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Os policiais civis Agnaldo Soares Rodrigues e Wesley da Rocha cumprem, todos os dias, missões muito especiais nos hospitais do Distrito Federal. Eles são os responsáveis pela tarefa de garantir cidadania a quem não se lembra, muitas vezes, de sua própria identidade.

Agnaldo e Wesley chegam às unidades de saúde munidos de duas maletas. Nelas, carregam laptop, scanner, cabo para internet, papéis. Com esse aparato, colhem as digitais dos pacientes internados sem documentos. Não é raro que essas pessoas tenham perdido suas identidades há muito tempo.

O serviço é oferecido pela seção de Identidade Solidária do Instituto de Identificação da Polícia Civil. Eles trabalham em parceria com assistentes sociais dos hospitais. São essas instituições que procuram a equipe de Rodrigues, única a fazer esse tipo de trabalho no DF. “Atendemos pelo menos dois ou três casos por dia em hospitais, penitenciárias ou nas residências de quem não consegue se locomover”, conta o policial.

“Alguns pacientes chegam às unidades sem memória ou não conseguem informar quem são. Outros perderam os documentos e necessitam de uma segunda via”, conta a chefe da Assistência Social do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), Ana Alice Meirelles. O setor se encarrega de solicitar a ajuda da Polícia Civil e do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) para obter as identificações.

Em busca de direitos
O Metrópoles acompanhou uma visita dos policiais ao HRAN. O primeiro paciente atendido foi Thiago de Souza Pereira, de 24 anos. Com graves sequelas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o rapaz é auxiliado pela mãe, que há dois meses mora no local.

“Ele veio trabalhar em Brasília para um homem que vendia produtos naturais. Depois de cinco meses, começou a ter dores na perna e, um dia, teve o AVC”, conta Terezinha Severino de Souza, que deixou a pequena cidade de Jucás, no interior do Ceará, para cuidar do filho.

Thiago necessita da identidade registrada em Brasília para ter acesso a benefícios sociais, como o de Prestação Continuada (BPC), que provê um salário mínimo a idosos ou pessoas doentes, incapazes de trabalhar. “O documento é fundamental para que a pessoa tenha direitos básicos assegurados”, afirma Ana Alice.

Michael Melo/Metrópoles

Policiais civis colhem as digitais de Thiago, que está internado há dois meses

 

Os policiais coletaram as digitais do paciente sem intercorrências. Ao contrário de alguns pacientes, que muitas vezes não compreendem a tarefa dos agentes, Thiago não deu trabalho. “Às vezes, é preciso ganhar a confiança da pessoa primeiro e isso demanda tempo”, conta Rodrigues.

As impressões digitais são levadas ao Instituto de Identificação, onde serão digitalizadas e inseridas no sistema da corporação para conferir se há registros anteriores já cadastrados. Quando a pessoa atendida não é capaz de reconhecer a si mesma, as digitais são conferidas em bancos de dados de outros estados. “Uma vez conseguimos encontrar no Rio Grande do Sul a família de um senhor que estava internado aqui”, recorda.

Mais cidadania
A equipe também atendeu João Mário de Jesus, de 56 anos. O ex-pedreiro nunca teve carteira de trabalho assinada nem contribuiu para previdência. Com um câncer no sistema respiratório, não pôde mais trabalhar e, após viver na rua, acabou internado no HRAN. Ele só possui a certidão de nascimento e, com isso, não consegue ter acesso a benefícios aos quais tem direito.

Os assistentes sociais do hospital descobriram que João tem cinco filhos e um irmão, morador do Gama. Nenhum deles, no entanto, mantém contato com o ex-pedreiro. “Muitos pacientes são moradores de rua ou usuários de drogas e perderam o vínculo familiar. Cabe a nós tentarmos essa reaproximação ou encaminhar esses doentes a abrigos que os acolham”, afirma Ana Alice.

Com dificuldade para falar, João conta que tentou se registrar antes, mas, segundo ele, o atendente do Na Hora não teria aprovado sua assinatura. Desta vez, o ex-pedreiro conseguiu resgatar sua cidadania. Foi cadastrado pelos policiais, que coletaram todas as digitais do paciente. Rodrigues também anotou que João tem duas tatuagens, uma âncora e uma mulher. “Caso ele seja encontrado novamente em situação de rua, as pessoas podem identificá-lo mais facilmente”, justifica o Agnaldo.

João também assinou seu nome no tablet e tirou foto para completar o cadastro no sistema da Polícia Civil. “Ele até fez a barba para ficar mais elegante”, brinca um companheiro de quarto.

Michael Melo/Metrópoles

Após assinar seu nome, João agradece. “Agora vou poder resolver minhas coisas, muito obrigado”

 

Futuro
São necessários alguns minutos para que os policiais desmontem todo o equipamento. “Como esse processo é trabalhoso, não conseguimos fazer muitos atendimentos no mesmo dia”, explica o policial. Todos os dados são analisados na delegacia antes da emissão dos documentos.

A tendência é que o tempo para realizar esses procedimentos fiquem mais curtos. Um novo equipamento está em fase de testes. Os policiais passarão a utilizar apenas um pequeno tablet para as coletas. “O sistema é pré-instalado, permite tirar a foto, a pessoa assina na própria tela do equipamento, que tem internet móvel”, conta Wesley Rocha. Um pequeno scanner é plugado para captar as digitais e as informações são processadas em tempo real. O objetivo é aumentar a quantidade de pessoas atendidas pelo serviço.

 

 

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