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Realizada há 34 anos, a Feira Internacional do Livro de Brasília pode ter sua imagem arranhada por um áudio enviado pelo presidente da Câmara do Livro, Ivan Valério, na madrugada de sábado (9/6). Na mensagem, repassada via aplicativo de celular, Valério justifica – segundo ele, com uma “mentira” – não ter convidado voluntários para trabalhar na edição deste ano porque uma deputada teria indicado 50 apadrinhados.

Ainda de acordo com Ivan Valério, a medida seria uma contrapartida pela liberação de recursos de uma emenda destinada à feira.

“Gente, bom dia. Aqui é o Ivan quem está falando. Eu não entrei em contato antes para convidá-los por conta da correria, porque teve uma deputada que nos ofereceu uma emenda e pediu que contratássemos 50 pessoas dela. Então, imagina: 50 [indicados] da deputada mais o pessoal voluntário. Iria ficar muito cheio”, justificou Valério no áudio, sem dizer o nome da suposta parlamentar.

Ivan Valério prossegue em seu relato e reclama que, mesmo após a solicitação, os apadrinhados da política não apareceram para trabalhar no evento, iniciado na última sexta-feira (8). Ao contrário dos voluntários, os apoiadores da deputada receberiam pelo trabalho na feira.

“Terminou que nem voluntários nem as 50 pessoas que ela iria mandar [chegaram]. Não sei se ela vai mandar ou como vai ser. Infelizmente, essa coisa de política é terrível. Eu peço desculpas a vocês por não ter lançado o convite, por não ter chamado cada um de vocês, tá? Foi só por esse motivo”, conclui Ivan na gravação.

Ouça o aúdio:

Emendas
Duas emendas foram apresentadas para a realização da edição de 2018 da Feira do Livro, que vai de 8 a 17 de junho. A primeira, do deputado distrital Ricardo Vale (PT), destinou R$ 250 mil. Já a segunda, de R$ 500 mil, foi proposta por Telma Rufino (Pros). As duas devem ser executadas pela Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer.

Para os voluntários que receberam a mensagem na madrugada de sexta-feira (8/6) para sábado (9), Telma seria a “deputada” apontada por Ivan Valério no áudio.

Pedido
Apesar de Ivan ser o autor do áudio que criou a polêmica, o responsável por solicitar a emenda a Telma foi o presidente do Instituto Latino-Americano, Atanagildo Brandolt, também organizador do evento.

Atanagildo esteve no gabinete de Telma e justificou o pedido de emenda sob risco de a Feira do Livro não ocorrer, uma vez que, em 2017, outros verbas dos distritais tiveram a execução cancelada às vésperas do início do evento. O argumento, de acordo com ele, teria convencido a parlamentar sobre a destinação dos recursos.

Procurado pela reportagem, Ivan Valério contou que o áudio foi enviado por ele como uma forma de explicar “a correria” com os preparativos da feira e, segundo ele, os fatos não são verdadeiros.

“Eu esqueci de convidar as pessoas que queriam ser voluntárias e quis justificar o esquecimento. Então, eu falei que tinha uma proposta de uma deputada. Mas você pode ver que não tem ninguém aqui. Isso partiu de mim. Eu só quis dar uma justificativa para o pessoal”, disse Ivan Valério, que está à frente da Feira Internacional do Livro de Brasília há quatro anos.

“Nunca ganhei dinheiro com isso. Até tiro do meu bolso. Ano passado, o evento estava orçado em R$ 1,5 milhão, tive que fazer com R$ 270 mil”, completou.

Já conforme Atanagildo Brandolt afirmou, a denúncia é feita por adversários que tentam acabar com a Feira do Livro, e as contratações são feitas todas de acordo com a lei. “A feira é feita há 34 anos com apoio da comunidade. Essa matéria será uma contribuição extraordinária para acabar com o pouquíssimo de cultura que nós temos.”

“O Instituto Latino-Americano nunca respondeu a uma ação na Justiça, nem para se defender. As contratações não são individuais, sendo todas por contrato, para atender a legislação. As emendas, para serem executadas, precisam de planilhas e serem previamente aprovadas, seguindo os parâmetros”, declarou Atanagildo Brandolt.

Deputada cancelará emenda
A distrital Telma Rufino protestou contra as declarações, disse não conhecer Ivan Valério e garantiu que irá processá-lo. Comprovada a autenticidade do áudio, a deputada ressaltou que pedirá o cancelamento da execução da emenda destinada por ela.

Em nota, a assessoria da parlamentar confirmou que a emenda foi tratada diretamente com o Instituto Latino-Americano devido à dificuldade de captação de recursos. “Telma Rufino desmente o áudio feito pelo presidente da Câmara do Livro, pessoa com quem ela nunca manteve contato”, afirmou a equipe da deputada.

Ainda conforme a assessoria de Telma, ao contrário do dito no áudio, ninguém foi mandado por ela para trabalhar no evento. “É preciso responsabilidade ao fazer qualquer tipo de ilação, evitando prejuízos à imagem das pessoas. Caso necessário, acionaremos a Justiça”, concluiu.