Laranjal no DF? Candidatas do PSDB que receberam bolada tiveram votação pífia

Um dos casos que chamam atenção é de uma postulante à CLDF beneficiada com mais de R$ 150 mil do ninho tucano para obter apenas 103 votos

atualizado 13/02/2019 15:21

PSDB/Divulgação

Na esteira das suspeitas de candidaturas laranjas reveladas pela imprensa nos últimos dias, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) do Distrito Federal atrai atenção pela quantidade de mulheres que disputaram as eleições de 2018 e conquistaram votação pífia.

Embora tenham sido turbinadas com quantias invejáveis da direção nacional do ninho tucano – e até mesmo de colaboradores –, o resultado final na corrida a diversos cargos eletivos foi desproporcional aos investimentos recebidos.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), candidaturas “com votação ínfima ou não existente” podem indicar o que a Corte considera como “candidaturas laranjas”.

Uma das campanhas de destaque foi da professora derrotada ao Senado Amábile Pacios. Apesar de ter disputado pelo PR, ela recebeu da cúpula nacional tucana R$ 300 mil. A legenda tinha concorrente à mesma vaga no DF: o ex-deputado federal Izalci Lucas – que se elegeu senador. Os dois fecharam uma coligação, mas o próprio partido dela não acreditou tanto assim no projeto político: doou apenas R$ 20 mil para a campanha majoritária.

Embora o PR não tenha feito doações generosas para a ex-candidata, outra pessoa que acreditou bastante no projeto foi o empresário Luiz Felipe Belmonte dos Santos: ele doou R$ 1,19 milhão para a professora aposentada, segundo o TSE.

O fato curioso é que Belmonte, filiado ao PSDB, é o primeiro suplente do senador Izalci Lucas, o qual disputava com Amábile a cadeira no Senado. Historicamente, Amábile é uma fiel aliada do tucano e eles militavam juntos na área educacional, inclusive no próprio PSDB, sigla à qual já foi filiada.

A percepção do PR tinha fundamento: mesmo com tantas investidas de apoiadores e dos partidos, a professora aposentada ficou em penúltimo lugar ao Senado Federal: a 13ª colocação. A docente terminou com pífios 43.089 votos.

Reprodução / TSE
Amábile recebeu mais de R$ 1 milhão do primeiro suplente de Izalci e R$ 300 mil do PSDB. Do partido dela, o PR, obteve R$ 20 mil

 

Vencedor na corrida ao Senado, Izalci recebeu R$ 1 milhão do PSDB nacional. Do seu primeiro suplente, Luiz Felipe Belmonte, obteve valor parecido com o ofertado à concorrente Amábile: R$ 1,48 milhão. O empresário é marido da deputada federal Paula Belmonte (PPS-DF). Da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência, o tucano angariou mais R$ 1 milhão.

Denúncias parecidas atingem o PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro. Nos últimos dias, a Folha de São Paulo publicou reportagens mostrando que a legenda teria criado candidaturas supostamente laranjas para usar verbas públicas.

Nesta terça-feira (12/2), a Polícia Federal intimou a prestar depoimento a então candidata a deputada federal Maria de Lourdes Paixão, 68, supostamente usada como laranja pelo PSL nacional. Ela obteve apenas 274 votos, mas foi agraciada com quantias vultosas.

CLDF
Das nove mulheres que se candidataram a uma vaga para a Câmara Legislativa (CLDF) pelo PSDB local, Mônica Alvares ficou na penúltima colocação. A tucana conquistou apenas 103 votos. Apesar do baixo desempenho, ela foi uma das apostas do PSDB para disputar a sonhada cadeira no Legislativo local.

De todos os recursos que a candidata derrotada recebeu, 94,13% foram do PSDB nacional: uma bolada de R$ 158.995,35. Para se ter ideia, cada voto dado à tucana custou mais de R$ 1,5 mil para o partido.

O valor é considerado alto se for comparado com o relacionado ao deputado distrital que recebeu mais sufrágios em outubro de 2018. Martins Machado (PRB) foi a escolha de 29.457 eleitores e gastou R$ 276.941,38, o que representa um custo de R$ 9,4 por voto recebido.

Reprodução TSE
Candidata derrotada à CLDF, Mônica Alvares recebeu mais de R$ 158 mil da Executiva nacional do PSDB, mas obteve apenas 103 votos

 

Outros casos se assemelham ao de Mônica Alvares. A tucana Noemi Baruzzi herdou montante parecido da correligionária: R$ 148 mil do comando nacional do PSDB e outros R$ 8,4 mil do diretório regional. Com apenas 392 votos, Noemi não conseguiu ser eleita.

A ex-candidata Lúcia Félix, também do PSDB, recebeu quantia menos farta do diretório nacional da sigla – R$ 25.675,00 – e outros R$ 6,4 mil do local. No final da corrida, a tucana obteve 242 votos.

Das nove candidatas do PSDB-DF, pelo menos quatro delas não apresentaram a prestação de contas e estão inadimplentes com a Justiça Eleitoral. São elas: Kellynha da Estrutural, Lucimara Fagundes, Mara de Todos e Professora Helcimar. Das que declararam recursos ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-DF), Elayne Thiago foi a menos abonada. A tucana recebeu R$ 6.875 do partido nacional e outros R$ 4 mil da regional tucana. Ela conquistou 22 votos.

Recursos para candidaturas femininas
De acordo com a Justiça Eleitoral, a minirreforma política de 2017 determinou que 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha fossem destinados às candidaturas femininas, bem como 30% do tempo de propaganda eleitoral.

A decisão foi tomada em resposta à consulta pública apresentada por 14 parlamentares depois de julgamento do Supremo Tribunal Federal que, em 15 de março, equiparou a repartição do Fundo Eleitoral à cota de candidaturas femininas por partidos.

“Prestígio”
Presidente do PSDB-DF, o senador Izalci Lucas afirmou que o desempenho das mulheres no partido melhorou após a determinação da lei. Segundo o tucano, os valores estabelecidos para as candidaturas foram definidos diretamente pela nacional partidária. “Elas fizeram cursos de capacitação política e ajudas de custo, mas esses valores significam meramente prestígio para aquelas que se apresentaram melhor para a Executiva nacional. Na minha última campanha, quando fui eleito como deputado federal, recebi apenas R$ 200 mil para a minha campanha e venci”, frisou.

Sobre a candidatura de Amábile, o senador pelo DF esclareceu que a concorrente era filiada ao PSDB, mas acabou mudando de última hora para o PR. “A nossa ideia inicial era de que ela fizesse uma chapa pura do PSDB para o Senado. Todo mundo sabia que eu queria vê-la eleita, mas não foi o que aconteceu. Fizemos uma dobradinha para a vitória, mas a candidatura prioritária era a minha. Não conseguimos dar para a Amábile o que o Rollemberg depositou na Leila. Não houve armação alguma. Era para ela ter sido eleita.”

De acordo com a advogada Luciana Loureiro, coordenadora jurídica do PSDB-Mulher, braço da sigla responsável pelas postulantes femininas, o partido foi “rigoroso” no combate às candidaturas laranjas, por determinação da ex-governadora do Rio Grande do Sul e presidente do PSDB-Mulher, Yeda Crusius. “Ela esteve pessoalmente com a presidente do TSE, Rosa Weber, e firmou o pacto contra essa prática”, disse.

Segundo a tucana, o partido encara como “laranja” a mulher que não tem intenção de ser candidata e, mesmo assim, é colocada na legenda para cumprir a cota dos 30% exigida por lei, o que, na visão de Luciana, não ocorreu no PSDB do DF.

“Percebemos, contudo, que só o dinheiro não adianta, não reverte em voto. O PSDB se preocupou muito com o suporte para todas as candidatas mulheres. Demos respaldo jurídico, contábil e toda a estrutura das campanhas. Não temos conhecimento de candidaturas laranjas e até combatemos isso veementemente”, declarou.

O outro lado
O Metrópoles procurou cada um dos citados na reportagem. O empresário Luiz Felipe Belmonte afirmou não enxergar irregularidade nos processos. “Essa eleição era para dois senadores, portanto a Amábile não era nossa concorrente. Quem não esteve conosco na coligação era adversário, não ela. A Amábile é uma militante na área educacional, mas não tinha uma publicidade grande, e o meu aporte foi por isso. Quanto mais conhecida ela ficasse, menos votos nossos reais concorrentes teriam.”

Segundo Belmonte, a doação esteve dentro dos limites previstos na legislação eleitoral. “O valor estava dentro dos limites legais. Não tenho problema legal, porque a lei me permitiu; não tenho problema moral, porque ela era da minha coligação; e não tenho problema ético com isso, porque foi uma estratégia para torná-la conhecida e, assim, tirar votos de nossos concorrentes reais”, disse.

Já a psicóloga Mônica Alvares negou ter ingressado apenas a fim de beneficiar os candidatos majoritários do partido. “Na verdade, na minha primeira eleição, a gente precisa sair do anonimato e, para isso, atingir um grande número de votos é quase impossível. É um trabalho a longo prazo. Ainda sou nova na política, mas tenho um cenário longo para conquistar votos. Para isso, não é só questão financeira, é difícil alcançar a vitória”, explicou.

“Canalhice pura do PSDB”
Ao aceitar conversar com a reportagem, Lúcia Félix afirmou ter havido “canalhice pura do PSDB-Mulher” e culpa a coordenadora jurídica da sigla. “O PSDB-Mulher recebeu o terceiro maior montante de recursos para mulheres. Não adianta ter mulher na política sem ter verba na campanha. A Luciana direcionava o recurso para quem ela queria.”

Segundo ela, Izalci teria usado a verba das mulheres para turbinar a pré-campanha dele. “Não tivemos cursos, como ocorria anteriormente no partido. O que recebi foi para que meu material tivesse a foto do Geraldo Alckmin. Não deram nada para mim, apenas para quem era ligada ao Izalci. Tudo era apenas direcionado ao projeto do Izalci, e minha campanha se tornou um fiasco”, revoltou-se.

De acordo com a ex-candidata, o material de Amábile foi “chulo” e não correspondeu aos investimentos milionários que recebeu. “O dinheiro foi depositado na campanha dela, mas usado para a campanha do Izalci. Aliás, todas as campanhas do partido foram para beneficiar a candidatura dele. Não quero mais depender de partidos para nada.”

Procurada, Amábile Pacios não atendeu as ligações da reportagem. Contudo, durante a campanha, chegou a ser questionada pelo Metrópoles sobre os aportes recebidos do suplente de Izalci. Ela reafirmou que a candidatura dela “era para valer” e que “a doação foi uma questão partidária, pelo fato de a suplente dela também ser do PSDB”, disse. A educadora sustentou ainda, na entrevista, que o dinheiro seria usado exclusivamente na campanha dela.

As demais ex-candidatas citadas foram procuradas pela reportagem, seja por meio do partido ou por telefone, mas não atenderam e também não retornaram as ligações do Metrópoles.

PSDB-Mulher
Após publicação da reportagem, a direção nacional do PSDB-Mulher enviou nota ao Metrópoles para esclarecer que o partido “não teve nenhuma candidata laranja em 2018”. Segundo o texto, os valores de doações às candidatas tucanas na eleição de 2018 foram estimados referente ao “kit candidata”, ” oferecido a todas as tucanas que manifestaram interesse em ter acesso a esse material”. Ainda de acordo com a legenda, “as candidatas que não quiseram kit receberam apoio financeiro básico”.

Ainda segundo o PSDB-Mulher, o partido “seguiu rigorosamente os critérios públicos estabelecidos pela Justiça Eleitoral, conforme nossa prestação de contas”. A ala feminina da sigla também reforçou que foram feitos cursos para as postulantes. “Sentimos muito pelas informações distorcidas que foram passadas para reportagem, pois quem as passou sabia exatamente dos critérios para a distribuição dos recursos do fundo eleitoral”.

“Recursos, por si só, não garantem votos. A votação de cada candidata condiz com sua própria realidade política, mas não pode impedir que aquelas que tenham interesse em participar sejam vetadas por conta da pouca experiência política”, escreveu a presidente do PSDB-Mulher, a ex-governadora do Rio Grande do Sul Yeda Crusius.

 

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