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Após uma longa vistoria em toda a área do desabamento de um viaduto no Eixão Sul na manhã de terça-feira (6/2), um dos engenheiros do Governo do Distrito Federal (GDF) afirmou ao Metrópoles que o “problema é maior do que parece”. Segundo o especialista, que pediu para ter o nome preservado, apenas um dos cinco pilares de sustentação do viaduto cedeu. E, de acordo com ele, uma primeira avaliação apontou que toda a estrutura foi afetada. Há risco de novos desabamentos, por isso a determinação de manter toda a área do viaduto isolada até o dia 19.

A situação desafia os engenheiros. O pavimento caiu em bloco, e isso dificulta a retirada do concreto do desmoronamento. Uma demolição parcial afetaria ainda mais as estruturas que ainda não cederam. A opção é derrubar todo o viaduto, o qual tem mais de 180 metros de extensão, seis pistas e passa sobre o comércio da Galeria dos Estados e uma linha do Metrô-DF. Além disso, há dois viadutos próximos que poderiam ser afetados – sendo um deles o Buraco do Tatu.

Uma força-tarefa de engenheiros foi convocada para buscar alternativas. Na manhã desta quarta-feira (7/1), especialistas do GDF, da Universidade de Brasília (UnB) e do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea) se reunirão para definir qual será a melhor opção para resolver o problema. A previsão, de acordo com os engenheiros ouvidos pelo Metrópoles, é que a estratégia seja definida ainda hoje e os trabalhos comecem imediatamente.

O foco dos órgãos governamentais, ao longo dessa terça (6), foi avaliar a ocorrência e identificar situações de risco. Foram retirados botijões de gás de dentro da churrascaria Floresta, restaurante parcialmente destruído no acidente. Também puderam ser removidos os carros que estavam estacionados embaixo do viaduto e escaparam do desabamento. Duas retroescavadeiras foram transportadas para o local, mas as máquinas ainda não precisaram ser utilizadas.

Representantes do Crea-DF e do Sindicato dos Engenheiros da Construção Civil (Sinduscon) defenderam que a estrutura do viaduto do Eixão Sul seja completamente demolida. “O risco de escorar é imenso e ameaça a vida de trabalhadores. A melhor solução é demolir tudo”, defendeu Fátima Có, presidente do Crea-DF.

O desabamento
O acidente que apavorou a população da capital do país ocorreu por volta das 11h50 de terça (6). Dezenas de carros no Eixão Sul tiveram de retornar no meio da via, que foi interditada, após duas faixas do asfalto cederem. 

Veja fotos:

 

Segundo o Corpo de Bombeiros, não houve feridos. Cães farejadores percorreram a região em busca de vítimas. Logo após a estrutura despencar, fotos e vídeos inundaram as redes sociais. As pessoas não acreditavam no que viam: o asfalto desmoronado em plena área central de Brasília.

“Parecia coisa de filme”, disse o bancário Jonatas Almeida, 43 anos, que costuma passar pelo local quase todos os dias, a caminho do trabalho.

José Ferreira do Nascimento, 42, trabalha como lavador de carros no local há 25 anos. “Ouvi só um estrondo. Foi um susto muito grande”, relatou. “Era uma tragédia anunciada. O viaduto tinha muitas rachaduras e infiltrações. Quando os carros pesados passavam, a estrutura tremia”, contou ao Metrópoles.

Veja vídeo feito após o desabamento:

 

Vaias
O governador do Distrito Federal esteve no local e admitiu: o viaduto não passou por manutenção. Rollemberg foi vaiado pela população ao chegar no local do acidente. A indignação das pessoas encontrava eco na opinião de especialistas, os quais apontaram negligência histórica dos últimos gestores que passaram pelo Palácio do Buriti.

Professor de engenharia civil na Universidade de Brasília (UnB) e presidente da Infrasolo, empresa especializada em patologia de edificações, Dickran Berberian explicou que a falta de manutenção nos últimos anos agravou a situação. De acordo com ele, o apoio de uma viga deve ter cedido, ocasionando o desastre.

“Segundo a minha experiência, em casos de desabamentos, a estrutura dá um sinal ou tremor, um barulho. O que caiu não foi uma viga, foi o apoio dela. Acredito que esse viaduto não tenha passado por vistoria. Caso contrário, o governo teria detectado o problema”, disse.

Em sua avaliação, “o maior inimigo de qualquer edificação é a água. Desabamentos são mais propícios a ocorrer nessa época de chuva. Se tiver alguma infiltração, os materiais que compõem o viaduto podem ser comprometidos”.

Como foi a operação logo após a queda do viaduto
Assim que as autoridades tomaram conhecimento do acidente, foram enviadas quatro unidades de socorro do Corpo de Bombeiros ao local, duas de suporte, duas “motolâncias” e um caminhão para atender múltiplas vítimas, mas não houve necessidade, pois não havia feridos. Os hospitais de Base (IHBDF) e o da Asa Norte (HRAN) ficaram de prontidão.

A major Lorena Ataídes, do Corpo de Bombeiros, informou que a prioridade foi a busca por eventuais pessoas sob os escombros. “Fizemos todos os procedimentos para tentar localizar vítimas, contamos com o uso de cães farejadores, tentamos contato telefônico. Até o momento, é uma possibilidade descartada. Isolamos o local com uma distância de 20 metros para todos os lados. Vai permanecer assim até que os engenheiros analisem o risco de mais desabamentos.”

A Polícia Militar permaneceu na localidade, mantendo a segurança da área com cerca de 30 policiais, incluindo os especialistas em trânsito e motociclistas. Trechos do Eixão Sul foram fechados próximo ao Buraco do Tatu Norte, assim como as tesourinhas do Setor Bancário e os eixos L e W.

O diretor do DER-DF, Henrique Luduvice, afirmou que o órgão atuará em força-tarefa junto à Novacap e à Secretaria de Infraestrutura para recuperar a área. “Primeiramente, no escoramento do viaduto e análise da estrutura, para que possamos oferecer à população a solução mais adequada e mais correta, sob o ponto de vista da intervenção necessária nesse viaduto”, disse.

Ainda de acordo com o gestor, será feito um desvio no trânsito para garantir os deslocamentos no centro do Plano Piloto. No entanto, ele admitiu que o tráfego deve ficar mais complicado com a ausência do viaduto.

A titular da 4ª Promotoria de Justiça de Defesa da Ordem Urbanística (Prourb), do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), Marilda dos Reis, disse que irá solicitar informações à administração do Plano Piloto para verificar se algum diagnóstico próprio previa a queda de parte do viaduto. Somente depois, o órgão deve se manifestar sobre o assunto.

Tragédia anunciada
A deterioração das estruturas já foi alvo de relatório elaborado pelo Sindicato de Engenharia e Arquitetura (Sinaenco). Nove viadutos do Distrito Federal avaliados pela entidade entre os anos de 2009 e 2011 apresentaram problemas, além das pontes do Bragueto, das Garças e a JK. Foram detectados desde ferros expostos e infiltrações até descolamento do concreto e fendas abertas.

Após ficar oito anos sem manutenção, a Ponte JK recebeu a atenção do Governo do Distrito Federal em 2011, quando uma das peças de apoio da estrutura teria se desgastado. Devido a isso, a pista oscilava com a passagem dos veículos, abrindo uma fissura que ultrapassou 4cm de largura.

Reforçada duas vezes, a Ponte do Bragueto é outra estrutura que pede socorro. É possível ver trincas na laje inferior e ondulações na parte superior.

O acidente dessa terça (6) ocorreu dois dias após o desabamento da laje de uma garagem na 210 Norte. No domingo (4), o piso despencou sobre 23 carros.