Aids não tem idade. Em apenas um ano, DF registra 1.200 novos casos da doença. Aumento entre jovens preocupa

Especialistas e órgãos governamentais acreditam que é preciso renovar as formas de abordagem entre o público adolescente

O dado preocupa. Apenas em 2015, a Secretaria de Saúde registrou 1.200 novos casos de aids no Distrito Federal. O número é 20% maior do que os 998 registrados no ano anterior. Chama a atenção o aumento significativo no número de jovens infectados pelo HIV no DF. De seis casos registrados em 2009, a quantidade de pessoas entre 15 e 19 anos infectadas saltou para 40, segundo o último dado divulgado. Atualmente, cerca de 10,9 mil pessoas estão em tratamento na cidade. E entre 2009 e 2014, 719 brasilienses morreram vítimas da doença.

Diante do quadro e para cumprir as metas pactuadas na Declaração de Paris, do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids), assinada pelo Governo do DF em dezembro do ano passado, um novo plano de trabalho está sendo elaborado. O objetivo é reduzir os casos da doença na capital do país.

“As pessoas sabem que o tratamento existe e, por isso, estão menos preocupadas com a transmissão do vírus. Mas a Aids ainda mata a longo prazo, e a doença não tem cura. Por isso, é importante fazer um forte trabalho de enfrentamento à doença”, alerta a diretora da Unaids, Geogiana Braga-Orillard. “Nós vamos oferecer o apoio necessário para fazer esse trabalho. Essa é uma questão grave e precisamos unir esforços”, completa o secretário de Saúde, Fábio Gondim.

Jovens
Para o coordenador do Programa de Combate DST/AIDS da Secretaria de Saúde, Sérgio D’Ávila, os dados mostram que é preciso retomar e repensar estratégias de combate à doença. “Apesar de ser mais concentrada em faixas etárias mais velhas, o crescimento entre os jovens nos traz uma preocupação em retomar a conscientização”, analisa.

Os motivos apontados para o crescimento no número de casos são diversos. Para a presidente da organização não governamental Vida Positiva, que auxilia portadores do HIV, ainda há desinformação entre os jovens. “Por mais que a tecnologia ofereça a possibilidade de acesso a conteúdos sobre o tema, os adolescentes não se sentem motivados a procurar sobre o assunto. Campanhas mais efetivas para essa idade devem ser retomadas”, aponta Vicky Tavares.

Outro ponto ressaltado por Vicky é a banalização da doença, sem a devida atenção quanto às consequências que ela traz.

Com os avanços no tratamento, muitos jovens acham que não precisam se preocupar com a Aids. Mas como mãe de uma portadora, sei o quanto é difícil lidar com os medicamentos, muito fortes, além do preconceito que cerca quem tem essa condição. Se as pessoas soubessem mais, se cuidariam melhor.

Vicky Tavares, presidente da ONG Vida Positiva

A visão é compartilhada por D’Ávila. “A redução na mortalidade de portadores gera uma sensação de menor ameaça, de controle. Mas é preciso mostrar que a Aids ainda não tem cura e é um problema de saúde pública”, afirma o coordenados da Secretária de Saúde.

Mudanças no combate
A estratégia do medo, porém, é questionada por Gabriel Estrëla, coordenador do projeto Boa Sorte, que auxilia na conscientização da Aids por meio da cultura. “A questão vai além da própria doença. O combate passa por uma evolução na educação sexual dos jovens. Não se fala de sexo nas casas, escolas, trabalho como se deveria. Uma mudança de mentalidade, com novas referências de sexualidade é necessária”, acredita Estrëla, de 23 anos e que há cinco descobriu ser portador do HIV.

Para D’Ávila, a mudança também é necessária e exige a participação de diversos órgãos governamentais. “É preciso a devida atenção a quem está iniciando a vida sexual. É um desafio muito grande, mas deve-se incrementar o debate sobre o sexo, incluindo temas ainda considerados tabus, como a homossexualidade e a transexualidade.

Para isso, não basta a mobilização da Saúde. Educação, Cultura, Assistência Social também devem fazer parte no controle da Aids”. Segundo o coordenador da Secretária de Saúde do DF, a pasta tem recebido orientações das Nações Unidas quanto a melhores estratégias de combate a doença e buscará o quanto antes parceria com outros órgãos para a discussão do tema.

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Tratamento Divulgado
De olho no público jovem, uma novidade foi adotada nas campanhas de combate a Aids no carnaval: a chamada profilaxia pós exposição, ou PEP. De acordo com profissionais da área, após uma situação de risco, o indicado é buscar orientação numa unidade de saúde para fazer o teste.

No mesmo local, o profissional avalia a necessidade de realizar a PEP, que consiste em um tratamento com antirretroviral por 30 dias (mais acompanhamento por 3 meses) caso tenha tido uma situação confirmada de risco. A realização de testagem para o HIV é um direito dos usuários do SUS.

Metas
O documento assinado pelo Governo do DF prevê o alcance das metas 90-90-90 do Unaids, que significa diagnosticar pelo menos 90% das pessoas que vivem com a doença; 90% delas recebendo tratamento antirretroviral; e 90% de quem está em tratamento antirretroviral com carga viral indetectável, ou seja, com menor risco de transmissão do HIV para outras pessoas.