Pichações na reitoria cobram desfecho de assassinato e atacam UnB

As paredes da instituição apareceram pichadas nesta quarta-feira (27/6), quatro dias após a morte do aluno: "Quem matou Jiwago?"

atualizado 27/06/2018 19:51

Hugo Barreto/Metrópoles

Quatro dias após o assassinato brutal de Jiwago Henrique de Jesus Miranda, 33 anos, paredes de prédios da Universidade de Brasília (UnB) no campus Darcy Ribeiro amanheceram pichadas. As frases são de protesto e indignação sobre a morte do estudante de filosofia, cujo corpo foi encontrado no último sábado (23/6) em um matagal perto do Bloco J da Colina. Até o momento, ninguém foi preso.

Os registros em tinta spray expõem revolta. Entre os dizeres, críticas fortes à instituição: “Quem matou Jiwago?”; “Jiwago vive”; “UnB assassina”; e “UnB é genocida”. Outra frase é ainda mais incisiva: “UnB tem tanto sangue nas mãos quanto quem segurou aquela pedra”. O estudante teve o rosto esmagado ao levar pedradas na cabeça.

A maior parte dessas manifestações, que apareceram nesta quarta-feira (27), está no prédio da reitoria da UnB. “Há pichações em alguns prédios do campus Darcy Ribeiro, com referências à morte do estudante Jiwago. Como são recentes, não há levantamento sobre prejuízos”, disse, em nota, a universidade.

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As frases surgiram um dia após cerca de 30 estudantes dos cursos de filosofia e ciências sociais da UnB homenagearem Jiwago de uma outra maneira. Os alunos manifestaram revolta e saudade com cartazes que diziam “Jiwago presente” e “Estudantes de filosofia em luto”. No Centro Acadêmico de Filosofia (Cafil), os discentes ainda acenderam velas, leram poemas e deixaram flores.

Nesta quarta (27), imagens de câmeras de segurança do campus Darcy Ribeiro obtidas pelo Metrópoles mostram o estudante passando em frente a um prédio que parece ser o da Fundação Oswaldo Cruz. O delegado Laércio Rosseto, responsável pela investigação do caso, confirma que esse é o último registro do estudante, feito antes de ele seguir para as proximidades do Bloco J da Colina e ser morto a pedradas no sábado (23).

No vídeo (veja abaixo), Jiwago aparece sozinho, vestindo casaco e bermuda, carregando uma sacola e com um violão jogado nas costas. Estava barbudo. O registro da imagem está uma hora adiantado e mostra que ele transitou pelo local às 12h15 de sábado (23). Ou seja, as câmeras captaram a passagem de Jiwago às 11h15.

 

Chefe da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), o delegado Laércio Rosseto disse que ainda não há ninguém preso por suspeita do assassinato. Segundo a ex-esposa do estudante, Vanice Silva Dantas, 47 anos, os objetos do ex-marido que aparecem nas imagens não foram encontrados.

Questionamentos
Vanice tem acompanhado de perto as investigações do caso. Ela afirmou desconhecer inimizades do ex-companheiro, mas contou que o estudante já havia sido agredido por outros alunos na universidade. “Como vivia nessa situação marginalizada, chegou a ser espancado outras vezes, mas ninguém imaginou que isso fosse acontecer”, destacou. “Quem matou Jiwago o conhecia”, disse, convicta.

A linha de investigação segue as primeiras informações dadas pela ex-mulher de Jiwago. Quando o corpo foi encontrado, ela confirmou que o estudante era usuário drogas e teria feito uso de entorpecentes horas antes de morrer. Vanice contou ainda ter visto o rosto do ex-marido desfigurado.

Um cachimbo usado para consumo de crack foi apreendido ao lado do corpo. Por isso, a polícia investiga se o crime está relacionado com uso de drogas.

Estudante
Matriculado no curso de filosofia, Jiwago era membro da comunidade acadêmica há nove anos. Durante o dia, frequentava as aulas. À noite, dormia em cantos escondidos da universidade. Ele vivia em situação de rua há, pelo menos, dois anos. Despertava a atenção dos colegas por ser gentil e educado. Mas, nos últimos meses, não parecia bem e estava agressivo.

Segundo familiares e amigos, Jiwago foi diagnosticado com bipolaridade e esquizofrenia. Como desde 2016 não seguia o tratamento prescrito, estava “extremamente surtado”. De acordo com Vanice, o ex-marido não estava conseguindo, havia mais de dois anos, pegar os remédios na rede pública de saúde. A falta de medicação o deixou à mercê dos efeitos dos distúrbios.

Vanice chegou a dizer que o ex-marido é uma vítima da falta de assistência do Estado. “A responsabilidade pela morte do Jiwago é toda do GDF [Governo do Distrito Federal], por negar as medicações que ele precisava, e da UnB, por não prestar o tratamento psicológico. Meus filhos agora estão sem pai e quero descobrir quem matou meu ex-marido. A justiça precisa ser feita”, cobrou, de forma incisiva, na última segunda-feira (25/6).

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