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Diferentemente das outras eleições, o brasiliense em 2018 terá menos tempo para escolher o candidato que merecerá o voto de confiança no pleito de outubro. Com as mudanças das regras eleitorais, o tempo oficial da campanha será reduzido pela metade: dos 90 dias anteriores, passa a ter 45.

As novas regras, contudo, dividem opiniões sobre a real capacidade de o eleitorado assimilar as propostas de cada um dos 36 postulantes que serão escolhidos pela população do Distrito Federal: governador, vice, dois senadores, oito deputados federais e 24 deputados distritais.

Entre os mais experientes na política, a reforma eleitoral beneficia justamente os atuais mandatários. Contudo, há também aqueles que garantem que, com um tempo menor, os gastos com a campanha serão reduzidos, fato que por si só já seria vantajoso para a população.

Apesar das diferentes opiniões, os possíveis candidatos ainda avaliam o real impacto das alterações no resultado das urnas, visto que o período eleitoral estipulado pela lei começará oficialmente no dia 15 de agosto.

O que dizem os políticos
Mesmo com a pré-candidatura ao Buriti consolidada, Jofran Frejat (PR) enfrenta a instabilidade de possíveis aliados.

Todo esse período não é saudável. As negociações seguem em aberto, e o tempo para falar com a população será realmente muito curto"
Jofran Frejat, pré-candidato ao GDF

A opção tem sido aliar os encontros políticos a reuniões com possíveis eleitores. “Enquanto isso, estamos mantendo uma agenda intensa para conversar com a população, ouvir as demandas, pensar em soluções”, contou.

Outro postulante ao Governo do Distrito Federal, o deputado federal Izalci Lucas (PSDB) acredita que grande parte da população, independentemente do prazo, se preocupa com a eleição apenas nas vésperas de ir às urnas. “O número de indecisos hoje ainda é muito grande, exatamente porque aquele trabalhador que levanta de manhã, pega ônibus para trabalhar e voltar para casa não está pensando na política ainda”, sustenta.

Para o possível adversário do tucano, o ex-deputado distrital Alírio Neto (PTB), a reforma beneficiou apenas quem está no poder.

“Só acredito que uma reforma dessa seja boa para o povo quando os participantes das discussões não se beneficiem das próprias deliberações. Uma reforma de respeito tem de ser convocada em eleições exclusivas para o assunto e proibir que os legisladores possam ser reeleitos”, defende.

 

Benefício aos mandatários
Possível concorrente ao Senado Federal, o deputado federal Alberto Fraga (DEM) engrossa o coro dos que são contrários à reforma eleitoral aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Michel Temer (MDB). O parlamentar criticou a redução do tempo, visto que, oficialmente, é o período em que os eleitores estarão mais atentos aos discursos.

“Eu acho ruim, porque se fala tanto que ninguém conhece os candidatos que são eleitos, mas favorecem justamente aqueles que já estão com o mandato. Ao meu ver, a emenda ficou pior que o soneto, principalmente porque as pessoas não gostam de votar em pessoas que elas não conhecem, preferem sempre os mesmos”, disse o parlamentar.

Para Rogério Rosso (PSD), deputado federal que deve concorrer à reeleição, apesar da redução do contato entre o eleitor e o político, a população já começa a saber os nomes colocados na disputa. “Com o advento das redes sociais e a democratização do acesso às informações digitais, hoje, a população e o eleitor sabem quem é quem. Eu vejo como natural essa redução do tempo, que implica também na diminuição dos gastos eleitorais”, defendeu o parlamentar.

Para o congressista, a atual quantidade de indecisos – mais de 50% dos eleitores, segundo levantamentos recentes –, revela que a população decidirá o voto durante a campanha oficial. “Percebemos, com isso, que existem prós e contras nessa reforma. Apenas na hora da campanha que vamos realmente saber o impacto dessa nova regra”, completou.

Estreante na política, apesar de ter ocupado cargos públicos em boa parte da vida, a ex-secretária-adjunta da Mulher Raíssa Rossiter (PSB) acredita que o desafio será bem maior, ainda mais para os novos concorrentes. “Os candidatos que vão disputar a reeleição já têm um recall, mas para quem vai estrear, teremos um tempo menor. Como vamos levar em conta o respeito à legislação eleitoral, teremos o nosso contato com o eleitor bastante restrito”, argumenta.

No entanto, Raíssa avalia que o desejo da população por mudança é latente, e isso implicará diretamente na hora da escolha. “Por outro lado, tem essa tendência que vem sendo apontada como um desejo da população pela renovação, principalmente do Congresso Nacional. Isso pode ser um ponto de compensação, apesar da redução do tempo”, pondera.

Distritais divididos
Aliados na Câmara Legislativa e correligionários no PDT, os deputados distritais Reginaldo Veras e Cláudio Abrantes também comentaram as mudanças.

“Tudo o que se faz é para que perpetue as estruturas de poder. Essas novas regras só servem para minimizar a possibilidade de renovação. O candidato novo só terá chance se ele tiver algum trabalho de longo prazo”, destacou Veras.

Abrantes acredita que “a reforma, no plano eleitoral, tem demonstrado ser positiva”. “No entanto, defendo a reforma política para discutirmos além da eleição, a recondução aos cargos por atuais mandatários e a participação feminina. São assuntos que precisam ser discutidos”, argumenta.

Engajamento
O professor e cientista político Aurélio Maduro de Abreu acredita que o eleitor sai prejudicado por ter um período bem menor para conhecer os candidatos que tentarão convencê-lo acerca do voto.

“O eleitor brasileiro ainda não se engaja na chamada pré-campanha, como em outros países, que funciona como uma espécie de filtro”, argumenta.

Para o pesquisador, o momento deve ser de atenção e engajamento em redes sociais para começar a identificar personagens que respondam às expectativas. “Se o eleitor não se atentar, será sem dúvida uma eleição que vai surpreender, justamente repetindo o que aconteceu em Tocantins (TO)”.

Abreu refere-se à recente eleição para o mandato tampão até dezembro de 2018. O então titular Marcelo Miranda (MDB) e a sua vice, Cláudia Lélis (PV), foram cassados pela Justiça por abuso de poder econômico e político. Os eleitores colocaram no segundo turno Mauro Carlese (PHS) e Vicentinho (PR), justamente os dois candidatos que respondem ao maior número de processos entre os concorrentes. Como resultado da primeira etapa da campanha, quase 50% dos tocantinenses aptos a votar optaram por ignorar os candidatos ao cargo.

“Esse curto período de tempo é insuficiente para o eleitor assimilar ideias e isso, sem dúvidas, favorecerá os políticos conhecidos e mais tradicionais. Mesmo com o descrédito que a população está com a política atual, os eleitores terão de fazer escolhas apressadas ou acabarão optando em não votar, fato que deve aumentar a abstenção neste ano”"
Aurélio Maduro, cientista político

 

Arquivo pessoal

Aurélio Maduro: eleitor precisa pesquisar melhor para evitar surpresas nas urnas

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Reforma eleitoral
Aprovadas em outubro de 2017, muitas mudanças previstas na nova legislação eleitoral acontecerão apenas a partir de 2020. No entanto, várias passam a valer para outubro.

Confira:

Propaganda eleitoral: assim como em 2016, as eleições terão duração de 45 dias, não mais 90, como era até 2014. O horário eleitoral gratuito, aquele que passa nas rádios e emissoras de TV, terá duração de 35 dias.

Fora do período eleitoral, não serão mais veiculadas propagandas dos partidos ou candidatos. Para o segundo turno, elas começam a ser transmitidas na primeira sexta-feira após a votação. Antes, iniciavam 48 horas após a votação do primeiro turno.

Limite de gastos: se antes a lei eleitoral não estipulava um limite máximo para os gastos dos candidatos, a partir de 2018 será definido de acordo o cada cargo em disputa.

Fundo eleitoral: composto por dinheiro público, o recurso será divido entre os partidos: 2% será igualmente dividido entre todos os partidos registrados no TSE; 35% entre os partidos que tenham ao menos um representante na Câmara dos Deputados; 48% entre as legendas na proporção do número de deputados na Câmara; e 15% entre os partidos na proporção de senadores, considerando a legenda dos titulares do mandato.

Cláusula de barreira: lei que restringe a atuação e o funcionamento de partidos políticos que não obtiverem determinada porcentagem de votos para o Congresso. Para que os partidos tenham direito a um tempo mínimo de propaganda eleitoral e direito a uma parcela do fundo partidário, eles precisarão alcançar número mínimo de votos registrados no TSE.