama difícil de acreditar e com contornos cruéis que iniciou com uma falsa história de amor. Após descobrir que o marido fazia transações bancárias em seu nome, uma outra face do homem que convivia ao seu lado foi revelada. Segundo a mulher — cujo nome será preservado já que corre risco –, ela está sendo alvo de chantagem e extorsão. O caso é investigado pela Polícia Civil do DF. Os desvios que teriam sido feitos pelo “Don Juan” ultrapassam meio milhão de reais.

Além disso, ele chegou a se apropriar de bens da vítima, entre eles um Porsche Panamera, avaliado em mais de R$ 500 mil, e teria roubado cheques dela. O acusado, identificado como Pedro Bettim Jacobi, 40, e o pai dele, Pedro Silvino Lauredano Jacobi, 67, foram indiciados por furto qualificado, estelionato, apropriação indébita e extorsão, além de violência doméstica e familiar contra a mulher. A prisão dos dois foi pedida e aguarda análise da Justiça.

A advogada, que está amparada por medidas protetivas, recebeu a equipe do Metrópoles em sua casa, no Lago Sul, para contar os detalhes da história. Bonita, produzida e esbelta, a morena de cabelos longos e olhos castanhos disse que os dois se conheceram em 2001, quando a vítima advogou para uma empresa de mineração que pertencia à família de Pedro.

Ela só voltou a encontrá-lo em setembro de 2016, no Aeroporto Internacional de Brasília. Aparentemente, um encontro casual. “Ele me cumprimentou, perguntou como eu estava e me falou que havia separado”, lembrou. A mulher também estava solteira. Havia terminado um casamento de 14 anos.

A partir de então, mantiveram contato pelas redes sociais. As conversas viraram namoro e ele, desempregado, se mudou para a casa dela. “Tudo ocorreu muito rápido. Eu pensei que seria algo temporário, mas acabamos nos aproximando muito até que casamos em abril deste ano”, relatou.

Nos meses de maio e junho, a mulher afirmou ter descoberto transferências de sua conta no valor de R$ 600 mil. “Antes disso, ele tinha me recomendado trocar de banco. Disse que conhecia uma gerente que poderia me ajudar a aplicar o dinheiro. Prometeu mais facilidade também com relação a taxas de cartões de crédito. Fiz a troca e pedi para a funcionária me avisar sobre qualquer movimentação na conta. Mas não foi o que aconteceu”, explicou.

Ainda de acordo com a vítima, como não verificava o saldo com frequência, se assustou quando encontrou as contas praticamente zeradas. “Quando o questionei sobre o acesso à minha conta e as transferências, ele pediu desculpas e informou que estava comprando diamantes para fazer um anel e me presentear. Foi o fim”, desabafou. A gota d’água do relacionamento foi o início de um pesadelo. A mulher contou que, ao sair de casa, o homem levou folhas de cheque dela e arquivos dos clientes.

Segundo as investigações da Polícia Civil, Pedro Jacobi foi até uma loja do ParkShopping, em 26 de junho, e comprou um relógio da marca Rolex por R$ 187,6 mil divididos em sete cheques de R$ 26,8 mil. No momento de efetuar o pagamento, apresentou a certidão de casamento e uma procuração para convencer o vendedor de que tinha aval para utilizar os cheques em nome da esposa.

Em depoimento aos investigadores, o vendedor afirmou que três horas depois da venda, recebeu a ligação de uma concessionária de veículos de luxo informando que Pedro Jacobi estava tentando passar o objeto pela metade do preço ou trocá-lo por um carro. Desconfiado, o funcionário passou a procurar o cliente para pedir a devolução do produto. As buscas, entretanto, não tiveram êxito.

Roubo de informações
Ainda de acordo com o inquérito, o homem copiou dados sigilosos dos clientes e da empresa da advogada e começou a chantageá-la em troca da não divulgação pública das informações. Pedro, por intermédio do pai, que também é investigado, teria marcado uma reunião para negociar a separação. Segundo a denúncia, chegou a se encontrar com a nora e apresentar um dossiê com informações sigilosas. A dupla teria pedido R$ 1 milhão, um carro e uma casa para devolver os documentos.

Extratos que comprovam as transferências, cheques, mensagens de ameaça enviadas para a vítima assim como as cópias dos cheques entregues na loja são analisados por policiais civis. Segundo o apurado pelos investigadores, as ameaças se estenderam à mãe da vítima, uma desembargadora federal aposentada.

Sei que vai ser muito difícil ele devolver esse dinheiro, mas desejo que pague pelo que fez e que isso não se repita com outras pessoas. Agora, entendo que foi tudo premeditado. Eu pensei que estava vivendo um casamento, mas, para ele, era um negócio"
Desabafo da vítima à reportagem

Ainda de acordo com a advogada, após o término do relacionamento, ela encontrou uma mochila com duas armas em casa. Também descobriu que havia uma escuta instalada atrás da cama e que o sistema das câmeras de segurança do imóvel onde mora com os dois filhos era constantemente acessado por pessoas de fora. “Fiquei aterrorizada. Comprei uma passagem internacional e passei uns dias fora. Porém, ele passou a ligar nas recepções dos hotéis em que me hospedei. Pensei que ia morrer, me sentia monitorada o tempo inteiro. Até que descobri que tinha um aplicativo instalado no meu celular que o avisava onde eu estava”, lembrou.

A mulher conseguiu na Justiça uma medida protetiva de urgência que manda os investigados, pai e filho, ficarem longe dela. Pedro, então, enviou uma foto da decisão judicial para a advogada e disse: “Espero que tenha noção da gravidade de tudo isso e no que implica”.

Medo
A rotina da advogada mudou completamente. Trocou os carros, por medo de ser perseguida, contratou seguranças e tenta reunir forças para voltar ao trabalho.

Sei que muitas pessoas pensam ‘como uma advogada caiu nesse golpe?’. Mas se coloquem no meu lugar. Ele era o meu marido. Se ele pedisse o meu celular para fazer uma ligação, eu ia negar? Pensar que ele ia instalar um GPS? Se fosse me buscar mais cedo e esperar no meu escritório, ia dizer para não ir porque senão ele ia roubar todos os meu dados? Ninguém imagina que vai passar por isso. Ainda estou me recuperando e assimilando o que aconteceu"
Vítima

O Metrópoles tentou contato telefônico com os acusados por dois dias. Mas as ligações caíram na caixa postal, onde foram deixados recados. A reportagem esteve na chácara em que moram pai e filho, em Brazlândia. Ninguém atendeu a campainha. No portão, havia uma intimação para que Pedro fosse à delegacia depor.

Apesar de intimados, nenhum deles se apresentou para depor. A polícia tenta, em vão, encontrá-los. Os advogados de defesa dos dois foram acionados, mas não se manifestaram até esta publicação.

 

 

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